Somos amantes da teledramaturgia. Respeitamos a arte e a criação acima de tudo. Nosso profundo respeito a todos os profissionais que criam e fazem da televisão essa ferramenta grandiosa, poderosa, que desperta os mais variados sentimentos. Nossa crítica é nossa colaboração, nossa arma, nosso grito de liberdade.



ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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domingo, 8 de maio de 2011





ALCIDES NOGUEIRA





Foto: Antonio Luiz Quintela
Gentilmente cedida pelo autor
 23 peças de teatro, 13 novelas, 2 minisséries e alguns casos especiais. Estes são alguns números da brilhante carreira de Alcides Nogueira, cujo talento e simpatia são incomensuráveis. Autor da próxima minissérie da Globo, O Astro, adaptação do sucesso de Janete Clair, Tide deu uma pausa nos roteiros para nos conceder essa deliciosa entrevista. Todo o nosso agradecimento a ele pela atenção e pelo carinho com que nos tratou. E desde já, nosso desejo de muito sucesso para O Astro!




Ivan Gomes pergunta:
Você esta fazendo a adaptação de O Astro, um clássico da televisão brasileira. Como está sendo trabalhar com a obra de Janete Clair? Quais critérios você tem buscado usar em termos de atualização de tramas?

Antes de mais nada, quero dizer que é ótimo estar aqui com vocês, e gostaria de apresentar a equipe. Trata-se de uma série de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, escrita com a colaboração de Tarcísio Lara Puiati e Vitor de Oliveira. Não é fácil fazer uma nova leitura dessa obra de Janete. Mas o desafio é instigante. O critério básico tem sido eliminar a possibilidade de a trama se tornar anacrônica. Afinal, muita coisa mudou do final dos anos 70 para cá. O formato também é outro. O Astro foi uma novela com praticamente o triplo de capítulos de nossa série. Optamos por uma nova linguagem, mesclando o naturalismo janetiano e uma certa magia, que emana da própria trama que ela criou. À medida que a escrita avança, temos sentido que um capítulo vai engravidando o outro. Isso é um bom sinal. Como há uma sintonia muito afinada com a direção-geral do Mauro Mendonça Filho e com Roberto Talma, diretor do núcleo, estamos nos sentindo muito à vontade para ousar. Agora é torcer para que o espectador (maior juiz sempre) compre a proposta.


 Guilherme Staush pergunta:

A Lili (personagem interpretada por Elizabeth Savala na primeira versão de O Astro) era uma mulher bastante masculinizada em seu visual e em suas atitudes: foi motorista de táxi e trabalhou em uma barbearia, coisas bastante incomuns e até chocantes na década de 70. Como vai ser o perfil dessa personagem no remake?

A nossa Lili (Alinne Moraes) continuará sendo uma mulher bastante firme, solta, alegre. Mas é mais feminina, mais doce... Mesmo sendo boa de briga. Vamos mostrar o lado sensual dela.  Lili começará trabalhando num salão de beleza (não mais barbearia), e somente depois é que será taxista. Hoje em dia o fato de uma mulher dirigir um táxi não choca mais (salão de beleza nunca chocou). O mais interessante será mostrar as diferenças de temperamento entre Lili e Márcio (Thiago Fragoso), que dão muito colorido à história de amor. Outra diferença importante é a inclusão do novo subúrbio carioca, principalmente depois da pacificação. O mundo de Lili agora é a Penha, tão rica em sua tradição religiosa e cultural.


Duh Secco pergunta:

O Astro vai ao ar em um horário no qual a programação costuma ser segmentada. Acredita que para o público seja difícil acompanhar uma trama sujeita a alterações de horário significativas como as de quarta, dia em que a Globo exibe futebol? O fato de não ter exibição às segundas pode atrapalhar?

Tudo isso é uma incógnita. Todas as emissoras de televisão estão sendo obrigadas a lidar com o imponderável. Não se trata somente do horário. Houve uma mudança muito grande do perfil do espectador. Quem é que vê TV aberta hoje, principalmente com o surgimento de tantas outras mídias, principalmente a internet? Ainda é difícil detectar. Eu mesmo, por mil razões, vejo capítulos de novelas ou outros programas em sites. A internet alterou totalmente a comunicação em todo o mundo. Por isso, o conceito de fidelização precisa ser revisto. O fato de ser uma série com sessenta capítulos pode ajudar a “prender” o espectador, mas quem pode afirmar isso com certeza? Eu, não. Quanto à não exibição às segundas, pelas experiências que tive (Um Só Coração e JK) isso não chega a ser um problema. O espectador já conhece o formato dos quatro capítulos semanais. A pedreira é, sempre, a quarta-feira, por causa do futebol. E não há como mexer nisso, pois a transmissão das partidas é ao vivo. A única saída é criar bons ganchos já nos capítulos das terças, para garantir o interesse pelas tramas.


Duh Secco pergunta:

No final de Ciranda de Pedra, em 2008, você declarou: “Eu queria ter abordado certos assuntos, mas não deu. Tive que achar outras saídas para que a novela não ficasse muito pesada. Eu gostaria de ter falado na impotência de Conrado ou no lesbianismo de Letícia, mas o horário não comportaria.” Acredita que, fora o horário, a Classificação Indicativa atualmente vigente também limita as intenções dos autores? Vai se aproveitar do horário mais tardio para aprofundar temas mais pesados em O Astro, como o bissexualismo de Felipe Cerqueira (Henri Castelli), apenas insinuado na versão original?
 
