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quarta-feira, 28 de setembro de 2011


 













Novela Os Adolescentes completa 30 anos



Fábio Costa participa mais uma vez do blog com um belíssimo texto, desta vez sobre Os Adolescentes, novela que faz 30 anos hoje e que foi exibida em 1981 pela Rede Bandeirantes em sua fase áurea de teledramaturgia, quando brindou o público com pérolas como a saga de Os Imigrantes e Ninho da Serpente. Nossos agradecimentos ao Fábio, com mais esta preciosa colaboração!



Os Adolescentes: uma proposta de novela-reportagem
por Fábio Costa


Em 28 de setembro de 1981 os telespectadores que gostavam de novela foram brindados com duas estreias: na Globo, a de Brilhante, de Gilberto Braga, no horário das oito; na Bandeirantes, às 21h30, entrava Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro, que escrevia então sua segunda novela inédita para a emissora, em que estava desde o ano anterior e já havia feito novas versões de A Deusa Vencida e O Meu Pé de Laranja-lima e a comédia Cavalo Amarelo.

Já naqueles tempos a autora recordista em número de novelas para a televisão, Ivani trazia aqui um projeto que denominou “novela-reportagem”, inclusive creditado assim na abertura, com a narrativa em capítulos sendo utilizada para mostrar um perfil da juventude da época – a geração nascida nos anos 60, seus problemas, seus anseios, seus percalços na busca pela felicidade e pela realização pessoal num mundo em que as perspectivas eram poucas e, por isso, uma série de transformações se fazia necessária para que a compreensão em geral pretendida por eles pudesse ser alcançada.


Iracema (Beatriz Segall e
Liminha (Hugo Della Santa)

A partir de quatro personagens principais, os adolescentes do título, os perfis de suas famílias e seus problemas eram traçados e revelados ao público. Majô (Tássia Camargo) era filha de pais separados e se apaixonou pelo professor Túlio (Kito Junqueira), novo marido de sua mãe Raquel (Márcia de Windsor), e é a paixão do colega de escola Zé Luiz (Giuseppe Oristânio). Caíto (Flávio Guarnieri), sobrinho de Túlio, vivia num lar em desarmonia provocada pelos desentendimentos de seus pais, Marilu (Imara Reis) e Dirceu (Roberto Maya), e manifestava tendência à homossexualidade. Bia (Júlia Lemmertz) engravidou do namorado Michel (Ricardo Graça Mello); e seu irmão Doca (André di Biase) envereda pelo mundo das drogas. Os dois são os filhos mais velhos do casal Paula (Norma Bengell) e Odilon (Paulo Villaça), que vivem outra união infeliz, muito preocupados que estão com outros assuntos que não incluem a família, composta ainda por Marquinhos (Alexandre Raymundo), o caçula. Outro personagem importante é Liminha (Hugo Della Santa), filho da humilde costureira Iracema (Beatriz Segall numa de suas aparições na pele de pobre na televisão), que demonstra ter tudo para ingressar na marginalidade após a morte de seu irmão Leonel (José Parisi Jr.) num racha de motocicletas, logo no primeiro capítulo.

A espinha dorsal de Os Adolescentes era o conflito de gerações entre os jovens e seus pais, em que a comunicação praticamente não existia e eles não enxergavam meios de se expressar de maneira a serem respeitados em suas convicções e ideais, divergentes daquilo desejado por seus pais para suas vidas – ou seja, algo que não é muito diferente do que se pode dizer hoje e se pôde dizer antes da relação entre pais e filhos e choque de gerações. Túlio, o professor, é um amigo dos adolescentes, busca ajudá-los a resolver seus problemas e livrá-los do mal das drogas, pelo qual ele próprio fora atingido anos atrás, fato que esconde a fim de evitar atitudes preconceituosas e infundadas. A também professora Fernanda (Selma Egrei), que vai dar aulas na mesma escola, o conhece de outros carnavais, já que é irmã da ex-noiva de Túlio, e reaparece em sua vida disposta a se vingar pela morte dela, da qual o considera culpado. Com o tempo a vingança se converte em amor, mas após muitos danos à vida pessoal e profissional de Túlio, e Fernanda se arrepende das atitudes que tomou para prejudicá-lo.

Caíto (Flávio Guarnieri)
Por volta do capítulo 50, Ivani Ribeiro deixou a Rede Bandeirantes e com isso a autoria da novela passou ao dramaturgo Jorge Andrade, que introduziu alguns personagens na história e começou a moldá-la a seu modo. O conflito vivido entre Caíto e seus pais, que alguns personagens consideravam fator determinante para sua tendência à homossexualidade, é contrabalançado pela amizade que o rapaz estabelece com Clô (Arlete Montenegro), uma senhora inteligente, simpática e moderna que um dia ele conhece por acaso, ao sair de casa sem rumo depois de uma briga com o pai. Aos poucos Clô se torna amiga dos jovens da história, graças a seu modo de se comunicar com eles, dando-lhes ouvidos e agindo de maneira diversa da que eles estavam acostumados a ver no dia-a-dia em casa e na escola.

