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sábado, 10 de setembro de 2011

As tardes vão ter lua cheia - Parte II

Entrevista
Solange Castro Neves

por Duh Secco




Se Ivani Ribeiro é a alma de Mulheres de Areia, Solange Castro Neves, certamente, é o corpo. Coube a ela a tarefa de auxiliar a autora na adaptação da trama exibida pela Tupi em 1973 que, unida a O Espantalho, deu origem à versão levada ao ar pela Globo, agora retornando no Vale a Pena Ver de Novo. Solange era creditada como colaboradora, mas seu trabalho foi além da espera por escaletas. Ao lado de Ivani, ela uniu as sinopses, atualizou as tramas, redefiniu os personagens, reescreveu diálogos e criou muito do que vimos na tela em 1993. Nesta entrevista, Solange nos conta mais sobre os bastidores de Mulheres de Areia. Vale a pena conferir.


01 - Mulheres de Areia é quase unanimidade entre os noveleiros. Aclamada pelo público; sucesso em suas duas exibições anteriores; e de grande repercussão no exterior (na Rússia, teve seu último capítulo exibido num dia de eleição, evitando que eleitores viajassem). Na sua opinião, quais foram os ingredientes fundamentais para o sucesso? O que destacaria entre trama, personagens, atores e produção?

O êxito não depende apenas de um fator, mas sim da união de todos os envolvidos. Uma excelente história, com uma forte estrutura, estaria fadada ao fracasso se não tivesse por trás, um bom diretor, atores de peso, enfim, uma equipe entrosada e focada em um único objetivo, o sucesso da trama.  


02 - Mulheres de Areia foi sua terceira novela em parceria com Ivani Ribeiro. Já haviam trabalhado juntas em Amor Com Amor Se Paga e O Sexo dos Anjos e voltariam a se encontrar em A Viagem e Quem É Você, texto inacabado de Ivani que você concluiu. Como era o trabalho com a autora? O que aprendeu com Ivani?

Para mim, como escritora, a maior lição deixada por Ivani é não permitir que nada, nem ninguém, atrapalhem o ritmo do meu trabalho. Aprendi a isolar os problemas do lado de fora, quando entro em meu escritório para trabalhar. Outra grande lição, que ainda procuro colocar em prática, é conservar os pés no chão - o controle da situação em minhas mãos - mas a mente aberta a novas ideias. A pensar, ao escrever, com a cabeça de cada personagem, pois ao longo da história, tomam vida própria e às vezes isto muda o percurso da trama. Quanto à nossa convivência, Ivani era uma grande contadora de histórias, mas por suas experiências de vida, tornou-se um pouco reservada e demorava a confiar em alguém. Não foi diferente comigo, mas com o passar do tempo, nosso convívio foi maravilhoso, cercado de muito carinho, respeito e amor. Vou contar um fato que poucas pessoas sabem. Ivani recebeu uma mensagem psicografada de Chico Xavier onde constavam acontecimentos que apenas nós duas sabíamos e, para nossa surpresa, dizia que fui sua filha em outra vida. Este foi um dos dias mais emocionantes que vivenciei.


03 - Ao Jornal do Brasil, em 30 de janeiro de 1993, você comentou o processo de adaptação de Mulheres de Areia: “É o texto de duas novelas, mais um terceiro, feito para unir as histórias. (...) É mais trabalhoso que escrever uma novela nova”. Como se deu a junção de Mulheres de Areia e O Espantalho? Por que vocês optaram por inserir uma novela dentro da outra e como chegaram ao encaixe ideal das duas?

A união das duas novelas se deu quando comentei com Ivani, que tinha um tio com uma doença rara chamada rim policístico e que os sintomas que apresentava eram mais ou menos parecidos com os do antagonista de O Espantalho. Neste momento ainda decidíamos qual história dela, uniríamos com Mulheres de Areia, para enriquecer a trama, uma vez que antigamente, os capítulos eram muito mais curtos do que os de hoje. Daí casamos as histórias principais.


Vale dizer que reestruturamos a novela toda, permanecendo só o seu eixo. Foi um trabalho exaustivo, pois tivemos de aumentar os capítulos. Essa vivência, para mim, foi importante, aprendi muito. A Ivani estava com sérios problemas pessoais de doença em família e precisei assumir a novela sozinha. Mário Lúcio Vaz, Paulo Ubiratan, eram os únicos que sabiam dos pormenores e confiaram no meu trabalho. Graças a Deus a novela foi um sucesso.

