
Novela Os Adolescentes completa 30 anos
Fábio Costa participa mais uma vez do blog com um belíssimo texto, desta vez sobre Os Adolescentes, novela que faz 30 anos hoje e que foi exibida em 1981 pela Rede Bandeirantes em sua fase áurea de teledramaturgia, quando brindou o público com pérolas como a saga de Os Imigrantes e Ninho da Serpente. Nossos agradecimentos ao Fábio, com mais esta preciosa colaboração!
Os Adolescentes: uma proposta de novela-reportagem
por Fábio Costa
Em 28 de setembro de 1981 os telespectadores que gostavam de novela foram brindados com duas estreias: na Globo, a de Brilhante, de Gilberto Braga, no horário das oito; na Bandeirantes, às 21h30, entrava Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro, que escrevia então sua segunda novela inédita para a emissora, em que estava desde o ano anterior e já havia feito novas versões de A Deusa Vencida e O Meu Pé de Laranja-lima e a comédia Cavalo Amarelo.
Já naqueles tempos a autora recordista em número de novelas para a televisão, Ivani trazia aqui um projeto que denominou “novela-reportagem”, inclusive creditado assim na abertura, com a narrativa em capítulos sendo utilizada para mostrar um perfil da juventude da época – a geração nascida nos anos 60, seus problemas, seus anseios, seus percalços na busca pela felicidade e pela realização pessoal num mundo em que as perspectivas eram poucas e, por isso, uma série de transformações se fazia necessária para que a compreensão em geral pretendida por eles pudesse ser alcançada.
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| Iracema (Beatriz Segall e Liminha (Hugo Della Santa) |
A partir de quatro personagens principais, os adolescentes do título, os perfis de suas famílias e seus problemas eram traçados e revelados ao público. Majô (Tássia Camargo) era filha de pais separados e se apaixonou pelo professor Túlio (Kito Junqueira), novo marido de sua mãe Raquel (Márcia de Windsor), e é a paixão do colega de escola Zé Luiz (Giuseppe Oristânio). Caíto (Flávio Guarnieri), sobrinho de Túlio, vivia num lar em desarmonia provocada pelos desentendimentos de seus pais, Marilu (Imara Reis) e Dirceu (Roberto Maya), e manifestava tendência à homossexualidade. Bia (Júlia Lemmertz) engravidou do namorado Michel (Ricardo Graça Mello); e seu irmão Doca (André di Biase) envereda pelo mundo das drogas. Os dois são os filhos mais velhos do casal Paula (Norma Bengell) e Odilon (Paulo Villaça), que vivem outra união infeliz, muito preocupados que estão com outros assuntos que não incluem a família, composta ainda por Marquinhos (Alexandre Raymundo), o caçula. Outro personagem importante é Liminha (Hugo Della Santa), filho da humilde costureira Iracema (Beatriz Segall numa de suas aparições na pele de pobre na televisão), que demonstra ter tudo para ingressar na marginalidade após a morte de seu irmão Leonel (José Parisi Jr.) num racha de motocicletas, logo no primeiro capítulo.
A espinha dorsal de Os Adolescentes era o conflito de gerações entre os jovens e seus pais, em que a comunicação praticamente não existia e eles não enxergavam meios de se expressar de maneira a serem respeitados em suas convicções e ideais, divergentes daquilo desejado por seus pais para suas vidas – ou seja, algo que não é muito diferente do que se pode dizer hoje e se pôde dizer antes da relação entre pais e filhos e choque de gerações. Túlio, o professor, é um amigo dos adolescentes, busca ajudá-los a resolver seus problemas e livrá-los do mal das drogas, pelo qual ele próprio fora atingido anos atrás, fato que esconde a fim de evitar atitudes preconceituosas e infundadas. A também professora Fernanda (Selma Egrei), que vai dar aulas na mesma escola, o conhece de outros carnavais, já que é irmã da ex-noiva de Túlio, e reaparece em sua vida disposta a se vingar pela morte dela, da qual o considera culpado. Com o tempo a vingança se converte em amor, mas após muitos danos à vida pessoal e profissional de Túlio, e Fernanda se arrepende das atitudes que tomou para prejudicá-lo.
