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quarta-feira, 5 de outubro de 2011




Dando voz à classe C
Novela das 21h atende às expectativas de novo público

por Duh Secco




Com pouco mais de um mês de exibição, Fina Estampa já se sagrou como uma das maiores audiências do horário das 21h nos últimos tempos. Mais do que isso. A novela estancou a vertiginosa queda nos números, surpreendendo até mesmo os diretores da Globo, que não esperavam que a trama emplacasse logo de cara. Mas não é pra menos. Fina Estampa, mesmo antes de sua estreia, tem sido alvo de toda sorte de comentários. Principalmente por parte de seu autor, Aguinaldo Silva, maior divulgador da trama.


Aguinaldo é conhecido por sua autoconfiança exacerbada e por ser mestre em causar polêmicas, colocando assim o seu nome em evidência. Usa esse “talento” a seu favor e faz crescer o interesse por sua história, ainda que a trama não seja tão atrativa assim. Também é um autor antenado com o que está acontecendo. Cessou com as tramas regionalistas ao perceber que elas já não causavam tanto interesse como antes e soube inserir em suas novelas conflitos interessantes, como o caso do menino Pedrinho, embrião de Senhora do Destino. Agora, faz de Fina Estampa, uma novela sem grandes pretensões, sucesso absoluto de público e mídia.


O maior trunfo de Fina Estampa é falar com o novo público que domina a televisão e faz todos os executivos da emissora quebrarem a cabeça para abocanhar mais uns pontinhos na audiência. A tal nova classe C parece ter se rendido ao drama de Griselda (Lília Cabral), ou Pereirão, o faz-tudo da Barra, bairro onde a novela se desenrola. Mulher batalhadora, Griselda é um retrato desse público que tem acompanhado com fervor as suas desventuras. Trabalha de sol a sol e possui uma retidão de caráter que a impede até mesmo de passar por cima dos erros de seu filho, coisa que acontece com quase toda mãe de novela. Tá aí a Wanda (Natália do Vale), de Insensato Coração, que não nos deixa mentir (foi capaz de matar para proteger o filho mau-caráter). Griselda não! Além de não perdoar, pune a sua cria de modo correto, lavando a alma de muitos pais que já não exercem o controle que desejam sobre seus herdeiros, nem podem puni-los como gostariam. Por outro lado, sofre horrores, mas nem assim volta atrás em suas atitudes. Aguinaldo soube criar o perfil dessa mulher, dando a ela as melhores características que um ser humano pode ter. O público certamente gostou de ver uma pessoa tão íntegra comandando a cena.


Alguns executivos já declararam que a nova classe C pode ser definida como aquela que cresceu financeiramente, mas não perdeu suas raízes. Não deixaram as antigas amizades de lado; não saíram do bairro onde moravam; nem procuram se inserir nas camadas mais altas da sociedade, que torcem o nariz para os novos ricos. É justamente entre os endinheirados que se resume grande parte dos malvados de Fina Estampa. Os bons, em sua maioria, são os pobres e batalhadores; os maus, quase sempre, são ricos e desonestos. Os pobres com falhas de caráter são aqueles que pretendem subir na vida, como Antenor (Caio Castro) e Leandro (Rodrigo Simas), algo perfeitamente aceitável para uma classe que ainda pretende crescer mais. Aguinaldo também acertou neste ponto, com a criação de personagens ambiciosos, como os citados, e também com Tereza Cristina (prejudicada pela atuação equivocada de Christiane Torloni), uma vilã incapaz de dizer “muito obrigado” a quem lhe presta favores, acreditando que, para os mais desprovidos de dinheiro, só existe agradecimento em forma de retribuição financeira.


Fina Estampa ainda está longe de ser uma grande novela. Possui núcleos desinteressantes, como os capitaneados por Álvaro (Wolf Maya), tanto o da pousada como o da rede de vôlei, e Danielle Fraser (Renata Sorrah), e erros de escalação que comprometem seriamente alguns personagens, como Sophie Charlotte e Marco Pigossi (Maria Amália e Rafael). Mas merece elogios por ter sido a primeira a dialogar com uma nova fatia da população, interessada em se ver retratada na telinha. Por este motivo, Aguinaldo pode se gabar à vontade.



10 comentários:

Renato Bonifácio disse...

Com certeza Aguinaldo acertou com a personagem Pereirão, um grande exemplo de educação fora o show de interpretação da Lília Cabral. Já esse Caio Castro, tem uma cara de bonzinho, ele não está a altura de um vilão de horário nobre, daria no mais um vilãozinho de malhação e olhe lá.
A alta audiência tbm deve estar relacionada com a grande quantidade de banhos que os personagens tomam na trama. Tem que ter apelação né.
Excelente texto Duh.... PARABÉNS!

Emerson Felipe disse...