Por experiência própria, posso dizer que um remake, na maior parte das vezes, é mais difícil do que a criação de um original. Um dos ensinamentos que a Ivani deixou, foi o de que, para mexer em um trabalho pronto, é preciso ter muito cuidado, requer paciência e atenção, pois nunca se pode mudar o esqueleto, o eixo da novela. Você tem que criar novos personagens, diálogos, atualizar a história. Ela brincava dizendo que uma escritora, nestas horas, era parecida com uma psicóloga: tinha de analisar todos os personagens, trabalhar com o esqueleto, mas não desmontá-lo, aparar as arestas, dar equilíbrio, veracidade a eles, sem tirar as suas essências, ou seja, sem desmontar sua coluna vertebral.


04 - Em 13 de março de 1993, o Jornal do Brasil destacou as críticas sobre a suposta incoerência no desenvolvimento da trama das praias poluídas. Segundo a publicação, os turistas eram impedidos de molhar o pé na água, enquanto os pescadores continuavam suas atividades no local e Ruth (Glória Pires) ensinava Tonho da Lua (Marcos Frota) a nadar. Você argumentou que as atividades dos pescadores ocorriam em praias próximas à Praia do Pontal, ponto de poluição do local, e que nem toda a orla estaria contaminada, ressaltando o seu embasamento na opinião de médicos e de órgãos competentes. É complicado inserir um merchandising na trama, sem afetar a ação da mesma? No caso de Mulheres de Areia, esta situação se tornou mais difícil, uma vez que as tramas desta e de O Espantalho divergiam neste ponto, a integração de determinados núcleos com o ambiente praiano?

Aprendi com a Ivani a tomar muito cuidado ao fazer um merchandising. Para passar credibilidade, temos que nos embasar em fatos reais. Em Mulheres de Areia, aconteceu este problema das praias do litoral, mas nos diálogos explicamos a situação das mesmas, através de fontes fidedignas. Outro exemplo parecido foi em A Viagem, quando fizemos o merchandising de uma espécie de adubo para a terra. Como filha de fazendeiros expliquei, na ocasião, que aquilo era quase impossível, pois na seca que atravessávamos na época, o adubo, em vez de fazer crescer o capim, mataria pela falta de chuva. Como o contrato com a empresa já estava fechado, tivemos que improvisar. Criei, então, uma situação, aproveitando as pancadas de chuva do verão e através dos diálogos, detalhamos que a fazenda Maktub era protegida, pois tinha chovido ali e no vizinho estava seco. Dado este fato, o capim nasceu e mostrei a diferença entre o capim bem rasteiro, quase aparecendo a terra, do vizinho, e sobrando pasto na fazenda Maktub.


05 - Na época da novela, você comentou as alterações nos perfis de determinadas personagens. Entre elas, Ruth (Glória Pires): “A Ruth de antigamente era muito carola. Além de morrer de culpa por estar assumindo o lugar da irmã, inventou várias desculpas para não dormir com Marcos”. E sobre a primeira noite do casal Malu (Vivianne Pasmanter) e Alaor (Humberto Martins), que, em 1973, só acontecia tempos depois do casamento: “Não dá para esperar tanto, pois hoje em dia os jovens são mais liberados”. Destacaria outras alterações importantes na trama e nos perfis das personagens? O texto original de Mulheres de Areia era datado demais no que se refere ao desenvolvimento da ação e comportamento das personagens?

Cada época tem o seu comportamento próprio. Lembro que a Ivani dizia, brincando, que a Ruthinha e o Tonho da Lua, eram meus, porque diferiam muito das personagens originais. A Ruth, na segunda versão, era uma jovem tímida, mas que trazia dentro dela um grande segredo, um filho que havia perdido o que não existia na outra história. Isso enriqueceu a personalidade dela, pois a personagem que é por demais boazinha, acaba se tornando chata. Quanto à Raquel, dei motivos para que lutasse pelo seu espaço, pois a Ruth era a queridinha de todos desde criança, pela sua meiguice. A irmã, então, chamava a atenção pelo oposto. A comparação que existia entre as gêmeas, fez com que Raquel visse em Ruth, uma inimiga. No fundo, queria ser a queridinha de todos.

Tonho da Lua teve um enfoque diferente, pois trabalhei anos com crianças especiais e seria injusto com as mesmas, que adoravam a novela, fazer com que o Tonho da Lua se curasse, pois todos se aceitam como são e sabem que não têm cura.


06 - A Globo já declarou que irá promover alterações na abertura original de Mulheres de Areia, de forma a esconder a nudez de Mônica Carvalho, na época modelo, exposta na vinheta. A TV brasileira está retrocedendo? O que vê como empecilho para a exibição de tais imagens, levadas ao ar às 18h em 1993 e durante a tarde, na época da primeira reprise da novela? A Classificação Indicativa limita a liberdade criativa dos profissionais de TV?

Não tenho conhecimento dessas mudanças. É a primeira vez que ouço falar. Acredito que não é pelo fato da modelo estar nua, hoje o nu se tornou tão banal... Acredito que talvez queiram dar maior criatividade da abertura.