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| Caíto (Flávio Guarnieri) |
Por volta do capítulo 50, Ivani Ribeiro deixou a Rede Bandeirantes e com isso a autoria da novela passou ao dramaturgo Jorge Andrade, que introduziu alguns personagens na história e começou a moldá-la a seu modo. O conflito vivido entre Caíto e seus pais, que alguns personagens consideravam fator determinante para sua tendência à homossexualidade, é contrabalançado pela amizade que o rapaz estabelece com Clô (Arlete Montenegro), uma senhora inteligente, simpática e moderna que um dia ele conhece por acaso, ao sair de casa sem rumo depois de uma briga com o pai. Aos poucos Clô se torna amiga dos jovens da história, graças a seu modo de se comunicar com eles, dando-lhes ouvidos e agindo de maneira diversa da que eles estavam acostumados a ver no dia-a-dia em casa e na escola.
Outro personagem de destaque que surge é Diogo (Jairo Arco e Flexa), marido de Iracema e pai de Liminha e Leonel, que volta após vários anos ausente sem dar grandes explicações a respeito de onde estava ou do que andou fazendo e ainda acredita ter direitos de marido, atrapalhando o romance que surge entre Iracema e Joaquim (Fábio Cardoso), irmão de Odilon e alvo do interesse de sua cunhada Paula, que faz tudo para conquistá-lo e separá-lo da costureira. Enquanto isso, Rosário (Deborah Seabra), nova aluna da escola, se aproxima de Doca e com seu amor consegue convencê-lo a se tratar e afastar-se do uso de entorpecentes. Por sugestão do ator André di Biase a Jorge Andrade, Doca enxerga no esporte um caminho para sua vida, tendo todo o apoio da namorada Rosário.
Além dos conflitos entre pais e filhos, o homossexualismo, o vício em drogas, a gravidez na adolescência, outro tema presente na novela é o romance na maturidade, através de Iracema e Joaquim e do interesse de Ceição (Sônia Oiticica), irmã da costureira, por Lulu (Emílio di Biasi), funcionário da escola. Também o amor entre pessoas com diferença de idade foi abordado, através de Moacyr (Antônio Petrin), pai de Majô, que após se separar de Raquel se envolvera com a inescrupulosa Ivete (Lília Cabral estreando em novelas), que o enganava com rapazes; e de Liminha e Raquel, casal que se forma na fase final da novela e tem oposição de Moacyr, a essas alturas morando novamente com a ex-esposa.
No elenco, ainda as presenças de Carmem Silva (D. Elza, mãe de Túlio e Marilu), Teresa Campos (Juraci, empregada da casa de Odilon e Paula), Lúcia Mello, Geny Prado, Borges de Barros, Luiz Serra, Mayara Magri, Zenaide Pereira, Tácito Rocha, Oswaldo Campozana, Osvaldo Barreto, entre outros. Guardadas as devidas proporções, Os Adolescentes foi à sua época o que a soap opera global Malhação é para os jovens há quase 17 anos: um espaço para a apresentação e discussão dos problemas, desejos, planos, dúvidas e descobertas desta fase da vida, a adolescência. Na troca de autores, a proposta inicial converteu-se numa novela mais convencional (sem tornar-se com isso pior que antes). Mas que não se pense com isso que Jorge Andrade transformou a história num jogo de modernidades e arcaísmos, a exemplo dos conflitos sociais e de gerações de obras suas como Os Ossos do Barão (Rede Globo, 1973/74) e as peças teatrais A Escada e A Moratória; os problemas dos jovens não foram exatamente amenizados, mas sim seus conflitos mudaram de foco, apresentando outros fatos e propostas de solução dos problemas que serviram de base à trama no início. Um verdadeiro desenvolvimento da história a partir do que foi recebido dos cerca de 50 capítulos escritos por Ivani Ribeiro.
Dirigida por Atílio Riccó com supervisão de Antonio Abujamra, que era então o coordenador de teledramaturgia da emissora, Os Adolescentes foi exibida pela Rede Bandeirantes até 2 de abril de 1982, dando lugar a Ninho da Serpente, de Jorge Andrade, que trazia a disputa pela herança numa família quatrocentona paulista. Mas esta já é uma outra história...
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