Outro personagem de destaque que surge é Diogo (Jairo Arco e Flexa), marido de Iracema e pai de Liminha e Leonel, que volta após vários anos ausente sem dar grandes explicações a respeito de onde estava ou do que andou fazendo e ainda acredita ter direitos de marido, atrapalhando o romance que surge entre Iracema e Joaquim (Fábio Cardoso), irmão de Odilon e alvo do interesse de sua cunhada Paula, que faz tudo para conquistá-lo e separá-lo da costureira. Enquanto isso, Rosário (Deborah Seabra), nova aluna da escola, se aproxima de Doca e com seu amor consegue convencê-lo a se tratar e afastar-se do uso de entorpecentes. Por sugestão do ator André di Biase a Jorge Andrade, Doca enxerga no esporte um caminho para sua vida, tendo todo o apoio da namorada Rosário.

Além dos conflitos entre pais e filhos, o homossexualismo, o vício em drogas, a gravidez na adolescência, outro tema presente na novela é o romance na maturidade, através de Iracema e Joaquim e do interesse de Ceição (Sônia Oiticica), irmã da costureira, por Lulu (Emílio di Biasi), funcionário da escola. Também o amor entre pessoas com diferença de idade foi abordado, através de Moacyr (Antônio Petrin), pai de Majô, que após se separar de Raquel se envolvera com a inescrupulosa Ivete (Lília Cabral estreando em novelas), que o enganava com rapazes; e de Liminha e Raquel, casal que se forma na fase final da novela e tem oposição de Moacyr, a essas alturas morando novamente com a ex-esposa.



No elenco, ainda as presenças de Carmem Silva (D. Elza, mãe de Túlio e Marilu), Teresa Campos (Juraci, empregada da casa de Odilon e Paula), Lúcia Mello, Geny Prado, Borges de Barros, Luiz Serra, Mayara Magri, Zenaide Pereira, Tácito Rocha, Oswaldo Campozana, Osvaldo Barreto, entre outros. Guardadas as devidas proporções, Os Adolescentes foi à sua época o que a soap opera global Malhação é para os jovens há quase 17 anos: um espaço para a apresentação e discussão dos problemas, desejos, planos, dúvidas e descobertas desta fase da vida, a adolescência. Na troca de autores, a proposta inicial converteu-se numa novela mais convencional (sem tornar-se com isso pior que antes). Mas que não se pense com isso que Jorge Andrade transformou a história num jogo de modernidades e arcaísmos, a exemplo dos conflitos sociais e de gerações de obras suas como Os Ossos do Barão (Rede Globo, 1973/74) e as peças teatrais A Escada e A Moratória; os problemas dos jovens não foram exatamente amenizados, mas sim seus conflitos mudaram de foco, apresentando outros fatos e propostas de solução dos problemas que serviram de base à trama no início. Um verdadeiro desenvolvimento da história a partir do que foi recebido dos cerca de 50 capítulos escritos por Ivani Ribeiro.

Dirigida por Atílio Riccó com supervisão de Antonio Abujamra, que era então o coordenador de teledramaturgia da emissora, Os Adolescentes foi exibida pela Rede Bandeirantes até 2 de abril de 1982, dando lugar a Ninho da Serpente, de Jorge Andrade, que trazia a disputa pela herança numa família quatrocentona paulista. Mas esta já é uma outra história...


***

7 comentários:

Kleiton Alves Hermann disse...

Essa é uma das novelas da Ivani que mais tive vontade de ver. E lendo este texto tão bem escrito, mais vontade me deu. Será que ainda teremos a chance de uma reprise? Alô, Band! Essa novela deve ser melhor do que a maioria dos programas que vocês passam..

Telinha VIP disse...

Lembro de pouca coisa da novela, mas foi uma grande ousadia abordar todos esses temas na época.
Parabéns pelo texto!

Fábio Costa disse...

Agradeço pelos elogios ao texto e pela oportunidade de mais vez colaborar com o blog. Considerando o grande talento dos dois autores e as temáticas propostas pela novela, certamente valeria a pena uma olhada em Os Adolescentes, que infelizmente anda perdida no arquivo da Bandeirantes.

Jovânio Mendes disse...

De todas as novelas que vi da Ivani, esta é justamente a mais diferente de todas que a autora. Um tom mais pesado, diferente das novelas padrões e adocicadas que ela passou a escrever na Globo, e escrevia antes na Tupi. Uma pena ela ter abandonado o projeto no meio. A novela perdeu muito. Jorge Andrade é um ótimo autor, mas nao há como uma novela não perder a uniformidade com a troca de autores.

Adorei o texto. Um remake dessa novela mostrando um retrato do adolescente de hoje (sem recorrer aos clichês de Malhação, claro) seria muito bem-vindo!

Carlos Eduardo Nadotti disse...

Parece que é um trabalho de Ivani com a cara da Band. Não dá pra imaginar uma novela dessas na Globo naquela época, e nem na Tupi.

Line disse...

Eu queria muito ver a Beatriz Segall num papel de pobre. Sei lá, parece que não combina.
O elenco de Os Adolescentes que foi em peso pra Ninho da Serpente né?
É uma novela que sempre me despertou muita curiosidade.
Fábio, parabéns pelo texto.

edu vieira- de santos disse...

eu não sei porque na época não vi essa novela...acho que na minha casa as pessoas não eram muito afeitas a tv bandeirantes...mas sempre tive curiosidade, pois falavam que a Tássia Camargo vivia uma relação meio incestuosa..sabendo que o car era padrasto dela, vejo que naõ é verdade....adoro conhecer as histórias da novelas e quem é quem...Fábio, parabéns!!!