Somos amantes da teledramaturgia. Respeitamos a arte e a criação acima de tudo. Nosso profundo respeito a todos os profissionais que criam e fazem da televisão essa ferramenta grandiosa, poderosa, que desperta os mais variados sentimentos. Nossa crítica é nossa colaboração, nossa arma, nosso grito de liberdade.



ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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quarta-feira, 4 de abril de 2012






 


Nosso convidado de hoje é residente em Itatiaia e formado em Publicidade pela UFRJ. Atualmente dedica-se ao seu Mestrado em Comunicação pela mesma universidade. Ele é Marcelo Ramos, figura bastante conhecida no meio virtual, sobretudo nas comunidades sobre teledramaturgia. Marcelo se ofereceu para compartilhar com nossos leitores um texto que ele anotou sobre uma palestra dada por Gilberto Braga, Sérgio Marques e Leonor Bassères em 2001.


Palestra de Gilberto Braga e seus colaboradores para o SESC-Copacabana em 2001


Era meados do ano 2001, eu já estava na universidade e li no jornal carioca “O Globo” que o SESC-Copacabana estava numa parceria com uma instituição de estudos da Teledramaturgia e iriam apresentar, em três sábados consecutivos, rodas de conversa com Lauro César Muniz, Gilberto Braga (com seus colaboradores) e Walcyr Carrasco. Carrasco estava para estrear sua primeira novela na TV Globo, “O Cravo e a Rosa” e eu não me interessei. Estava fazendo uma pesquisa bem complexa sobre a novela “Escalada”, de Lauro César e deixei boa parte do escrito com ele, que me foi bastante atencioso e prestativo.

No sábado seguinte, estavam na mesa-redonda Gilberto Braga, Leonor Bassères e Sérgio Marques. Fui. Na plateia cheia, reconheci poucos famosos: Maria Pompeu e Aracy Cardoso – esta última havia feito a personagem Helenilce em“Água Viva”, de Gilberto e fez algumas perguntas, apresentando-se à plateia com muita doçura. Gilberto é muito falastrão, no melhor sentido do termo. Usa uma linguagem jovial e informal, demonstrando ter bastante consciência do processo de criação de uma telenovela. Os três deram seus depoimentos, um a seguir do outro.

Segundo Sérgio Marques, o Brasil é um país pobre. Por esse motivo, a televisão no Brasil tornou-se um grande negócio. Como havia dito há pouco para a revista “Interview”, Boni chamou a televisão de “um veículo de publicidade” e eu estava bem focado nessa questão, pois havia me formado em Publicidade e Propaganda no Rio de Janeiro. Marques disse que o fenômeno “televisão” tornou-se grande dessa forma no País não exatamente porque os autores escritores sejam gênios, mas foi  um fenômeno que simplesmente aconteceu, dadas as características socioeconômicas do Brasil. Segundo o autor, teria acontecido esse fenômeno singular no Brasil: o público começou a gostar de conviver  6, 7 meses com aqueles personagens criados pela ficção televisiva, o que não aconteceu em outros países.

Ao explicar à plateia sobre  sua preferência pela atriz Glória Pires em suas novelas (Glória havia feito “Dancin’ Days”, “Água Viva”, “Louco Amor”,” Vale Tudo”, “O Dono do Mundo”), Gilberto e Sérgio foram bem assertivos e concordaram: a atriz é “seca”, e melhor, “nunca transborda”.

Gilberto lembrou-se de uma novela problemática em sua carreira na TV Globo: “Brilhante” (1981). Nessa novela, o autor escritor pretendia trabalhar com fabricantes de joias e alguém da produção sugeriu o merchandising da H. Stern - joalheria de grande projeção no Rio de Janeiro - e ele aceitou. O problema já começou na vinheta de abertura. Tom Jobim havia criado uma música especial para a novela, onde homenageava Vera Fischer com o verso “e um raio de sol nos seus cabelos / como um brilhante que partindo a luz / explode em sete cores” e a produção da novela cortou o cabelo de Vera, deixando a protagonista – uma designer de joias – com os cabelos bem curtos e encaracolados – o que deixou o maestro Jobim ressentido e decepcionado. Em seguida, Gilberto afirmou que “o autor é quem sugere a história”, e não a supervisão da emissora. Sérgio Marques sublinhou que, normalmente, não aconteceria uma sugestão da produção da novela para o autor escritor, especialmente no horário das 20h. Gilberto disse que já havia tomado muito “sinal amarelo” da emissora, por tratar de coisas muito cruéis para a TV. Ele seria, assim, realista demais para a TV. Citou como exemplo disso a minissérie “Anos Rebeldes” (1992), destacando a cena da morte de Heloísa (Cláudia Abreu), uma militante política filha de um poderoso banqueiro. Heloísa fora caçada pela polícia com acusação de subversiva. Esse requinte de crueldade teria deixado Gilberto com orgulho, pois sentia que precisava mostrar que pessoas legais também morriam.

