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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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sábado, 2 de abril de 2011



LIVRE PARA VOAR
por Guilherme Staush










1984

Autor: Walther Negrão
Colaboração: Alcides Nogueira
Direção: Wolf Maya e Fred Confalonieri

BEBEL, CRISTINA E UM PARDAL APRISIONADO, SEM CHANCES DE VOAR
A vida dos moradores da cidade de Poços de Caldas, no interior de Minas Gerais, nunca mais foi a mesma depois da chegada de dois misteriosos novos habitantes.
Maria Isabel Jardim Julião (Bebel) (Carla Camuratti), a rica herdeira de uma fábrica de cristais local,cujo pai havia falecido recentemente. Criada na Europa, ela volta a sua terra natal para tomar posse da direção da empresa, mas não sem antes descobrir quem e como são as pessoas que dirigem os negócios do falecido pai. Para isso, Bebel se disfarça de Cristina, uma humilde moça que serve café na fábrica.
Pardal, apelido formado pelas iniciais de seu nome, Paulo Alberto Ramos de Almeida Lima (Tony Ramos), é um rapaz de origem misteriosa que acaba indo parar na cidade  ao pegar carona em um trem, onde conhece o pequeno Gibi (Fernando Almeida), um garoto fugido de um orfanato, cujo sonho é ter um lar de verdade com um pai e uma mãe. Os interesses de Pardal e do pequeno Gibi se fundem, na medida em que o primeiro acaba apaixonando-se por Bebel, e o segundo vê no casal a possibilidade de finalmente ter uma família. O garoto passa a morar em um vagão de trem abandonado juntamente com Pardal, que logo começa a fazer esculturas de ferro velho e se torna conhecido pelo seu novo ofício.
Porém, quando Pardal descobre que Bebel e Cristina são a mesma pessoa, cria-se um grande abismo entre os dois. Apesar de se casarem, não vivem como marido e mulher. A vida conturbada do casal cria proporções maiores quando ele descobre que ela está grávida e acredita que o filho seja de outro homem, já que haviam tido relação sexual uma única vez, e justamente quando ele estava embriagado, o que o impede de lembrar do ato.

HELENA: O CHARME DO VENENO
Como em toda a novela que se preza, foi preciso entrar em cena alguém que servisse de empecilho para a felicidade do casal. E é aí que surge Helena (Dora Pellegrino), uma charmosa vilã que não mede esforços para destruir a felicidade de Bebel e Pardal. Ela foi amiga de infância da herdeira da empresa, e ocupava o cargo de diretora da fábrica de cristais. Helena desviava dinheiro da empresa para sustentar as ambições do namorado Danilo (Carlos Augusto Strazzer), fazendo com que ele assinasse várias notas promissórias para que ela tivesse um trunfo para usar no momento certo. Ao ver que Danilo se apaixonou por Bebel, Helena se desespera e faz de tudo para destruir a rival, que ainda por cima quer tomar posse daquilo que é seu por direito:  direção da fábrica.

AS MENINAS DA REPÚBLICA E OS RAPAZES DA PEQUENA POÇOS DE CALDAS
Um núcleo bem interessante da novela foi o da república feminina, formada pelas moças que trabalhavam na fábrica: Verona (estreia de Cássia Kiss na TV), que comandava a casa com mãos de ferro; a tímida Rô (Cássia Forreaux); Tuca (Élida L’astorina), a mais politizada e que lutava pelos direitos trabalhistas; Janda (Denise Milfont, também estreando em novelas), a assanhada da turma, que só pensava em rapazes de braços fortes; e Suzana (Deborah Fucs), a mau caráter do grupo, que não hesitou em ajudar Helena em suas tramas diabólicas, adquirindo assim certas vantagens dentro da fábrica.
O núcleo jovem da novela também era composto pelos rapazes: Alvinho (João Carlos Barroso), que apesar das diferenças sociais e intelectuais, se vê apaixonado por Tuca; Jajá, o trabalhador da turma, que mantinha uma oficina mecânica em um bar na cidade; Quim, (Tiago Santiago, que viria a se tornar autor de novelas), irmão de Jajá, o mau caráter da turma que vivia aplicando golpes no pai e no irmão; e Cecílio (estreia de Alexandre Frota na TV), um rapaz que desprovido de intelecto, só se preocupava em manter o corpo sarado, e que virava uma fera toda vez que era chamado de Cisso pelos colegas da turma.

UMA LADY PORTUGUESA E DOIS ADORÁVEIS CAVALHEIROS
Carolina (Laura Cardoso), a acompanhante de Bebel, ao longo da história acabou se transformando em alvo de disputa de dois senhores totalmente distintos: Sr. Lao (Abrahão Farc), um tcheco responsável pela fabricação dos cristais da fábrica, e que sofria com as sequelas psicológicas deixadas pela guerra em seu país. Era um cavalheiro distinto, gentil, que tratava Carolina como uma lady, da maneira que ela merecia. Em oposição a ele, estava o Sr. Pedrão (Elias Gleizer), um maquinista aposentado de porte e gestos abrutalhados, que falava alto e gesticulava muito, demonstrando uma certa falta de educação, mas que, com sua imponência, acaba ganhando o coração da senhora portuguesa, apesar da forte oposição do filho Quim.

