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quarta-feira, 26 de outubro de 2011





A Metalinguagem nas Novelas
por Daniel Pepe





"Obrigada, Nazaré Tedesco." Foi assim que começou a sequência metalinguística no capítulo de segunda em Fina Estampa, logo após Tereza Cristina (Christiane Torloni) ter empurrado e matado o mafioso que chantageava sua tia Íris (Eva Wilma), revelando mais uma faceta diabólica da vilã. A sequência terminou depois das duas comentarem sobre Tereza ter aprendido aquilo com a inesquecível personagem de Renata Sorrah em Senhora do Destino. Referências metalinguísticas sempre aconteceram, com maior ou menor frequência, dependendo da época e do autor. Mas há que se tomar cuidado para que o recurso não caia no exagero e suplante a importância de uma cena ou de um acontecimento. No caso de Fina Estampa, Tereza Cristina é uma vilã que, mesmo com mais de dois meses de novela, ainda se apresenta ao público, não tendo deixado até agora nenhuma marca significativa. Até então não passava de uma perua histérica despeitada. Sendo agora uma assassina, a história muda, mas ela vai ter que trabalhar para não ficar à sombra de Nazaré, ou então não será memorável como esta e tantas outras que povoam o imaginário popular.



Cena de A Rosa Púrpura
do Cairo
Quando bem feita, a metalinguagem é sempre bem vinda. Ela, ao mesmo tempo em que provoca um distanciamento do telespectador em relação à ficção, sela com o mesmo uma identificação com sua memória afetiva, ao fazê-lo relembrar de cenas e novelas marcantes para ele. Isso não ocorre somente em televisão, mas também no cinema, como no clássico filme de Woody Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, onde a protagonista interpretada por Mia Farrow vai ao cinema assistir ao mesmo filme diversas vezes, até que o personagem principal se vira para ela e a convida a entrar na tela. Numa linha voltada à paródia foram as sequências Top Gang - Ases Muito Loucos e Todo Mundo em Pânico, que satirizavam vários filmes, sendo mais feliz o telespectador que pudesse fazer o maior número de associações. Para quem não tivesse visto nenhum dos filmes, as paródias não teriam graça nenhuma. Não podemos esquecer da literatura. Pegando somente a brasileira, Machado de Assis costumava fazer suas digressões metalinguísticas, tirando o leitor do livro e fazendo-o raciocinar sobre o ofício do próprio autor, além de outras questões filosóficas não necessariamente metalinguísticas. Nesse aspecto, Machado teve vários seguidores, como João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros.

Nestes exemplos todos, notamos duas vertentes de metalinguagem: a linguagem que fala sobre si mesma e a linguagem que fala de si mesma. Pegando os exemplos dos filmes: A Rosa Púrpura do Cairo é uma metalinguagem onde o cinema argumenta sobre ele mesmo. Não existem referências a outros filmes, mas ao próprio ato de se fazer filmes. Já as duas paródias citadas são metalinguagens onde o cinema fala dele mesmo. As referências aos filmes são claras e complementam o fato de se falar sobre fazer filmes.
Capa da trilha sonora de
Coquetel de Amor

E nas novelas? Em Espelho Mágico, Lauro César Muniz criou a história de um grupo de pessoas que trabalhavam com televisão e fez uma novela dentro da novela: Coquetel de Amor. É a linguagem falando sobre ela mesma. Os dramas vividos pelos personagens/atores dentro da novela eram entremeados pelas suas histórias da "vida real". O recurso não fez sucesso na época, voltando raras vezes a acontecer, sempre longe da trama principal.



Mas o que mais seduz os telespectadores é quando ocorre a metalinguagem onde a linguagem fala dela mesma, citando ou referindo-se a exemplos passados em outras novelas. Em A Gata Comeu, Ivani Ribeiro criou Televina (Kleber Macedo), uma noveleira de carteirinha que, numa de suas citações novelísticas, comenta com o patrão Rafael (Eduardo Tornaghi), sobre o resumo da novela das seis que havia terminado, Livre para Voar.