Sem dúvida o horário facilita a abordagem de temas mais polêmicos. O bissexualismo de Felipe Cerqueira, sua relação com Clô (Regina Duarte) e com Henri (João Baldasserini), já estará presente desde o início da história. Aprendi com o Sílvio de Abreu, escrevendo com ele e Maria Adelaide Amaral a novela A Próxima Vítima, que, quando a abordagem de temas como orientação sexual, feita de maneira simples e natural, é recebida muito bem pelo público. Tomara que aconteça o mesmo. O Supremo aprovou por unanimidade a união estável entre homossexuais. É um grande avanço. Mas há outros temas que geram controvérsias, como drogas, inclusão social etc.


Daniel Pepe pergunta:

Nem todos os autores têm pretensões de escrever para o horário nobre, preferem ficar às sete (como Carlos Lombardi) ou às seis (como Walther Negrão). Você aspira algum dia poder contar uma história para esse horário, considerando que nesse caso os capítulos são maiores e as novelas ficam no ar durante mais meses?

Já escrevi, como co-autor, muitas novelas para o horário das 20/21. Mas gosto mesmo de contar uma história às 18 horas. Ou, então, das minisséries e séries. Não por causa do tempo de escrita (que, às 21, realmente é estafante). Gosto da leveza, do romantismo, do humor que o horário das 18 permite. Se é para pesar mais a mão, então o melhor é ir para esse novo horário das 22,30.


Duh Secco pergunta:

Você já adaptou Janete Clair em 1987, ao colaborar com Walter Negrão, em Direito de Amar. A novela pertence a uma fase distinta de Janete, a romântica, quando ela dava predileção ao folhetim em contraste com dramas realistas, caso de O Astro. Quais as lembranças dessa adaptação?

Tenho deliciosas lembranças desse trabalho. A história de Janete (da fase radiofônica) era maravilhosa. O Negrão soube trazê-la para a telinha com muita arte. Considero, até hoje, uma das melhores produções da Globo para o horário. A direção do Jayminho era impecável. Foi a minha segunda participação em novelas. Até hoje ouço muitos comentários sobre Direito de Amar.


Ivan Gomes pergunta:










Tem alguma cena de telenovela em que você se emocionou ao escrever?

Várias. Mas o último capítulo de Ciranda de Pedra me tocou particularmente. Eu estava me despedindo de Laura (Ana Paula Arósio) e Daniel (Marcello Anthony). E, mesmo de maneira metafórica, tinha conseguido colocar a morte deles como um momento onde a dor foi substituída pela poesia.



***

9 comentários:

Fábio Leonardo disse...

Que bela entrevista!

Tide nos presenteia com sua sensibilidade ante a arte que reinventa, e nos deixa ainda mais ansiosos pelo seu novo trabalho.

Parabéns a Alcides Nogueira, e aos queridões que o entrevistaram!

O Vitor viu... disse...

Parabéns, queridos! Entrevista bacanérrima! Sei que sou suspeitíssimo pra falar, mas "O astro" está sendo construído de maneira quase artesanal, com um cuidado enorme em cada capítulo, sempre cheios de emoção e tensão crescente. Audiência é sempre algo imponderável, mas posso assegurar que tudo está sendo feito com muito carinho. Como espectador, vibro com cada capítulo. Como colaborador estreante, penso na enorme sorte que tive. Não poderia começar de maneira melhor: pelas mãos dessa pessoa absolutamente única que é o Tide e adaptando uma trama de Janete Clair. Geraldo e Tatá também são excelentes e isso faz com que a equipe seja muito harmônica. Além do talentosíssimo autor que é, Tide é uma pessoa rara, generosíssima, que sabe valorizar e ouvir o que cada um tem a dizer. Estou aprendendo muito sobre muitas coisas. Portanto, espero que curtam bastante "O astro". Abraços!

Isaac Abda disse...

O Astro em breve tá na telinha e eu torço pelo sucesso de mais uma produção da nossa teledramaturgia, agora com um motivo a mais... quem foi mesmo um dos colaboradores citados pelo Alcides? rs... é isso aí, o Vitor tá apenas começando, e já numa produção histórica... PARABÉNS a toda a equipe de O Astro e a vocês por essa dinâmica entrevista!

Nilson Xavier disse...

Ótima entrevista!
Sucesso ao Astro!

Paulinha disse...

Alcides sempre solícito nos brindando com mais uma entrevista das boas desse espaço.

Sucesso ao Astro!

Licinha disse...

Adorei as perguntas e as respostas. Nota-se quando o autor está a fim de dar a entrevista. Respostas certeiras, sem rodeios.

Parabéns ao blog! Mais um ponto!

TH disse...

Alcides Nogueira sempre irá ratificar minha ótima impressão sobre sua acessibilidade; Seja pessoalmente ou no plano virtual, a gente nota estar diante de um profissional engajado e competente, e simpaticíssimo - raridade no meio dos autores.
Perguntas bem elaboradas, respostas idem. Uma perfeita e equilibrada entrevista - dando um banho na de Walcyr Carrasco (cujas perguntas foram bem melhores que as respostas...veneno mode on)

RÔ_drigo disse...

Entrevista saborosíssima, parabéns pelas perguntas Eles e tbm pelas respostas do Tide!

FABIO DIAS disse...

O blog de vcs é excelente, parabéns pela entrevista, muito bem elaborada. Vocês se mostram grandes conhecedores de teledramaturgia, E SÃO!

Este blog já está no meus favoritos, ou seja:
TODOS OS DIAS VISITADO POR MIM!

Abs


Fábio Dias R.
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