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terça-feira, 2 de agosto de 2011










Prazo de Validade
Renovado

por Daniel Pepe


Uma das personagens mais populares entre todas as novelas que estão no ar é a divertida Tia Neném, brilhantemente interpretada por Ana Lúcia Torre em Insensato Coração. Não será difícil para que o papel acabe sendo o mais marcante da carreira da atriz, que já conta com mais de 30 anos de TV. Responsável por fofocas e pequenas armações, Tia Neném é motivo para que as pessoas parem o que estão fazendo para prestar atenção em seus atos, sobretudo quando beberica às escondidas ao som de “A Turma do Funil”. A prova do enorme sucesso da personagem é que Ana Lúcia foi convidada para ficar na novela até abril, quando Tia Neném morreria. Mas a receptividade do público fez os autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares mudarem de ideia e deixarem-na até o fim da trama. Sorte a de todos os fãs dessa que é a tia de não se sabe exatamente quem.


Esse expediente de dar sobrevida a algum personagem que faz sucesso não é novo e já ocorreu em muitas outras novelas. Vamos relembrar aqui alguns casos.


Na novela anterior de Gilberto e Ricardo, Paraíso Tropical, Renée de Vielmond teve a participação aumentada, já que sua Ana Luísa agradou bastante aos telespectadores. A personagem traída pelo marido deu a volta por cima e casou-se com um homem mais jovem que lhe deu o respeito merecido. Ela, que sairia por volta do capítulo 70 em uma viagem, retornou pouco depois e ficou até o fim.


Em Da Cor do Pecado, Lima Duarte interpretava o patriarca Afonso Lambertini, que fez sucesso especialmente pela dupla formada com Raí (Sérgio Malheiros), o neto que ele conhecia depois de alguns anos. Por causa da repercussão, Afonso morreu na trama, mas 40 capítulos após o previsto.


Com a Fernanda (Vanessa Gerbelli) de Mulheres Apaixonadas, a história foi parecida. A amante do protagonista Teo (Tony Ramos) ficaria somente até o segundo mês, mas a sua grande receptividade fez com que o autor Manoel Carlos estendesse sua participação até o sexto mês. Na mesma novela, Dan Stulbach foi convocado para participar de alguns capítulos como o marido violento de Raquel (Helena Ranaldi), ficando marcado pelas raquetadas que dava na mulher. Mas o personagem destacou-se tanto que ficou até o final, passando a ser o grande vilão da trama.


Em Torre de Babel havia uma personagem que, apesar de ser uma matraca, não abria a boca. Era Luzineide (Eliane Costa), que contracenava bastante com Bina (Cláudia Jimenez), quem estava sempre dizendo para a colega não interrompê-la, dando a entender que ela passava dos limites. Mas, para os telespectadores, ela sempre aparecia muda. Tanta foi a graça que, a personagem que morreria na explosão de um shopping, ficou até o final da trama, quando, para surpresa dos telespectadores, mas não dos personagens, começou a falar de forma desembestada, resolvendo o mistério da novela.


Um caso um pouco diferente ocorreu em Pantanal. Paulo Gorgulho interpretou José Leôncio na juventude, papel que ficou com Cláudio Marzo na idade madura. Gorgulho fez bastante sucesso na primeira fase, mas obviamente não poderia voltar com o mesmo personagem. A solução encontrada por Benedito Ruy Barbosa foi criar Zé Lucas de Nada, filho bastardo de José Leôncio, que apareceu a certa altura da história.


Fato semelhante já havia acontecido nos anos 70 em Saramandaia. Wilza Carla fazia a Dona Redonda, que ficou famosa por explodir depois de tanto comer. A personagem foi tão carismática, que a atriz retornou como Dona Bitela, irmã de Dona Redonda. Como não poderia deixar de ser, esta também tinha problemas com a balança.


Esses e outros casos são bem característicos ao formato de telenovela, que permite esse tipo de modificação, conduzindo as tramas ao sabor da audiência e eternizando personagens que poderiam ficar relegados ao esquecimento, caso tivessem suas participações mantidas de acordo com a sinopse original.

8 comentários:

Isaac Abda disse...