Glória Menezes e Maitê Proença
em Guerra dos Sexos
Sílvio de Abreu é um autor que sempre utilizou bastante deste recurso. Em Guerra dos Sexos, Nieta (Yara Amaral) era outra noveleira que volta e meia fazia comentários sobre alguma novela, contribuindo inclusive para a narrativa da história. Outros personagens também fizeram referências, algumas até bem sutis, como na situação em que Vânia (Maria Zilda) lamenta que Roberta (Glória Menezes) poderia repetir em perder seu amor para Juliana (Maitê Proença), fato que já havia ocorrido com as mesmas atrizes em Jogo da Vida. Em Sassaricando, Sílvio não poupou do expediente, colocando a decadente atriz que nunca tinha feito sucesso, Leonora Lamar (Irene Ravache), sendo dirigida por Jorge Fernando e contracenando com Tony Ramos, irritando os dois pela notória falta de talento. Em Deus Nos Acuda, Dona Armênia (Aracy Balabanian) estava sempre comparando Maria Escandalosa à "bailaraina das coxa grossa" que ela havia conhecido em Rainha da Sucata. Aliás, o próprio fato de Dona Armênia ressurgir em outra novela já é metalinguagem, recurso que também foi utilizado por Glória Perez em O Clone, quando Miss Brown (Beatriz Segall) e Dr. Molina (Mário Lago) retornaram de Barriga de Aluguel para falar sobre clonagem. Já Aguinaldo Silva levou o deputado Pitágoras de A Indomada para Porto dos Milagres.




Mas Aguinaldo e seus parceiros já haviam feito metalinguagem com novelas de outros autores, como em Pedra Sobre Pedra, quando Ximena (Nívea Maria) comenta sobre as aulas de etiqueta que teve Almerinda (Beatriz Lyra) em O Dono do Mundo e na ocasião em que, em Fera Ferida, Margarida (Arlete Salles) assiste e conversa com a filha sobre as paisagens da novela das seis, Tropicaliente.


Luiz Gustavo reencarna
Victor Valentim
Mais recentemente no remake de Ti Ti Ti, Maria Adelaide Amaral, Vincent Villari e companhia usaram e abusaram do recurso, extrapolando algumas vezes, outras nem tanto. A princípio tendo uma pequena rixa, Jaqueline (Cláudia Raia) tratava Suzana (Malu Mader) por "Fera Radical" título da novela protagonizada por Malu nos anos 80. Até que ficam amigas e dançam ao som do tema de abertura da novela. Em Ti Ti Ti teve também a volta de outros personagens que não eram do original, mas de outras obras de Cassiano Gabus Mendes, como Mário Fofoca (Luiz Gustavo), que, pode-se dizer, usou duas vezes do recurso da metalinguagem, ao incorporar também o costureiro Victor Valentim vivido pelo próprio ator na primeira versão.

Neste ano, em O Astro, vimos Cleiton (Frank Menezes)

Homenagem póstuma a Dina Sfat
em O Astro
oferecer uma "linguicinha" para Clô (Regina Duarte), em alusão a uma cena protagonizada por Regina em Rainha da Sucata, quando a sua personagem, a rica emergente Maria do Carmo oferece a linguiça à aristocrata decadente Laurinha (Glória Menezes). Mas a referência mais bonita foi a lembrança de Ferragus (Francisco Cuoco), contando seu amor do passado a Herculano (Rodrigo Lombardi), com cenas de Cuoco e Dina Sfat na novela original de Janete Clair. Ponto para Alcides Nogueira, Geraldo Carneiro e equipe!

Esses foram alguns exemplos de que, quando bem feita, a metalinguagem só tem a enriquecer a obra em que foi inserida. Mas quando ela ultrapassa os limites, tornando-se mais importante do que a pópria novela, ela não tem sentido.