Quanto à questão da censura, um escritor tem maneiras de driblar contando a história sob outro prisma. O difícil da censura é quando nos proíbem de tocar em determinados assuntos que estão dentro do contexto de nossa realidade, mas que não querem que venham à tona por motivos políticos.


07 - O que Solange Castro Neves faz atualmente, longe da TV brasileira? Gostaria de voltar ao veículo? E pra encerrar: vai acompanhar a reprise de Mulheres de Areia? Acredita que a trama pode repetir o sucesso de A Viagem, outra trama de Ivani na qual você colaborou, que elevou os índices do horário em sua segunda reapresentação?

Fiquei um tempo afastada da TV, por causa de problemas de saúde em família. Minha última novela na Globo foi Quem é Você. Algum tempo depois pedi demissão porque meu marido adoeceu e com isso não podia viajar para o Rio. Acabei aceitando a proposta da Record, por estar localizada em São Paulo, e lá fiz Marcas da Paixão e Roda da Vida. Depois me desliguei de tudo pelo agravamento da doença. Comecei a dar aulas de roteiro em casa ficando orgulhosa porque muitos dos meus alunos, atualmente, estão trabalhando em TV. Após ter ficado viúva, resolvi enveredar para a área de Cinema onde fiz vários trabalhos que estão em fase de produção: um longa metragem, um documentário e um curta. Devo confessar, entretanto, que apesar de toda a loucura que é escrever novelas, sinto saudade sim. Quem sabe um dia estarei de volta às telinhas.

Quanto à reprise de Mulheres de Areia, com toda certeza acompanharei. Como estou escrevendo meu segundo longa e tenho prazo para terminar, estou trabalhando muito, mas gravarei todos os capítulos, pois me remetem a momentos inesquecíveis. Acredito que Mulheres de Areia encantará a todos mais uma vez, não deixando de lembrar que naquela época não havia a tecnologia de hoje e que o trabalho em fazer as gêmeas Ruth e Raquel, foi praticamente artesanal, através da brilhante atuação do diretor Wolf Maya. Essa novela foi, para mim, um marco profissional, pois Ivani, como disse anteriormente, encontrava-se com problemas de saúde na família e eu assumi a novela sozinha. Esse fato fez com que, na A Viagem, eu fosse promovida a co-autora e Paulo Ubiratan me fez uma homenagem em forma de brincadeira, colocando meu nome em letras garrafais, pois me conhecia muito bem e sabia o quanto sou tímida.



10 comentários:

Mariana S. Castro disse...

ótima entrevista, e veio bem na véspera da reprise da novela. Parabéns.
Uma das melhores novelas de todos os tempos, sem dúvida.

Brunno Duprat disse...

Adorei a entrevista e acho válida a volta de Solange para o mundo das telenovelas. Como ela mesma disse quem sabe, né... rs!

Telinha VIP disse...

Novela boa nao é atemporal. Mulheres de Areia mostra bem isso. Espero que repita o sucesso de sempre pra emissora investir em reprises mais antigas.
Solange deveria ter mais espaço na TV, e inclusive se desvincular da imagem de co-autora de novelas da Ivani. Fez uma ótima novela, Marcas da Paixão, na Record, e mostrou que dá conta de um trabalho autoral.

Fernanda Tavares disse...

Foi uma das melhores novelas das 6 (pelo menos dos últimos 30 anos). Mulheres é uma das novelas mais sérias da Ivani, junto com A Viagem, já que as outras, da Globo pelo menos, eram bem aguinha com açúcar.

André San disse...

Boa entrevista! Não sabia que Solange tinha tido uma participação tão grande na concepção deste remake. Mulheres de Areia é um clássico atemporal e um sucesso merecido! Espero que se torne um sucesso pela quarta vez!
André San - www.tele-visao.zip.net

Nildo Santana disse...

Ivani e Solange são show! Aguardando pela reestreia amanhã.

Renato Bonifácio disse...

Muito bacana.... Parte I e II hauhahuauhauha parabéns Duh por mais esse post de qualidade pro agora é que são eles.

Portal Cascudeando disse...

Solange fez muita coisa durante a novela!!! Fiquei pasmo ao descobrir mais curiosidades sobre essa que é a primeira novela que eu lembro de ter assistido. Parabéns pelo blog e pela entrevista!
www.portalcascudeando.blog.com
@cascudeando

Isaac Abda disse...

Excelente novela e e excelente também essa entrevista, reveladora... torço pela volta da Solange à telinha.

Parabéns, meninos!

E. S. disse...

Gostei da entrevista, mas achei falta de perguntas sobre Marcas da Paixão e Roda da Vida, novelas que eu assisti e gostei (pelo visto só eu). Parabéns pela entrevista.