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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012



Os Gigantes
A novela a que todos gostariam de ter assistido


A memória prodigiosa de Eduardo Vieira faz deste professor, fã de teledramaturgia, presença constante nos mais diversos blogs dedicados a TV, inclusive o Agora, que publicou um texto desse nosso amigo em maio do ano passado (leia aqui). Hoje, Edu retorna ao nosso blog para rememorar uma das novelas mais comentadas da nossa dramaturgia: Os Gigantes.





Em 1979, há o término de uma das maravilhas da autora Janete Clair, o sucesso inconteste de Pai Herói. Acabava a torcida de com quem o mocinho justiceiro André Cajarana iria ficar: com a rica e mimada bailarina Carina (Elizabeth Savalla) ou a popular dos pés até o pescoço Ana Preta, personagem que caiu no amor do público, feita por uma ainda muito bonita Glória Menezes. Também nos despedíamos de um dos melhores personagens da teledramaturgia, o vilão involuntariamente cômico, Baldaracci, vivido por Paulo Autran, muito à vontade em sua primeira novela na Globo.



Para substituir à altura tal obra contaram com uma tríade que era artilharia pesada nas novelas daquela época, Tarcísio Meira, Francisco Cuoco e Dina Sfat, os dois últimos vindos de outro sucesso de Janete Clair, O Astro. Refiro-me à novela Os Gigantes cujo título, aliás, na época chamava-me a atenção apenas por ser bonito, mas desconhecia sua real dimensão e tampouco o duplo sentido que poderia haver nele, pois a novela contava com dois dos principais galãs da Rede Globo e uma atriz magnânima, ora protagonista, ora antagonista, sempre de forma bem sucedida. Eles, os personagens também eram grandes, “gigantes” perto da pequena cidade de Pilar. Mostra-se flashbacks das personagens, Paloma, Fernando Lucas e Chico Rubião (Dina, Tarcísio e Cuoco, respectivamente), crianças, criando um laço e já uma amizade / passionalidade incríveis entre os três, algo até patológico, pois se tratavam de crianças, primeira estranheza da história escrita por Lauro César Muniz, vindo já da não bem recebida Espelho Mágico.

A história da novela inicia-se quando Paloma retorna à sua cidade, pois seu irmão gêmeo, Fred (Roberto de Cleto), está desenganado pela medicina. Paloma é uma mulher da sua época, jornalista, arrojada e inteligente, que ao ver o sofrimento do irmão e o contexto da família, a tristeza da mãe Eulália (Miriam Pires), uma cunhada objetiva e ambiciosa, Veridiana, vivida por Suzana Vieira (aquela atriz eficiente, sempre presente nas novelas do autor), em relação à fazenda, herança do pai, decide abreviar o sofrimento do irmão desligando os aparelhos que o fazia vegetar. Estávamos discutindo a eutanásia no horário nobre.

Além de tratar desse tema muito sério e até então inédito, a novela mostrava-se lenta para o horário, principalmente no início, quando ela deveria atrair a audiência. Cenas longas de reflexão mostrando se Paloma iria ou não fazer o tal ato, nas salas de espera do hospital ou com os “pés no riacho”, como cantava Gal Costa em sua música tema, Força Estranha, eram mostradas em um ritmo monótono, o que junto ao assunto nada romântico, ajudou a afastar o público carente por um romance arrebatador como o da novela passada.

Outro problema que veio somar ao ritmo da novela é que o público não se identificou com a causa da personagem e ainda por cima esta vinha destruir relacionamentos estáveis dos dois homens (ainda!) apaixonados por ela. Fernando (Tarcísio) era casado com Vânia, um papel apagado de Joana Fomm, uma mulher boa, religiosa que finge que não sabe que o marido fora apaixonado a vida inteira por outra. Chico Rubião (Cuoco) era noivo da linda Helena (Vera Fischer), com quem nunca regularizava uma situação, parecendo já antever a volta da amada. O que dizer de uma personagem principal que não era gostada nem pela própria mãe?

Como recurso para alavancar a audiência, a trama ficou mais focada no triângulo passional cada vez mais doentio entre os três amigos, e o tema da eutanásia ficou em segundo plano em um processo que a personagem de Suzana Vieira, sem provas, move contra a cunhada, inicialmente até com a ajuda da sogra, embora esta mude quando mais tarde Paloma decide casar-se com um de seus pretendentes e ter uma vida aparentemente normal.

A trama principal, porém, ficou atravancada, pois não era muito usual uma heroína “dar bola” para dois galãs. Para o público, moralista, ela tinha que escolher um e se contentar, mas a dúvida da personagem persiste até o final, no que se supõe ser a ideia do autor ter criado uma personagem feminina única, com características masculinas, que amava dois homens, algo impensável à época, uma espécie de Jules et Jim das novelas, ou seja, o melodrama dava espaço a uma história um tanto avançadinha, mais para o modo europeu do que para uma história mais convencional, outro ponto que afastava os telespectadores.

Nesse contexto sobressaem três personagens do núcleo jovem da novela, vividos por Lídia Brondi, Lauro Corona e Solange Theodoro. A personagem de Lídia, Renata, uma veterinária, surge apaixonada por Fernando (também no meio da novela discute-se a febre aftosa), porém esta quando conhece Paloma também se encanta com a rival que acaba ficando sua amiga. Rumores dizem que haveria uma insinuação homo afetiva entre as personagens, algo que não arrisco a dizer, contudo arrisco a pensar, pois a novela era mesmo diferente dos clichês românticos até então contados. Tanto foi assim que logo trataram de esquecer o provável namoro entre Polaco e Renata, papéis de Lauro e Lídia, casal de enorme sucesso em Dancin’ Days. Eles já começam a trama como ex-namorados; ele, um jornalista que simboliza a liberdade e o progresso da pequena cidade, e que se envolve com uma moça aquém de sua cultura, Cris, papel de Solange Theodoro, que já havia feito uma escrava em Memórias de Amor, novela das 18h00. Esse acaba sendo o romance por quem todos torcem na verdade, o amor puro, romântico, com dificuldades, mais de acordo, o que fez o público enfim reconhecer que estava assistindo a uma novela das oito.