E você? Lembra-se de outras cenas e situações metalinguísticas?



***

12 comentários:

Isaac Abda disse...

De volta aos posts, Seu Pepe?! e de cara, um texto gostoso de ler... tomara não demoro tanto em repetir a dose.

Eu adoro esse recurso metalinguístico, mas confesso que mesmo sendo fã assumido do Aguinaldo, não curti a citação (o modo como,) feita pela Tereza... achei forçado!

Em Poder paralelo, o Lauro voltou a utilizar-se de tal recurso, criou um novela dentro da trama.

O Tiago Santiago também o fez, em Prova de Amor, quando (divulgando a estréia de Cidadão Brasileiro)a personagem da Cláudia Alencar comentava sobre a sua paixão pelas novelas do Lauro C. Muniz, citando inclusive novelas dele ainda na Globo.

Ah! adoro o humor inteligente, e às vezes sarcástico, do Miguel Falabella, (não sei se cabe, mas...) e ri pra caramba quando vi pela primeira vez a personagem da Jacqueline Lawrence, numa alusão à vilã inesquecível da novela Ambição.

Daniel Pepe disse...

Valeu, Isaac! Esse mês tivemos os especiais e entrevistas foram chegando, quando é assim vamos postergando as postagens individuais.

Obrigado pelos exemplos, também adorei as citações do Falabella.

Daniel Freitas disse...

Parabéns pelo texto, Daniel! Lembro que na novela Bebê a Bordo, o Ari Fontoura, que fazia o marido da Dina Sfat, se refere a uma outra personagem, bem má, mais ou menos assim: "Essa é pior do que a filha da Raquel da novela das oito". Uma referência, claro, à Maria de Fátima, de Vale Tudo, que passava na mesma época.

Guilherme Staush disse...

Belíssimo texto, Dani!

Em Anjo Mau (remake), Maria Adelaide já havia usado esse recurso quando logo nos primeiros capítulos a personagem de Beatriz Segall encontra Nice, e, referindo-se ao encontro das duas atrizes em Vale Tudo, pergunta se já não havia visto a babá em algum lugar antes.

Seria interessante uma pesquisa para sabermos quais as novelas mais antigas que usaram esse recurso. Maneco falou em nossa entrevista que já havia utilizado a metalignuagem em Baila Comigo.

Em Dancin' Days todos os personagens assistiam e elogiavam a novela das 10 (acredito que fosse Sinal de Alerta), mas o nome não era citado e nem os personagens.

Nilson Xavier disse...

Brilhante texto Dan!

Contribuindo: acho o supra sumo da metalinguagem quando uma novela invade outra contemporânea.

Como aconteceu com Verão Vermelho (a novela das 10) e Véu de Noiva (a novela das 8), em que a personagem de Myrian Persia em Véu de Noiva se consulta com o médico vivido por Paulo Goulart em Verão Vermelho - e as cenas foram mostradas nas duas novelas.

Na mesma época, a Tupi fez algo semelhante: Heloísa (Aracy Balabanian) de Antônio Maria (a novela das 7) vai a uma cartomante e dá de cara com uma personagem de Beto Rockfeller (a novela das 8). Era Lu (Débora Duarte) que também havia ido se consultar com a cartomante. A mesma cena foi exibida nas duas novelas.

Lucas disse...

Adorei o texto! Também falei sobre essa questão no meu blog, mas não com essa profundidade. Gosto também quando a Isabella Ferreto (Cláudia Ohanna) diz que fez uma plástica com o dono do mundo Felipe Barreto (Antonio Fagundes).
Lucas - www.cascudeando.zip.net (novo link)

Daniel Pepe disse...

Muito boas as contribuições!

Nilson, eu tb acho o máximo quando personagens de uma novela invadem outra. Fiquei esperando a Clô de Passione ir fazer uma prova no ateliê do Jaques Leclair, rs.

