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sábado, 18 de junho de 2011

















É com imenso prazer que recebemos mais uma vez a colaboração de Daniel Freitas, amigo do blog que já nos brindou com um belo texto sobre A História de Ana Raio e Zé Trovão. Agora, nosso convidado rememora e analisa os gays da teledramaturgia brasileira.



Os personagens gays masculinos das telenovelas
por Daniel Freitas

Uma das máximas da teledramaturgia brasileira é a de que casal homossexual não se beija em novela. Os gays podem até aparecer nas tramas, mas geralmente são retratados como seres humanos apáticos e sem sentimento, que apenas acompanham as peripécias dos protagonistas e quase sempre terminam da mesma forma como começaram. Nos últimos tempos, porém, é inegável uma tentativa dos autores em humanizar tais personagens e mostrá-los sem tanta caricatura e com um pouco mais de profundidade. Na atual novela das 9h da Rede Globo, “Insensato Coração”, essa tentativa talvez tenha chegado ao seu ápice com o personagem Eduardo, de Rodrigo Andrade, um rapaz que vem mostrando ser de carne e osso, cheio de dúvidas, com o qual muita gente se identifica.

O folhetim global, inclusive, chegou ao horário nobre recheado de personagens gays de todos os tipos, desde o afetado e engraçado Roni, de Leonardo Miggiorin, ao centrado Nelson, de Edson Fieschi. Enquanto os outros se mostram bem resolvidos, Eduardo vive todas as incertezas de um homossexual que sofre para sair do armário. O ator parece ter encontrado o tom perfeito para imprimir densidade ao personagem e, quem sabe, ganhar a simpatia do público e a torcida por sua felicidade. Os autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares já avisaram, desde antes da estreia da novela, que a intenção não é e não será levantar bandeiras, mas sim retratar os gays como atuantes na sociedade, em diversas profissões e modos de vida. E assim surgiu o Eduardo Aboim, que terá até o fim da novela para superar sua crise, dar um fora na namorada Paula (Tainá Muller), seguir sua natureza e ser feliz ao lado de Hugo (Marcos Damigo).

Mas e o beijo gay? Notícias na internet dão conta de que Eduardo e Hugo vão ter uma noite de amor e o tão esperado beijo, mas tudo será na penumbra. Nessa hora, não adianta especular muito. O jeito é esperar pra ver no que dá. Talvez Eduardo e Hugo se tornem apenas mais um casal perfeito (e que também não se beijava na boca) como o vivido por Tiago e Rodrigo (Sérgio Abreu e Carlos Casagrande) em “Paraíso Tropical”, do mesmo Gilberto Braga. Embora retratados de forma respeitosa, sensível e humana, os dois homens viviam tão felizes e realizados (e longe do preconceito) que mais pareciam ter sido escritos para um conto de fadas. Eduardo e Hugo, porém, certamente nem terão tempo para viver nada parecido, uma vez que “Insensato Coração” já deve terminar em agosto.

Se bem que tempo nem sempre é fator determinante para o desenvolvimento desse tipo de situação. Em “Páginas da Vida”, o casal gay Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi) passou a trama inteira fazendo mil planos e elaborando projetos a dois. Nada impediu que a novela chegasse ao fim sem uma ação concreta nesse sentido. No último capítulo, os dois acordaram na mesma cama jurando um ao outro que ainda iam conseguir adotar um filho, algo que já diziam desde o início. Mais clichê impossível.

A discussão sobre relacionamentos homoafetivos na televisão brasileira ganhou força em 1995, com os personagens Sandrinho e Jéferson em “A Próxima Vítima”, de Sílvio de Abreu. A dupla interpretada por André Gonçalves e Lui Mendes viveu encontros, desencontros e típicas situações embaraçosas com a família, incluindo o momento de revelar a verdade. Tudo isso numa época em que falar abertamente sobre homossexualidade no horário nobre ainda era, de certo modo, um tabu. A entrega dos atores em seus papéis, certamente, contribuiu para uma mudança positiva e levantou discussões em todo o país. Uma novela finalmente retratava os gays como uma realidade social, sem estereótipos.

