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segunda-feira, 9 de maio de 2011












Eduardo Vieira é natural de Santos e reside no Guarujá. Formado em letras, é professor de português. Contribui bastante com seus conhecimentos em comunidades virtuais sobre novelas. Leia abaixo seu texto analisando algumas personagens femininas marcantes de Gilberto Braga. Nossos agradecimentos a ele!



Gilberto Braga e as mulheres esclarecidas


Sempre que assisto às novelas do autor Gilberto Braga, o que me chama mais a atenção não são as vilãs ou vilões, tão comemorados e vistos como presentes pelos atores, mas sim as mulheres cordatas que permeiam suas novelas.

Discorro sobre isso na ocasião da morte da personagem de Ana Beatriz Nogueira em Insensato Coração, Clarice Cortez, em uma novela que, mesmo não estando na boca do povo, exibe boas tramas e traz sempre a boa marca registrada do texto gilbertiano e do seu parceiro de história, Ricardo Linhares. Chamo essas personagens carinhosamente de mulheres esclarecidas, que têm uma importância capital à história e mostra ao telespectador que ser bom não significa propriamente ser desprovido de graça.
Atrevo-me a apontar a primeira personagem desse tipo em sua obra: Ester, mulher do comendador Almeida, feita pela excelente Beatriz Lyra, a madrinha da escrava Isaura, na novela de mesmo nome, que a cria como uma filha e na hora de demonstrar com mais afinco sua bondade, morre estrategicamente, começando assim as agruras da escrava branca. Quando o autor mais tarde passa para uma trama moderna, uma adaptação da obra de Pedro Bloch, Dona Xepa, vemos que entre os personagens, uma sobressai não só pela bondade, mas pela compreensão, educação e bom trato com todas as pessoas, é a invejada Isabel Becker, vivida pela atriz Ida Gomes, que tem um casamento sólido , cuja vida é imitada pelo arremedo de vilã Glorita, a extraordinária Ana Lúcia Torre.

Já no horário nobre, vemos em Água Viva, a construção mais completa dessa mulher educada, refinada, que pertence e é valorizada por uma sociedade elitista que ela mesma condena. Trata-se da personagem da atriz Tetê Medina , Luci Fragonard, que, como a Clarice de Insensato Coração, causa muita comoção com a sua morte. A personagem conseguia ser amiga de aves de rapina como Lourdes Mesquita e doidivanas como Stella Simpson, respectivamente Beatriz Segall e Tônia Carrero em atuações memoráveis.

Esta última atriz ainda fez uma espécie de mulher esclarecida, mais tarde, como a conselheira e justiceira Muriel, em Louco Amor. Ela era a principal rival da vilã Renata Dumont. Contudo não se pode afirmar que a editora de moda seja uma esclarecida pura, pois era boa de briga, característica não muito presente nessas mulheres que preferem uma boa conversa a um barraco ou uma decisão mais enérgica.

Em Vale Tudo, talvez o maio
r sucesso do autor, tal personagem vem como o vértice do principal triângulo da história, a doce e sensível artista Helena Roitman, que é admirada até pela sua rival, a mãe coragem Raquel. Helena é sempre descrita como uma porcelana, um ser que não aguenta as maldades naturais do mundo. E de certa forma, é guardada em uma redoma pela tia e até pelo mordomo que a considera um ser diferenciado. O papel sofreu algumas críticas pelo fato de ser tão insegura e dependente, mas inexplicavelmente rendeu à atriz Renata Sorrah grande popularidade, pois ela se soltava quando bebia. Heleninha virou sinônimo de gente que bebe na época e talvez até hoje. Também pelo misto da bondade e da irreverência guardada em si, sentimentos díspares, também até hoje é cultuada pelos gays que talvez enxerguem na personagem rejeitada um espelhamento da condição homossexual.

Já em sua polêmica O Dono do Mundo, Glória Pires é a esposa do vilão que aguenta calada algumas traições do marido, mas logo sofre uma grande transformação pelo fato de não concordar com ideias machistas e preconcebidas do marido e do pai. Stella Barreto vira a sua vida do avesso, tira o diploma do armário e vai à luta tentar trabalhar na carreira de Jornalismo que largara ao se casar. Uma de suas frases à personagem Karen, vivida por Maria Padilha, resume muito o caráter dessas mulheres selecionadas : “ Há pessoas interessantes em todas as classes sociais.”, ela afirma.