Como bem apontado no texto, Aguinaldo Silva é raposa velha: sabe muito bem como atingir o público-alvo e chamar a atenção dele para sua novela, ainda que utilizando outras armas que não a qualidade da trama em si.
Acho Fina Estampa uma novela muito boba, ingênua, bem aquém do que o horário exige e do que o autor pode oferecer, não me prende a atenção. O tom extremamente popularesco de fato é o que angaria toda a audiência que a mesma vem conquistando. Mas acho que o popularesco do Aguinaldo Silva já foi utilizado com muito mais contundência e inteligência em tramas anteriores, como na forte e instigante trama central de Senhora do Destino, por exemplo.
Parabéns Duh, análise clara e minunciosa a do seu texto!

Anônimo disse...

Excelente texto, Duh. Fina Estampa é isso aí mesmo, daí não me agradar nem um pouco.

Seria te pedir muito para você desenvolver um pouco mais essa ideia: "e erros de escalação que comprometem seriamente alguns personagens, como Sophie Charlotte e Marco Pigossi (Maria Amália e Rafael)". Por quê, hein? E quais seriam os outros erros de escalação?

Abraço!

Eduardo Vieira - Recife/PE

Fábio Costa disse...

O resultado da novela junto ao público tem sido muito bom, mas lamenta-se que em detrimento do aspecto artístico, já que Fina Estampa é uma novela aquém do que o horário exige (e merece) e do que o autor pode oferecer (e do que o público merece), aproveitando o dito pelo Emerson Felipe. Os autores têm seus momentos de ir pelo caminho mais fácil, já que a tarefa de escrever novela não tem nada de fácil, mas Fina Estampa até aqui tem sido desestimulante. E sim, falo como alguém que tem acompanhado a novela, nesses seus primeiros 40 capítulos.

Rodrigo disse...

Realmente, Christiane Torloni ainda não encontrou o tom da sua vilã. Não é à toa que a Lília Cabral como a "mocinha" da novela consegue ofuscá-la. O povo se identifica com a Griselda.

Duh Secco disse...

Agradeço os comentários e desenvolvo a ideia de escalações errôneas, conforme o Eduardo me pediu: Acredito que o desempenho dos atores citados (Marco Pigossi e Sophie Charlotte) esteja aquém do que os personagens lhe oferecem. Ambos me parecem no piloto automático. Talvez pelo impacto de personagens anteriores, como os vividos pelos dois atores em Tititi. Ainda vejo muito na Sophia os resquícios da dissimulada Sthefany, bem como noto que Pigossi recorre às mesmas caras e bocas do Pedro. Isso ficou evidente em cenas como o enterro de dona Zilá (Rosa Maria Colyn), onde Sophie parecia chorar forçosamente, e em sequências como as que Rafael tentava convencer Leandro (Rodrigo Simas) a entrar em suas jogadas envolvendo o roubo de peças. Eles não me parecem um casal apaixonado. Parece um casal dissimulado. rs. Outros desempenhos sofríveis: Torloni, já citada; Marcelo Serrado, muito acima do tom; Adriana Birolli, ainda perdida com sua mocinha; Carlos Casagrande, apático; e, na minha humilde opinião, todo o núcleo da praia, que não faria falta nenhuma a novela.

Espero que tenha esclarecido. Abraço.

Guilherme Staush disse...

Se me permitem, acho o desempenho da Sophie sofrível. Nunca sei quando a personsagem está fingindo ou quando está sendo verdadeira em seus sentimentos. É uma coisa da atriz mesmo. Ela carrega isso para todas as suas personagens.
E Marco Pigossi sempre com o cacoete de levantar as sobrancelhas...irritante!

Daniel Freitas disse...

Muito boa a análise, com os equívocos da trama pontuados com propriedade! Parabéns!

André San disse...

Como o Fabio disse, Fina Estampa parece menos do que a capacidade do autor,que a gente conhece bem. É uma novela que me diverte, acompanho com interesse, mas é só. Vou me lembrar dela com carinho daqui um ano, como me lembro de A Indomada e Senhora do Destino? Pouco provável. Gosto muito da trama principal, gosto do embate Griselda x Tereza Cristina, mas o que me incomoda nessa novela é que as tramas paralelas são profundamente desinteressantes. O núcleo da praia e o da pousada, como o autor do texto citou, são alguns deles. Acho bem chatonilda a trama envolvendo Danielle Fraser, assim como a do casal Paulo e Ester. Também não entendi qual é a da trama envolvendo a taxista Vilma, ou a família de Celeste. Essas tramas parecem "ruídos". Sabe quando você fica assistindo uma novela e pensando, quando vê alguns desses personagens: "ai, que saco, cadê a Griselda?".
André San - www.tele-visao.zip.net

Anônimo disse...

Obrigado pelo comentário esclarecedor, Duh.

Acrescentaria à lista de desempenhos sofríveis o da Carolina Dickmann. Se bem que, em se tratando dela, já era de se esperar...

Eduardo Vieira - Recife/PE