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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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terça-feira, 14 de agosto de 2012












O vale tudo pela audiência

por Daniel Freitas



Quando o participante Daniel, no início deste ano, foi expulso do BBB 12, acusado de ter estuprado a colega Monique, a opinião pública sustentou que a TV aberta brasileira havia chegado ao fundo do poço. Revistas de circulação nacional estamparam manchetes como “Agora Chega!”, numa crítica ácida ao conteúdo dos programas televisivos. Em que pese o grotesco do episódio, é possível verificar que o fato apenas ilustra um caminho que as emissoras de televisão costumam seguir, ainda que de vez em quando. Não foi a primeira nem será a última vez que os programas de TV se valem de artifícios para conquistar o público, incluindo a apelação entre os seus ingredientes. 

A apelação pode descambar para o lado sexual, para as brigas no ar, para a erotização precoce ou para o besteirol puro e simples. Pode, ainda, beirar o impraticável, como no recente episódio da panicat que teve os seus cabelos raspados no ar. Ao longo dos anos, o público já se deparou com situações de ridículo e humilhação, geralmente protagonizadas por pessoas dispostas a tudo em troca de prêmios em dinheiro ou de 15 minutos de fama. E isso não é de hoje. Há pouco mais de dez anos, tornaram-se famosos os olhos de cabra e os testículos de boi ingeridos pelos participantes da primeira edição do programa No Limite. 

Em 1997, a guerra pela audiência dominical entre Gugu Liberato e Fausto Silva tornou-se emblemática e cada um lutou com as armas que tinha. Quando o Domingão do Faustão entrava no ar, o Domingo Legal automaticamente exibia o seu quadro mais famoso: a banheira do Gugu, no qual mulheres e homens se engalfinhavam numa luta em busca de sabonetes, em meio a um desfile lascivo de corpos de biquíni. Em outubro daquele ano, num programa que teve o grupo É o Tchan como convidado, as curvas do corpo da dançarina Carla Perez no SBT bateram com folga o programa global, que no momento amargava seu mais baixo índice com o quadro Arquivo Confidencial, com a atriz Regina Dourado. Faustão precisava reagir.

O contra-ataque veio no domingo seguinte, com o famigerado sushi erótico, o qual a jornalista Sônia Abrão considerou, à época, “um dos momentos mais degradantes da televisão brasileira”. Tudo não passava de três mulheres nuas deitadas, cobertas por iguarias japonesas, petiscadas pelos então galãs da emissora – Márcio Garcia, Matheus Rocha e Oscar Magrini. A crítica, em seguida, foi ferrenha, mas o domingo não acabou aí. Para vencer seu rival, Faustão promoveu nesse mesmo dia, em pleno palco, o concurso do bumbum masculino mais bonito. No júri, Cláudia Raia, Nair Belo e Valéria Valenssa avaliavam homens de costas, que rebolavam apenas de sunga. Um dos candidatos, mais ousado, abaixava o traje, deixando metade do traseiro à mostra. A direção da emissora não pareceu se incomodar com o fato, uma vez que a câmera focalizou a cena por diversas vezes, enquanto a plateia gritava. 

A guerra estava declarada. A partir de então, Faustão e Gugu não pararam de bater de frente. O pupilo de Sílvio Santos foi o mais atacado, especialmente quando o Ministério Público proibiu a exibição de um quadro em que crianças dançavam a “boquinha da garrafa”. Gugu também foi acusado de tripudiar de deficientes físicos, ao fazer gozações com o personagem ET, da dupla Rodolfo & ET. Thiago Lacerda foi à justiça e processou o apresentador, que promoveu em seu programa o leilão de uma falsa sunga que dizia ser do ator. Mas a desmoralização geral veio quando foi descoberto que uma suposta entrevista com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) não passava de uma farsa. 

Também entre 1997 e 1998, o gênero trash ganhou uma contribuição de peso, com a estreia de Ratinho Livre, comandado pelo apresentador Carlos Massa, na Rede Record. Entre outras baixarias, o programa exibia pessoas com doenças bizarras, situações cotidianas de chocar o homem médio (rapaz que se deita com mãe e filha ao mesmo tempo) e brigas pesadas no ar, motivadas principalmente por resultados de testes de DNA. Com o tempo, Ratinho migrou para o SBT, mas a Record não se deu por vencida e estreou o Leão Livre, apresentado por Gilberto Barros, que prosseguiu nas bizarrices. As brigas protagonizadas por participantes de ambas as atrações chegou a contaminar até novela da Globo. Foi nessa época, 1998, quando o Ratinho Livre era exibido, que se tornou célebre a briga entre Marcelo (Fábio Assunção) e Eduarda (Gabriela Duarte) em “Por Amor”. Sem falar nos barracos entre Branca (Susana Vieira) e seus filhos Milena (Carolina Ferraz) e Léo (Murilo Benício).