O ator Rodrigo Andrade não é o único a ser testado nesse processo de humanização dos personagens gays. Rodrigo e Tiago de “Paraíso...” já navegavam na mesma corrente. E foi com igual ternura que os atores Gustavo Leão e André Arteche deram vida aos apaixonados Osmar e Julinho do remake de “Ti Ti Ti”. O casal foi mostrado em cenas escritas com boas doses de sensibilidade e sem caricatura. A morte precoce de Osmar e o contexto da novela criaram um clima de cumplicidade entre o público e Julinho, que teve um final feliz com outro homem, o Thales de Armando Babaioff. As seqüências com os dois foram cheias de poesia, mas sem grandes contatos e carícias. Afinal, o público evoluiu, mas não tanto assim. Beijo, nem pensar.

Um passeio pela teledramaturgia nacional revela que muitos personagens gays passam uma novela inteira sem passar por um processo de amadurecimento ou coisa que o valha. Não amam, não sentem e não expõem o que pensam. Vão e voltam como meros figurantes. Alguns tiveram a chance de encontrar um parceiro nos 45 minutos do segundo tempo, numa manobra para, superficialmente, não serem excluídos do “quem vai ficar com quem” do último capítulo. Foi assim com Pedro Paulo Rangel como o Gigi de “Belíssima”, que nas cenas finais revela seu romance com o marceneiro do teatro vivido por Hugo Resende. E com o mesmo Rangel, dessa vez como o Adamastor de “Pedra Sobre Pedra”, que abre as portas de seu bordel para um amor secreto, também no último capítulo.

Outros são criados apenas para diversão do público. Assim foram o Edilberto (Luiz Carlos Tourinho) de “Suave Veneno”, o Benny (Luis Salém) de “Anjo Mau”, o Cássio (Marco Pigossi) de “Caras & Bocas” e tantos outros. Em todos eles, o limite imposto pelo que a sociedade aceitaria ver na TV jamais foi ultrapassado. Não se pode desprezar o papel de diversos autores em tentar mudar essa realidade com a criação de personagens mais densos, com características comuns a casais heterossexuais que declaram suas paixões nos folhetins. Aguinaldo Silva contribuiu bastante nesse sentido, ao escrever papéis como o Uálber (Diogo Vilela) de “Suave Veneno” e o Bernardinho (Thiago Mendonça) de “Duas Caras”, que virou tema de debate nacional ao ser flagrado com outro homem na cama pelo pai. Bernardinho e seu companheiro Carlão (Lugui Palhares) chegaram até mesmo a protagonizar diálogos que deixavam claro quem era o ativo e o passivo na relação. Mas o próprio Aguinaldo já reconheceu: “Beijo gay em novela não pode”.

Com boa vontade, também dá para citar Glória Perez. Foi escrita por ela a travesti Sarita Vitti, vivida por Floriano Peixoto em “Explode Coração”, que chegou ao extremo de culpar os céus e as divindades por não terem lhe dado um útero. Da safra da autora, também está o Júnior de “América”. A trama confusa e mirabolante, porém, não permitiu que o personagem se desenvolvesse da maneira esperada e o jovem gay se tornou apenas um garoto atormentado, que mal falava ou expunha seus sentimentos, em cenas curtas e sem sentido. Na reta final, ele encontrou o peão Zeca (Erom Cordeiro) com quem viveu um reme-reme que só se resolveu no último capítulo, numa cena com direito a beijo que não foi ao ar.