MARTA: FRIEZA E CARÊNCIA HABITANDO O CORAÇÃO DE UMA MULHER
Outro núcleo bastante forte na novela foi o da casa onde morava Helena. Sua mãe, Marta (uma das melhores interpretações de Suzana Faini) era uma mulher fria, amarga, fechada em seu próprio mundo de mentiras. Envergonhada pelo fato de seu marido ser um ex-alcoólatra, ela sempre escondeu o verdadeiro motivo do afastamento dele durante o seu tratamento, e sempre o tratou com indiferença, mantendo um casamento de aparências apenas pelo fato de não querer ser uma mulher divorciada. Marta era uma pessoa estranha, indiferente a todos. Não aceitava nem mesmo gestos afetivos de seus próprios filhos. Qualquer beijo ou afago vindo deles  eram sempre rejeitados por ela, que dava sempre a desculpa de que iam estragar o seu penteado. Com o tempo, ao perceber que sua família está se desmoronando, ela sofre uma grande transformação.
Álvaro (Edney Giovenazzi), por sua vez, era um marido que tentava se aproximar da mulher, na tentativa de reconstruir tudo o que perdeu em termos de afetividade, seja por parte da mulher ou dos filhos. Com o tempo, Marta acaba jogando-o nos braços de uma antiga paixão: Beatriz (Nívea Maria), que por sua vez, nutria uma forte afeição pelo afilhado Edu (Cássio Gabus Mendes), outra trama bastante interessante da novela.
Bia passou a assediar Edu dando-lhe presentes caros e interferindo na vida pessoal do rapaz. O gesto mais comentado de Bia foi quando ela presenteou Edu com um carro de presente de aniversário. A partir daí, muitas revelações vem à tona, e Bia dá um fim em sua história de amor mal acabada. A cena em que ela ateia fogo no carro de Edu, simbolizando o final de sua história com ele, rendeu um ótimo momento da  novela.

VOOS NO MESMO LUGAR
Um duradouro vai e vem na relação dos protagonistas por vezes cansou o telespectador. A própria protagonista Carla Camuratti declarou, algum tempo depois, que achou a personagem muito cansativa e sem rumo, e que havia se desencantado com a profissão. De fato, Carla abandonou a carreira de atriz algum tempo depois, e investiu pesado na carreira de cineasta. Seu filme Carlota Joaquina é um dos responsáveis pela retomada do cinema nacional após o caos deixado pelo governo Collor.
Bem mais interessantes eram as tramas paralelas da novela, como o conturbado romance de Helena e Danilo, que culmina com a chantagem feita por ela, obrigando ele a casar-se em troca da destruição das promissórias assinadas, que comprometiam o rapaz. Só que Helena não contava com a astúcia de seu noivo, que recuperou as promissórias nas vésperas do casamento, e, em pleno altar, na hora de dizer o “sim”, jogou os papeis picados em cima da “amada”, gritando um sonoro “não”. Na sequência, ele é perseguido pelos rapazes da cidade, incluindo Alvinho, o irmão da noiva, e surrado, sendo abandonado em um terreno baldio, neste, que é um dos melhores capítulos da novela.
A figura do vilão psicótico, tantas vezes presente nas novelas do autor, aqui, ficou representada por Helena, que após sofrer diversas perdas e desilusões acaba enlouquecendo e  aterrorizando a vida de Bebel, principalmente durante sua gravidez. Uma das cenas de forte impacto foi quando Helena presenteou a rival com roupinhas de bebê de cor preta.
Destaque para a canção “Veneno”, interpretada por Marina, que deu um charme todo especial à personagem de Dora Pellegrino. Poucas vezes se ouviu uma canção tão adequada em uma trilha de novela. Aliás, a trilha nacional é toda excelente. Logo foi substituída por uma desnecessária, porém  bem-vinda trilha internacional de ótimo repertório.

AS DUAS CRISTINAS DA VIDA DE PARDAL
No final da novela, após Pardal conseguir provar que estava sendo acusado de um crime injustamente, ele é surpreendido pelas duas Cristinas de sua vida: Bebel, disfarçada de moça do café, e a filha do casal. “Se duas Cristinas pedirem pra você ficar você fica?”, pergunta a mulher. Não havia mesmo como negar um pedido desses. Estava concretizado o sonho dos dois amigos que haviam se conhecido em um vagão de trem no início da trama: Pardal era um escultor bem sucedido, livre e casado, e Gibi agora tinha um pai, uma mãe e uma irmã.
Apesar do romance arrastado dos protagonistas e dos nós que só são desfeitos no último capítulo (Pardal passa metade da novela desconfiado de Bebel. Só se lembra que realmente fez sexo com ela no momento decisivo, pondo um fim em todas as suas desconfianças), Livre para Voar é um dos melhores trabalhos de Walther Negrão. Servindo de recheio para dois grandes sucessos de Ivani Ribeiro no horário das 6: Amor com Amor se Paga e A Gata Comeu, a novela de Negrão figura entre as mais lembradas deste horário, mesmo com uma trama tão parecida com sua novela antecessora -Pão Pão Beijo Beijo. Mas esta é uma história para um próximo texto.

3 comentários:

Evana R. disse...

Achei bem legal o post! Fiquei curiosa para ver essa novela...

Walter de Azevedo disse...

Uma das minhas preferidas das 18h. Mesmo com alguma barriga, Livre Para Voar conseguiu segurar a minha atenção. Negrão é mesmo um mestre. As tramas envolvendo Danilo e Helena eram ótimas. As duas trilhas sonoras são inesquecíveis.

aldeia disse...

olha, Guilherme...como são nossas lembranças...lendo sua ótima crítica, achei mais legal que a própria...acho que talvez eu não tenha captado tais delicadezas. Mas lembro sim da cena da Nívea Maria, maravilhosa e lembro também da excelente interpretação da Dora e da Cássia Kiss, a Verona.