Ainda em 1997, muito antes de Ratinho mudar para o SBT, a emissora de Sílvio Santos estreou o programa Márcia, uma verdadeira lavagem de roupa suja em meio ao pior da baixaria. Inspirado no talk-show Geraldo, da TV americana, a atração levava pessoas para brigar no ar, chegando muitas vezes às vias de fato, com xingamentos e palavrões. Temas prosaicos como “Odeio minha cunhada!” e “Minha mulher engordou. Não a quero mais!” ilustram o absurdo da coisa. O programa ainda contava com a participação da inconsequente apresentadora Márcia Goldsmith e sua mal resolvida plateia. Uma matéria da revista Veja chegou a insinuar que a produção do programa incitava as pessoas a brigar e a xingar, o que foi negado pela emissora. Oficialmente, o SBT afirmou que apenas ajudava as pessoas na resolução de seus problemas, ainda que por meio pouco ortodoxos. O talk-show de Márcia era inicialmente exibido nas noites de terça, passou a ser diário, mudou de horário várias vezes e acabou saindo do ar. 

Com a repercussão de Márcia, a TV Manchete, à época, buscou seguir a mesma linha, com a estreia do Madalena Manchete Verdade, apresentado pela jornalista Madalena Bonfiglioli. A própria chegou a dizer que não permitiria “bordoadas” no ar e até que os participantes eram, de fato, mais comportados. Mas com o passar do tempo, as brigas passaram a ser constantes. A emissora dos Bloch mostrou que não queria mesmo ficar de fora da guerra pela audiência quando começou a transmitir, no programa Raul Gil, um quadro fixo com strippers masculinos que tiravam a roupa, dançavam e rebolavam de fio dental, diante de uma plateia histérica. Paparicados pelo apresentador, homens lambuzados de óleo se insinuavam para o público e para as convidados, causando frisson geral no horário família do sábado à tarde. 

Numa fase áurea do pagode baiano, no final da década de 90 e início dos anos 2000, os programas de variedades em praticamente todas as emissoras se renderam ao estilo musical e exibiram closes ginecológicos em dançarinas como Carla Perez e Sheila Carvalho. Grupos como É o Tchan e Companhia do Pagode chegavam a ocupar blocos inteiros, entoando músicas de gosto duvidoso, com os diretores de olho no ponteiro do IBOPE. O tempo passou e veio o funk carioca, com seu batidão característico e coreografias igualmente maliciosas. Foi do funk, inclusive, que se valeu Luciana Gimenez no seu Superpop (Rede TV) para bater de frente com Adriane Galisteu no É Show, da Rede Record. A guerra entre a loira e a morena, lá pelos anos 2000/2001, atingiu o lado pessoal, com ofensas mútuas e um verdadeiro vale tudo para ver quem levava a melhor. As duas fizeram as pazes, ou pelo menos fingiram que nunca haviam brigado, num programa de Gimenez exibido este ano, numa prova de que o tempo cura tudo.

Como se vê, a apelação na TV é válida sob diversos meios, seja lançando mão de corpos femininos e masculinos para seduzir o telespectador ou de brigas no ar para o público se identificar e deixar de lado as novelas onde todos são limpinhos e cheirosos. Ou talvez nada disso seja apelação, mas sim algo que o povo brasileiro quer ver na TV e ponto final. Em se tratando de TV aberta, tudo indica que os críticos seguirão batendo cabeça sozinhos. Enquanto houver público para aplaudir, lá estará toda a sorte de atrações.

2 comentários:

operasdesabao.com disse...

Oi, Daniel,
bacana o seu texto, retomando alguns dos momentos que muitos consideram constrangedores na TV brasileira.

Eu só arriscaria um ponto: diria que a questão da apelação é própria da televisão (aberta ou a cabo) - e tudo o que você citou não é/foi um fenômeno só da tv brasileira... Quem assiste a série "A Tv que se faz no mundo", da Tv Brasil, percebe bem isso. E se olharmos pra nossa tv dos anos 60-70, vamos encontrar casos semelhantes (Dercy de verdade, O povo na Tv etc.).

Um abraço do Pedro

http://operasdesabao.com/

Daniel Freitas disse...

Olá Pedro! Excelente observação! A Tv no mundo todo está cheia disso. Abração pra você!