Outro papel que teve relativo sucesso foi o feito pela excelente Cleyde Blota, mãe de Renata, a desbocada Selma, uma mulher sem papas na língua e meio vulgar, dona do botequim, que tem uma relação de cão e gato com a filha, pois a veterinária sente vergonha do jeito da mãe. O personagem fez sucesso e ganhou um amor: o do delegado Victor, feito pelo ator Jonas Mello. Era um alívio uma trama com humor em uma história extremamente pesada, com personagens densos por demais.

Supostamente, Paloma, no final opta por Chico Rubião (pelo menos este não era casado), mas paira a sombra: o filho dos dois pode ser de Fernando, pois o personagem de Cuoco descobre-se estéril - ah, sempre o folhetim para salvar tudo – e nesse impasse de falta de liberdade, sentindo-se sufocada, Paloma decide, no final da novela, sobrevoar a fazenda com seu avião, um hobby, que culmina em um acidente, algo que não fica muito claro, pois também o suicídio era outro tema um tanto forte e até hoje um tabu para ser digerido pelo público médio de uma novela.

Hoje, entretanto, esta novela tem um quê de cult, pois o autor é um dos únicos daquela época que ainda está na ativa, mesmo em outra emissora, e não obstante a lentidão das cenas, talvez fosse mesmo melhor compreendida atualmente.




5 comentários:

Anabela disse...

Eu havia esquecido o quanto essa novela foi boa! O tema "eutanásia" desde sempre chamou minha atenção e lembro que era um dos meus maiores interesses na trama. Lendo seu texto e relembrando, não consigo deixar de pensar em como "Os Gigantes" daria um belo filme.

Anônimo disse...

Que belo texto,Eduardo!!!

Sempre tive uma grande curiosidade quanto a essa novela!!!
Suas palavras me fizeram viajar no tempo!!!Uma pena que essa novela vai ficar,para sempre,no limbo do esqeucimento!!!Quer dizer,em parte,pois sempre temos o prazer de encontrar pessoas tão bem informadas que viveram esses áureos tempos da nossa damaturgia e compartilham esses bons momentos,o seu caso!!!

Parabéns mais uma vez e sempre estou de olho no blog!!!

Daniel Pilotto disse...

Edu, texto impecável como sempre!!!!
E mais ainda, trazendo de volta, nem que seja pela memória emotiva de quem lê, lembranças de uma novela aparentemente estranha, mas moderna e muito a frente de seu tempo.
Eu vejo OS GIGANTES como uma experiência única, não consigo julgá-la negativamente (como fazem os adolescentes que infestam as comunidades de novelas, julgando tudo fracasso ou "flopada" como costumam dizer!). Eu analiso como uma trama única e singular, precursora de idéias que viriam a ser mostradas anos depois, com mais sucesso.
Talvez Lauro Cesar pensasse num filme, ou então numa peça de teatro (já que é um dramaturgo impecável nos palcos)ao escrever esta novela. Aí está a palavra, esqueceu-se do veículo. Ninguém queria ver algo tão sombrio e pesado na hora do jantar, o afastamento era inevitável. Outra trama que padeceu da mesma recuso um ano antes foi a ecológica SINAL DE ALERTA. O público não gosta de ser defrontado com as coisas mais evidentes, pois quer se refugiar no sonho.
Bom, desta trama ainda destaco como a primeira novela do meu queridíssimo amigo Jonas Mello na Globo depois de uma década de sucesso na Tupi. Eu tenho o último capítulo de OS GIGANTES em dvd, fiz até uma cópia para o Jonas (sim, acreditem, os atores não tem seus próprios trabalhos), e ele mal podia acreditar ao se rever nesta trama!!!
Parabéns Edu, adorei recordar e saber de detalhes tão preciso e preciosos!!!!!

Emerson Felipe disse...

Excelente texto, Eduardo, inclusive com informações sobre Os Gigantes que nunca vi em nenhum outro blog ou site especializado (a abordagem da febre aftosa e até mesmo uma trama com humor impulsionada por Cleyde Blotta e Jonas mello).

Os Gigantes, com sua temática bem séria, polêmica e possivelmente inédita para a época, é uma das novelas controversas que mais despertam minha curiosidade. Provavelmente o público de 1979, ainda em êxtase com a luta da mãe ex-presidiária para conquistar a filha, com as coloridas cenas da discoteca de Dancin' Days e com o triângulo amoroso de Pai herói não estava preparado para algo mais denso e até um tanto soturno como a discussão sobre eutanásia. Hoje, provavelmente, poderia ter uma melhor aceitação, conforme a conclusão do texto.

Parabéns pela exposição de curiosos detalhes e lembranças dessa novela pouco conhecida e obscura que é Os Gigantes... e talvez, por esses mesmos adjetivos, fascinante!

Kleiton Alves Hermann disse...

Muita curiosidade em ver essa novela, e com esse texto aumentou mais ainda. Sempre que uma novela rejeita o público, aguça ainda mais a curiosidade de quem nao viu.

Abraço;