Salve
Jorge na segunda tela
Glória Perez fez a defesa de sua
novela se tornar mais interessante do que a trama em si
por
Duh Secco
Quando Salve Jorge estreou, escrevi um texto elogioso à nova trama de
Glória Perez. O universo ficcional comumente criado pela autora para ambientar
suas obras já sofria críticas prévias, tal e qual a escalação de Nanda Costa e
de subcelebridades, como Thammy Miranda. Além, é claro, da indecorosa campanha
dos evangélicos contra a obra, devido ao título da mesma, e da dificuldade em
substituir uma trama imbatível como foi Avenida
Brasil.
O tempo passou e Salve Jorge capengou na audiência ao longo de seus sete meses de
exibição. Não que a novela não tivesse elementos para arrebatar o público. A
abordagem do tráfico humano sempre fora extremamente interessante e contribuiu,
como as pesquisas mais recentes acerca do tema mostram, para aumentar as
denúncias em torno de situações semelhantes às vividas pelas traficadas da
novela. O grande problema de Salve Jorge
foi a incoerência com que Glória Perez conduziu sua trama e personagens. Ações
improváveis, situações inverossímeis, desdobramentos que não condiziam com o
que a novela havia apresentado anteriormente. Situações que alarmaram o
público, hoje acostumado a acompanhar as novelas ao mesmo tempo em que comenta
o que vê nas telas via rede social. E aí, se deu outro grande problema que
comprometeu seriamente Salve Jorge,
diminuindo a trama perante a imprensa, tamanha foi a sua repercussão: os
embates de Glória Perez contra os críticos, sejam eles telespectadores comuns,
a quem a autora distribuiu respostas atravessadas, ou jornalistas, acusados por
ela de estarem sendo pagos para falar mal de sua obra. Glória se expôs em
demasia ao sair em defesa de sua trama e abriu espaço para um interessante
debate: até que ponto o contato entre autores e público, via redes sociais, é
válido?
No caso de Salve Jorge, em específico, a interação de Glória com seus
seguidores só serviu para alimentar ainda mais o falatório em torno dos muitos
deslizes do roteiro. Erros que passariam batidos em outras tramas, aqui ganharam
contornos exagerados, motivados pelo comportamento da autora em rebater aqueles
que “não sabiam voar”, forma como Glória definiu aqueles que se preocupavam com
as incoerências, em detrimento da trama em si. É fato que novela é obra de
ficção e voar é preciso para embarcar nas fantasias propostas pelos autores.
Não fosse assim, o público teria abandonado Senhora
do Destino após a desastrosa passagem de tempo que iniciou a segunda fase
da novela ou Avenida Brasil depois
que Nina (Débora Falabella) se esqueceu de salvar as fotos comprometedoras que
possuía de Carminha (Adriana Esteves) e Max (Marcello Novaes) em um pen-drive.
Glória Perez abusou do direito de usar licenças poéticas em Salve Jorge. Algumas foram extremamente
criticadas; outras passaram praticamente em branco. Mas todos comprometeram seriamente
a estrutura do enredo e a coerência de seus personagens.
Os elementos falhos foram tantos que
obrigaram Glória a criar uma novela paralela, via Twitter, na qual justifica os
furos que a colcha de retalhos na qual Salve
Jorge se transformou apresenta. Como
exemplos, o momento em que o Mustafá (Antonio Calloni) auxilia Morena (Nanda
Costa) a fugir da máfia, sem se recordar de que já a conhecia; o modo fácil com
que a filha da protagonista, Jéssica, fora sequestrada, e mais fácil ainda a
forma como o sequestrador foi encontrado no Alemão; e as já comentadas morte de
Raquel (Ana Beatriz Nogueira) e a fuga de Morena do carro da polícia no momento
em que este era alvejado pela quadrilha de Lívia (Cláudia Raia). Falsas
expectativas foram criadas o tempo todo, como no momento em que Morena quase é
atingida por um tiro disparado por Russo (Adriano Garib) ou quando Lucimar
(Dira Paes) esperou o dia todo para agredir Wanda (Totia Meirelles) e no
final, fora impedida por uma policial. Por outro lado, tramas que poderiam
render bons momentos foram proteladas até o último instante, como a paternidade
de Celso (Caco Ciocler), que resultaria em sequencias extremamente interessantes,
não fosse a opção da autora de resolver tudo no último capítulo. Tal
posicionamento impediu o telespectador de conferir melhores desempenhos de
Stenio Garcia, Nívea Maria e Nicete Bruno, apenas alguns nomes dos muitos que
foram desperdiçados ou simplesmente sumiram ao longo da novela. Mesmo o último capítulo foi cercado por incoerências, como a narrativa, não se sabe se "verdadeira" ou ficcional, que dizia que Théo (Rodrigo Lombardi) encontrou sua filha com a ajuda de São Jorge.