Sérgio Marques deu uma definição do que ele chamou de “espectador –padrão” (que nos estudos de análise fílmica é chamado de “espectador normal”, em contraponto com o “espectador analista). Segundo ele, o espectador-padrão acompanha a novela mas não tem informação nenhuma. 

Outra pedra no sapato na carreira de Gilberto e seus colaboradores foi a novela “O Dono do Mundo” (1991). Surpreendentemente, a rejeição não foi pelo personagem mau-caráter de Antônio Fagundes, o cirurgião plástico Felipe Barreto. Gilberto acompanhou de perto a movimentação do público através das pesquisas. Para sua surpresa, o que ele considerava “a melhor primeira semana de capítulos que já escrevera”,  desandou. Na quinta-feira da primeira semana a audiência já apresentou sinais de queda. Então Gilberto pediu à supervisão uma pesquisa de opinião específica da novela. O resultado foi surpreendente: a novela foi considerada triste, difícil de ser vista, muito dura. A protagonista Márcia (Malu Mader) era pobre, fora massacrada por Felipe Barreto e não tinha como se defender. Numa tentativa de reverter o quadro, Gilberto aumentou a participação do personagem Beija-Flor (Ângelo Antônio), como um elemento de esperança e ascensão social, o que deixaria no público uma linha de fuga para subir na vida. O resultado da pesquisa encomendada pelo autor foi um choque: o público adorava o protagonista corrupto Felipe Barreto. Foi considerado “um médico bacana pra caramba, que tinha toda razão e que a heroína Márcia deu pra ele porque era uma galinha! Felipe foi feito para ser um “cafajeste de quinta”, mas a lâmpada vermelha  foi acionada mais uma vez. O personagem mau-caráter que Gilberto criara para dar sustentação à espinha-dorsal da história foi considerado pelo público como “simpático” e agradava os espectadores da novela.

Leonor lembrou-se de um antigo problema, na novela “Vale Tudo” (1988): as lésbicas Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Laila Deheizelin) eram amadas pelo público, que não demonstrava nenhuma restrição perante a presença do casal. Mesmo assim, o acidente de carro que matou  Cecília e deixou Laís solteira, era necessário pra o desenrolar da história. Leonor era uma pessoa hilária, cheia de tiradas e muito bem-humorada. Após a entrevista, no saguão do SESC Copacabana, eu perguntei a ela como reconhecê-la na narrativa das novelas. “Sabe aquelas maldades bem maldosas mesmo? Quando você vir uma cena dessas, com bastante maldade, você pode dizer “Isso foi coisa da Leonor!” e desatou a gargalhar. Uma simpatia.

Mais problemas apontados pelos autores: em “Vale Tudo”, grande parte do público mais sofisticado rejeitava a protagonista Raquel (Regina Duarte). Haviam pedidos da parte do público, inclusive, que os autores deixassem Raquel errar alguma vez na novela, para tirar-lhe aquela aura de perfeição. Contrariando o público, Gilberto e Leonor se uniram e decidiram, juntos, que “Raquel não poderia errar” e sua filha Maria de Fátima (Glória Pires), continuaria a fazer as coisas erradas. O público dessa novela adorava a Maria da Fátima.

Ainda sobre “Vale Tudo”, Gilberto afirmou que a televisão não poderia ser um veículo muito sofisticado.  Assim, a suntuosa casa de Celina (Natália Thimberg), no elegante bairro do Joá, Zona Sul do Rio, seria a “favela dos ricos”. Além de Heleninha (Renata Sorrah), seu filho Thiago (Fábio Villaverde) e o mordomo Eugênio (Sérgio Mamberti) – personagens fixos desse cenário) – Fátima e Afonso (Cássio Gabus Mendes), após casados, continuaram a morar na casa de Celina. Isso também era uma forma de os autores escritores colaborarem com a verba destinada à produção da novela.