Em Pátria Minha,
vemos a doce Tereza, Eva Wilma, presa num casamento de aparências, que se apaixona como uma criança pela primeira pessoa que lhe dá um pouco de atenção. Tais personagens têm isso em comum, uma carência que por vezes tende a se virar contra elas, pois elas viram alvos fáceis das armadilhas dos agentes que lutam para a desarmonia da história.

Na ensolarada Paraíso Tropical, vemos o retorno da grande atriz Renée de Vielmond, no papel de Ana Luísa Cavalcante, esposa dedicada de um dono de uma rede de hotéis (Tony Ramos). Sua vida é marcada por u
m grande trauma, a perda do filho, e depois a descoberta da infidelidade do marido com uma pessoa que ela tratava com o maior desvelo, a secretária dele. A exemplo de Stella Barreto, depois disso ela consegue vencer vários medos, como a retomada da profissão de advogada e o medo principal, de dirigir, pois o marido a convence sistematicamente que ela é uma pessoa muito frágil, e que indiretamente tivera culpa na morte do próprio filho.

Para se ter idéia de como às vezes esse tipo de papel rende, a participação da atriz que seria apenas no início da trama foi esticada graças à bondade e elegância de caráter que Ana Luísa imprimiu ao andamento da história. Na sua história foi abordado depois o tema da adoção de crianças e a amizade dela com a nova esposa do marido, Lúcia, vivida novamente por Glória Pires.

Na atual Insensato Coração vemos que, além de Clarice, que deixou a novela com gosto de “quero mais,” pois o público esperava um confronto maior com o homem que a fez sofrer tanto, há também, um tanto mais à sombra, a fig
ura de Gilda (Helena Fernandes) , uma mulher rica, porém de hábitos simples e com consciência social. Veremos que agora ela passará por um problema com o marido, Oscar e sua história será melhor desenvolvida.

Vemos portanto que os brasileiros também se identificam com personagens com ética, que tratam bem o próximo, que exibem consciência moral, e não somente com os famigerados vilões que estão cada vez mais difíceis de serem inéditos.

(Imagens: Rede Globo, Dramaturgia Brasileira)

10 comentários:

edu vieira disse...

adorei o texto com imagens dessas maravilhosas atrizes. Que esmero!!! beijos Edu

Amanda Aouad disse...

Bom, eu não estou acompanhando e gostando de Insensato Coração, mas o pouco que vi de Clarice achei um personagem interessante. Mas, e Força de Um Desejo? Quem seria essa mulher esclarecida? Guiomar?

bjs

edu vieira disse...

acho que em A Força de um desejo esse papel da história é cumprido pela frágil Juliana, papel da magnifica Júlia Feldens. a Guiomar eu coloco junto dos alter egos do Gilberto, as desbocadas, sem papas na língua, como a Janete em Água Viva, a Ângela Leal em Dona Xepa, a Carminha em Dancin Days.Pulei algumas novelas porque se não ia ficar mais extenso ainda.

Denise disse...

Amei o texto! Uma análise brilhante destas personagens que enriqueceram o universo das telenovelas brasileiras. Na minha opinião, as que deixam mais saudade são a Heleninha de Vale Tudo e a madrinha da escrava Isaura, Ester, minha favoritíssima.

Anônimo disse...

Saudades da Júlia Feldens... Por onde anda?

Parabéns pela análise, xará! Bastante sensível e arguta.

Eduardo Vieira - Recife/PE

Fernando Oliveira disse...

Gostei muito do texto e principalmente por ter falado na Ana Luísa de Paraíso Tropical. Renée de Vielmond esteve ótima nessa personagem e graças ao Bom Pai reconsideraram e deixaram ela ficar até o fim da novela.

Daniel Pepe disse...

Edu, quanto a ter pulado algumas novelas para não ficar extenso, não seja por isso, aceitamos uma segunda edição! rs

edu vieira disse...

Fernando, confesso que a Ana Luísa também é a minha favorita!!! Excelente volta da Renêe às novelas,pena que tão mal creditada ...e pensar que até a Lavínia Vlasak já brilhou em atrizes convidadas!!!

Fernando Oliveira disse...

edu vieira, muito bem lembrado. Ela foi creditada bem depois de personagens que nem faziam parte do núcleo que dela. Agora eu tenho a curiosidade de saber qual é o critério usado pelas emissoras na hora de creditarem os atores nas aberturas. Mas já adianto, a Record não deve usar critério nenhum rsrs um monte de aberturas ruins.

Chico Marques disse...

Belo exercício de memória o seu. Não lembrava mais da maioria dessas personagens. Parabéns pelo artigo. Mandei para meu irmão, que é um noveleiro inveterado, assim como você. Beijos.