Bem observado, Pepe... muito bom quando o autor não se sente o Senhor Absoluto do destino dos personagens e sendo a novela uma obra aberta, se permite alterar o rumo da história de acordo com a receptividade do público!

Adilson Oliveira disse...

Adorei a matéria.
Agora, vc poderia falar de personagens que têm seu papel diminuído, ou por morte (Maitê Proença em Cara & coroa, por exemplo) ou por não cair no gosto popular (Adriana Esteves, em Renascer, por exemplo).
Abraço.

Jovânio Mendes disse...

Gosto desse tipo de matéria que relembra esses dados. Deve haver muitos outros similares. Que tal fazer outras posagems relembrando esses casos? Fica a dica!

Daniel Pepe disse...

Obrigado, pessoal! Vamos considerar essas dicas!

Anônimo disse...

Adorei a matéria! Parabéns!
Eduardo Vieira - Recife/PE

RÔ_drigo disse...

Boa manteria Dani^^Curti!

Marcelo disse...

A frase “novela é uma obra aberta” hoje é lugar comum, mas nos anos 70 não era bem assim, não. A questão da “obra aberta” foi amplamente discutida e apresentada pelo teórico de Comunicação de Massa Umberto Eco, o mesmo autor do romance policial “O Nome da Rosa”, que tratava sobre livros e uma biblioteca oculta num mosteiro na Itália medieval.

Eu não tive contato com o livro, só folheei. Achei o texto muito difícil e denso, texto de um erudito, que era muito comum nos anos 70. Mesmo com essa linguagem rebuscada e rocambolesca, Umberto Eco conseguiu influenciar artistas no mundo inteiro com sua a ”A Obra Aberta”. Penso que, para uma discussão mais aprofundada desse tema, somente lendo as páginas do livro do Umberto Eco.

A telenovela hoje se autodeclara uma obra aberta, querendo dizer, assim, que ela é escrita conforme a aceitação ou rejeição do público. Dessa forma, tia Neném e Luzineide (a “Chaveirinho”) continuam na trama, sem ninguém notar que estavam programadas para morrer. Eu, mesmo lendo tantas revistas, blogs e encartes de jornal, nunca soube que tia Neném iria morrer.

Já que estamos usando um termo da comunicação de massa vale a pergunta: uma novela, que automaticamente é enquadrada no campo “Comunicação de Massa” pode ser considerada uma obra de arte? Eu tenho minhas dúvidas. Quis apenas problematizar esse termo para sabermos utilizá-lo na hora – e da maneira correta.

O sucesso do Paulo Gorgulho, como Zé Leôncio, na primeira fase de “Pantanal” é indiscutível. Apesar de nunca ter tidos os traços no rosto de um galã de televisão, Paulo Gorgulho teve que retornar à novela a pedido das fãs, enlouquecidas por verem-no tomando banho nu no Rio. Aliás, aquela novela era a maior sacanagem, atravessava o erotismo – e também do corpo masculino (Jove também ficava nu no rio), coisa que era impossível de se imaginar nos repressivos anos 80.

Ana Luísa (Renée de Vielmond) e Lucas Aboim (Rodrigo Veronese) causaram impacto no público ao se despedirem na novela. Nenhum telespectador admitiu a ida dos personagens para o exterior e eu sempre lia cartas nas revistas pedindo a volta deles.

Só não vamos ter a ilusão de que, por causa desses personagens, poderemos confiar que a voz do povo terá influência sobre algum autor escritor de novela. Na maior parte das vezes, eles fazem o que querem com seus personagens, muitas vezes decepcionando o público. Acho que o maior exemplo recente disso foi a adaptação livre de “Ti Ti Ti”, que agradou muito os adolescentes e os jovens que não tiveram a oportunidade de ver a primeira versão, que foi muito melhor e mais consistente. O público mais velho não aceitou a novela. Aqui, já não sei se cabe falar de Umberto Eco e de seu livro, mas é uma questão para a área de Letras, que estuda a questão da adaptação de um livro para TV ou cinema. No caso, adaptação de um produto da cultura de massas para 25 anos depois. Eu caí fora dessa, com muito orgulho.

Daniel disse...

Muito legal relembrar personagens que cativaram o público e cresceram nas novelas. Belo texto, Daniel! Parabéns!