Leonor lembrou-se também do problema que “Pátria Minha” (1994) sofrera por causa da cena de racismo envolvendo o protagonista Raul Pellegrini (Tarcísio Meira) e seu jardineiro – de cor negra – Kennedy (Alexandre Moreno). Num rompante de ódio para com o empregado, o corrupto empresário o xinga de “negro”. Leonor disse que o público negro detestava “Pátria Minha”. Gilberto ajudou-a a esclarecer a situação criada: “Foi uma determinada cena de realismo na TV”. Contou que alguns grupos militantes contra a discriminação racial se voltaram contra a novela.  Ainda sobre as pesquisas de aceitação do público, Gilberto afirmou que não toma conhecimento dos pontos do IBOPE, mesmo de seus grandes sucessos: “Vale Tudo”, “Anos Dourados” e “Água Viva”, entre outros.

Durante a palestra, os autores ressaltavam sempre que o próximo trabalho seria a novela "Celebridades" (com "s" no final mesmo"), que substituiria "O Clone". No entanto, como se sabe, a novela foi adiada e teve a vez somente depois de "Esperança" e "Mulheres Apaixonadas".

No final da palestra, procurei Gilberto e Leonor para esclarecer algumas questões. A mais importante foi minha pergunta sobre o “Vale a Pena Ver de Novo”:

- Gilberto, então devo perder as esperanças de rever no VPVN novelas polêmicas como “O Dono do Mundo” e “Pátria Minha”?

- Cara, só vejo uma solução para isso. Uma única solução: a TV a cabo. VPVN é novela das sete, cara. Novela das oito não reprisa. Só mesmo esperarmos que a TV a cabo se manifeste e se organize.

Desta forma, Gilberto mais uma vez revelou seu potencial de análise da produção da novela, antecipando em 10 anos a criação do Canal Viva, que em 2011 nos deu a chance de rever “Vale Tudo”, “Anos Dourados” e “Anos Rebeldes” , de sua autoria. E que novas surpresas venham por aí, modificando os hábitos dos telespectadores mais nostálgicos.






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4 comentários:

Daniel Freitas disse...

Gilberto Braga é o meu autor predileto!! Palmas sempre para ele, um rei da dramaturgia nacional! Brilhante texto!

Rafael Barbosa dos Santos disse...

Gilberto Braga é um grande autor, adoro suas novelas. Muito bom o texto, me senti fazendo parte da mesa redonda.

http://brincdeescrever.blogspot.com.br/

Rodrigo disse...

Sobre o fato da Raquel de "Vale Tudo" não errar, devemos nos lembrar que num determinado momento da trama, ela aceitou ser a amante do Ivan (Antonio Fagundes) após este se casar com Helena (Renata Sorrah). Isso prova que a personagem não era tão chata e politicamente correta assim. E no final da novela, ela já dizia que o Ivan "apenas molhou a mão de um guarda pra não pagar multa" no processo que o incriminava pelo envolvimento em suborno na TCA e que o deixou um ano na cadeia.
Acredito que a Raquel era uma mulher mais ignorante no início da novela. Após se transformar em dona de uma cathering, ela se sofisticou um pouquinho mais.

Marcelo Ramos disse...

Sou extremamente impulsivo na minha conversação cotidiana, mas ainda hoje quando vou criticar um suposto "elitismo" das novelas do Gilberto Braga, eu me lembro do quão simpático, risonho e acessível ele foi para mim e meus colegas de universidade nesse dia. Bateu papo, tirou dúvidas, apelou para nossa consciência. Não dá pra falar mal, o cara é boa praça.
E a Leonor? Ela se apoiava nos meus braços pra dar gargalhadas! Os olhos claros e enormes, atentos a qualquer palavra, qualquer gesto de nós, fãs.
Amigos do blog, não me permitam mais ser cruel na crítica das tramas do Gilberto, ele é superior a qualquer crítica ressentida de quem não peretence à classe social que ele tanto gosta de retratar.