Os casais gays também já estiveram presentes em novelas mais antigas, como os impagáveis e inesquecíveis Zé Luís e Zé Maria (Miguel Falabella e Marcelo Picchi), de “Mico Preto”. No início dos anos 2000, o seriado “Malhação” apresentou ao público adolescente o homossexual Sócrates (Erik Marmo), que arranjava briga com qualquer um que o chamasse de “bicha” ou “viado”. Era o típico gay que sabia se defender, com a proposta de servir como um modelo positivo para a juventude. A mensagem foi dada e, nesta fase, o folheteen alcançou respeitáveis 30 pontos de audiência.

Ainda assim, com tantas referências, inovações e tentativas (mal ou bem sucedidas), o primeiro beijo gay masculino continua na promessa. Autores dispostos a escrever tais cenas e atores que se dizem à vontade para gravá-las não faltam. Só resta mesmo o público fazer sua parte. Será que Eduardo e Hugo vão conseguir mudar o rumo dessa história?


10 comentários:

Anônimo disse...

Não é porque o personagem é um gay caricato que ele precisa ser feito de qualquer maneira.
Basta ver como o André Gonçalves está péssimo como o gay caricato de "Morde & Assopra". Ele parece que debocha do próprio personagem em todas as cenas, achando que está no "Bloco das piranhas" do Carnaval. O jeito de andar pulando, soltando os cabelos o tempo todo, enfim, ele definitivamente errou na interpretação.
O Leonardo Miggiorin, este sim, está mais convincente em "Insensato Coração", fazendo também um gay caricato.

André San disse...

Gosto da trama do Eduardo, de Insensato Coração. Um conflito interno, em busca da autoaceitação, assim como o Thales de Ti Ti Ti, e até o Junior, de América. Por isso mesmo, é um personagem bem mais profundo que Rodrigo & Tiago, de Paraíso Tropical, que nem ao menos tinham uma trama.
André San - www.tele-visao.zip.net

Anônimo disse...

belo painel pelos homossexuais das novelas...

Anônimo disse...

Daniel arrasou no texto amigo!! Esperamos o tal beijo gay até hoje...quem sabe sai um dia hein? Quando se trata de dois homens eu acho que o preconceito ainda é maior..aguardo os proximos capitulos!

Lucas disse...

Muito bom o texto! Uma verdadeira retrospectiva sobre essa questão em nossa teledramaturgia!
Lucas - www.portalcascudeando.blog.com

Licinha disse...

Sinceramente, não acho que o beijo gay faça falta. É mais importante discutir o tema com dignidade, de forma bonita, e sensibilizando o telespectador para essa questão.

Julio disse...

Belo texto, Daniel. Muito bem escrito. Acho q cabe dizer, também, que o beijo gay é um tabu legitimamente brazuca e da TV aberta. Basta ver qualquer série ou até sitcoms na TV fechada e perceber como do lado de lá as coisas evoluiram com muito mais tranquilidade.
Julio

Wilson Júnior disse...

Mais importante que o beijo é como a trama é conduzida. Se Julinho e Thales de Tititi, por exemplo tivessem se beijado, o murmurinho em volta seria tanto que atrapalharia uma linda história de amor. Tanto que duas mulheres se beijaram em Amor e Revolução e a história das personagens ficou na mesma.
O blog natvcritica.blogspot.com fez um post bem interessante sobre o tão falado beijo gay, vale a pena conferir.

O post tá ótimo, só uma correção: Em anjo mau o personagem de Sallem se chamava Benny, Lulu era o Eri Johnson em Barriga de aluguel.

edu vieira disse...

ótimo painel mesmo..não lembrava do Sócrates. Boa menção ao personagem de Pedra sobre pedra, que se declara ao personagem do Paulo Betti e é rechaçado. Boa evolução, desde Paraíso, em que os personagens só serviam pra ajudar a Maria Fernanda Candido até o Hugo.E melhor ainda mostrar os preconceitos entre os próprios gays por meio do Chicão e do Roni, que estão em classes sociais diferentes.

Anônimo disse...

Ótimo texto, Dan. Adorei. Danilo.