Prova ainda maior da inconstância dos
personagens de Salve Jorge fora dada
na entrevista de Cláudia Raia do Domingão
do Faustão, em que a atriz afirmava que Lívia Marini cairia em desgraça por
conta do amor que nutria por Théo. Eis que Glória Perez entrou no ar, por telefone, dizendo que Lívia não estava apaixonada pelo capitão. O
constrangimento foi inevitável e denotou um dos maiores problemas da novela: a
que estava sendo levada ao ar não condizia com a trama que Glória mantinha em
sua cabeça.
É óbvio que nem todos os erros da
trama podem ser atribuídos à autora. A direção de Marcos Schechtmann perdeu o
brilho ao longo de toda a exibição, investindo em sequências burocráticas e desinteressantes,
o que acabou resvalando em outros setores de produção, tal e qual a
continuidade, que cometeu deslizes que em Salve
Jorge ganharam uma proporção maior do que em qualquer outra novela, tamanha
foi a somatória de erros vistos enquanto a trama esteve no ar.
Mas nem tudo esteve perdido em Salve Jorge. O elenco fora o responsável
pelo que a trama apresentou de positivo. Excelentes desempenhos de Giovanna
Antonelli (Helô), Alexandre Nero (Stenio), Totia Meirelles (Wanda), Adriano
Garib (Russo), Paloma Bernardi (Rosângela), Suzana Faini (Áurea), Letícia
Spiller (Antônia), Bruna Marquezine (Lurdinha), Solange Badin (Delzuíte), Nando
Cunha (Pescoço) e Roberta Rodrigues (Maria Vanúbia), de longe uma das melhores
personagens da novela, desperdiçada pela má condução do roteiro.
E com isso, Salve Jorge se encerra. Um
arsenal de boas ideias, cuja audiência não correspondeu como esperado; a
crítica foi severa; viveu à sombra da novela anterior; e o público, impiedoso,
se serviu das redes sociais para massacrar o enredo pouco elaborado que se via
na tela. Disso tudo, pode se tirar uma única conclusão: o público quer voar,
como Glória Perez pede, mas não está disposto a saltar sem paraquedas nessa
escuridão em que Salve Jorge se configurou.
10 comentários:
Concordo com tudo. Essa novela teve tanta incoerência que se formos relatar todas, dá pra fazer outra novela somente com elas.
E no final não poderia ser diferente. Como pode a Lívia Marini estar sendo procurada pela polícia e se expor se apresentando numa casa de shows ao invés de ficar escondida?.
Um outro exemplo foi o fato do Théo ter perdido um filho que ele iria ter com a veterinária e não ter dado a mínima.
O problema de Salve Jorge foram os erros infantis, cometidos por uma escritora com a experiência de Glória Perez, o que fez com que ficasse mais evidente. Além do extenso elenco e de ter várias tramas paralelas.
Esse excesso de personagens e tramas, deixou a novela pesada, lenta, arrastada e confusa.
Acredito que já passou da hora da Globo investir em novos e jovens autores, como o casal que escreveu Cheias de Charme, por exemplo, que juntamente com Avenida Brasil foram ótimas novelas.
Uma pequena correção: Glória Perez entrou no ar via telefone no Domingão do Faustão e conversou ao vivo com ele e com a Claudia Raia.
Corrigido!
Muito bom o seu ponto de vista. Sensato. Não bateu nem massacrou a novela. Mostrou a verdade nua e crua desses 7 meses de novela no ar. Infelizmente a novela tinha tudo para dar certo, mas não deu. De qualquer forma, gostei da fase final.
Melhor crítica sobre a novela, com detalhes que poucos lembraram!
Parabéns!
Parabéns pelo texto maravilhoso, muito boa crítica.
Ótimo texto Duh, disse tudinho.
OI, TAMBÉM CONCORDO, O FINAL DA PRISÃO DE CLAUDIA RAIA NÃO FOI BEM PENSADO,MAIS VAMOS SER SINCEROS ELA ESTAVA LINDA!!! COM A IDADE DELA E AQUELE CORPO SEM DEFEITO, É UM EXEMPLO DE BELEZA E BOA FORMA PARA MUITAS MULHERES. ME ADICIONEM NO MSN: JRVIAJABRASIL@HOTMAIL.COM
SOU DE MANAUS-AM E GOSTEI DO BLOG.ABRAÇO!!!
Ótima análise! Gloria Perez, em Salve Jorge, foi a mesma Gloria de sempre, apostando forte nas situações absurdas que ela adora! O problema é que, desta vez, ela se aventurou no folhetim policial, gênero que exige um mínimo de coerência. O resultado final foi uma trama risível, e não um drama. Abraço!
André San - www.tele-visao.zip.net
Parabéns pelo seu brilhante texto, Duh!! Excelente análise!
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