Lucas, é um dos assuntos da semana, embora neste caso acabou sendo um exemplo de como não ser tão bem sucedido. Já arrumei o site do seu blog nos relacionados.

Marcelo disse...

Adorei o texto, Pepe!
Meus parabéns!!!

E lembrei de outro (que é, inclusive, um dos meus preferidos): Murilo Pontes (Lima Duarte) de "Pedra Sobre Pedra" voltando em "A Indomada".

Lembro de, na altura, ter achado super interessante o "reencontro" dele com a "Pilar Batista". rs
Não sei se minhas lembranças estão a me enganar, mas tenho uma vaga lembrança que chegou a tocar o tema do casal (Entre a Serpente e a Estrela).
Tô certo ou tô errado? :D

Emerson Felipe disse...

Maravilhoso texto, Dan Pepe! Metalinguagem, seja em cinema ou teledramaturgia, é algo sempre atraente quando bem empregado, como você bem citou.

Lembro ou tenho conhecimento das seguintes referências: em Sassaricando, Lucrécia (Maria Alice Vergueiro) comenta com Camila (Maitê Proença) que não ia perder o primeiro capítulo da novela de seu autor favorito, Gilberto Braga (justamente na data de estreia de Vale Tudo); em Vale Tudo, Heleninha Roitman pergunta a Eugênio como está o seu visual e ele responde que ela está "uma deusa", sendo que ela diz que o mordomo havia prometido não dizer mais essa palavra desde a última novela, numa clara citação à famosa "O Amor e O Poder", que integrou a trilha de Mandala; ainda em Vale Tudo, Odete Roitman se encarrega pessoalmente de entregar os convites de casamento de Fátima e Afonso, afirmando que não confiaria essa tarefa nem a Lourdes Mesquita, vilã que a própria Beatriz Segall vivera em Água Viva.

FABIO DIAS disse...

A cena que eu ia comentar, já comentaram que era a da baba Nice com A Odete Roitman! rsrs

Como todos os seus textos Dani, só se definem em uma palavra:

PERFEITO.

Abração

Emerson Felipe disse...

Revendo a minissérie Queridos Amigos em DVD, reparei três referências: quando os jovens se recolhem na sala da casa de Léo (Dan Stulbach)por causa da chuva, passa uma cena da novela Que Rei Sou Eu? na TV, e um dos jovens questiona a sua reprise; os filhos menores de Raquel (Maria Luisa Mendonça) e Pingo (Joelson Medeiros) pedem para assistir à novela Top Model (exibindo uma cena do Gaspar com o filho John Lennon; e a filha de Lena (Débora Bloch) assiste à novela Tieta. Em Passione, Sílvio de Abreu praticamente repetiu de forma resumida a menção a Gilberto Braga feita em Sassaricando, dessa vez Dona Brígida (Cleide Yaconis) é quem diz adorar as novelas do autor; e Clô (Irene Ravache) encontra Cláudia Raia no PROJAC, elogiando sua atuação como Jaqueline de Ti Ti Ti e mandando lembranças para os protagonistas Jacques Leclair e Vitor Valentim.

edu vieira disse...

Daniel, adorei teu texto...eu também acho que tá cansando isso..o fato da Teresa Cristina até que deu, mas acho que estraga um personagem inédito como a Tia Iris ficar fazendo trejeitos da Maria Altiva. Em ti ti ti eu gostei de quase todos, mas o que mais amei foi a dancinha da Fera Radical ...e a Malu com a capa do disco..estou quebrando a cabeça pra ver se lembro isso em novelas mais antigas, mas no máximo o que me lembro são cantores fazendo eles mesmo, o que até hoje tem.Lembro da Débora Duarte comentar uma peça que a Renata Sorrah fazia na época do Corpo a corpo, Grande e pequeno do Botho Strauss...achava chique esse merchandising cultural do Gilberto.