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sexta-feira, 17 de maio de 2013


Salve Jorge na segunda tela
Glória Perez fez a defesa de sua novela se tornar mais interessante do que a trama em si

por Duh Secco



Quando Salve Jorge estreou, escrevi um texto elogioso à nova trama de Glória Perez. O universo ficcional comumente criado pela autora para ambientar suas obras já sofria críticas prévias, tal e qual a escalação de Nanda Costa e de subcelebridades, como Thammy Miranda. Além, é claro, da indecorosa campanha dos evangélicos contra a obra, devido ao título da mesma, e da dificuldade em substituir uma trama imbatível como foi Avenida Brasil.


O tempo passou e Salve Jorge capengou na audiência ao longo de seus sete meses de exibição. Não que a novela não tivesse elementos para arrebatar o público. A abordagem do tráfico humano sempre fora extremamente interessante e contribuiu, como as pesquisas mais recentes acerca do tema mostram, para aumentar as denúncias em torno de situações semelhantes às vividas pelas traficadas da novela. O grande problema de Salve Jorge foi a incoerência com que Glória Perez conduziu sua trama e personagens. Ações improváveis, situações inverossímeis, desdobramentos que não condiziam com o que a novela havia apresentado anteriormente. Situações que alarmaram o público, hoje acostumado a acompanhar as novelas ao mesmo tempo em que comenta o que vê nas telas via rede social. E aí, se deu outro grande problema que comprometeu seriamente Salve Jorge, diminuindo a trama perante a imprensa, tamanha foi a sua repercussão: os embates de Glória Perez contra os críticos, sejam eles telespectadores comuns, a quem a autora distribuiu respostas atravessadas, ou jornalistas, acusados por ela de estarem sendo pagos para falar mal de sua obra. Glória se expôs em demasia ao sair em defesa de sua trama e abriu espaço para um interessante debate: até que ponto o contato entre autores e público, via redes sociais, é válido?


No caso de Salve Jorge, em específico, a interação de Glória com seus seguidores só serviu para alimentar ainda mais o falatório em torno dos muitos deslizes do roteiro. Erros que passariam batidos em outras tramas, aqui ganharam contornos exagerados, motivados pelo comportamento da autora em rebater aqueles que “não sabiam voar”, forma como Glória definiu aqueles que se preocupavam com as incoerências, em detrimento da trama em si. É fato que novela é obra de ficção e voar é preciso para embarcar nas fantasias propostas pelos autores. Não fosse assim, o público teria abandonado Senhora do Destino após a desastrosa passagem de tempo que iniciou a segunda fase da novela ou Avenida Brasil depois que Nina (Débora Falabella) se esqueceu de salvar as fotos comprometedoras que possuía de Carminha (Adriana Esteves) e Max (Marcello Novaes) em um pen-drive. Glória Perez abusou do direito de usar licenças poéticas em Salve Jorge. Algumas foram extremamente criticadas; outras passaram praticamente em branco. Mas todos comprometeram seriamente a estrutura do enredo e a coerência de seus personagens.


Os elementos falhos foram tantos que obrigaram Glória a criar uma novela paralela, via Twitter, na qual justifica os furos que a colcha de retalhos na qual Salve Jorge se transformou apresenta. Como exemplos, o momento em que o Mustafá (Antonio Calloni) auxilia Morena (Nanda Costa) a fugir da máfia, sem se recordar de que já a conhecia; o modo fácil com que a filha da protagonista, Jéssica, fora sequestrada, e mais fácil ainda a forma como o sequestrador foi encontrado no Alemão; e as já comentadas morte de Raquel (Ana Beatriz Nogueira) e a fuga de Morena do carro da polícia no momento em que este era alvejado pela quadrilha de Lívia (Cláudia Raia). Falsas expectativas foram criadas o tempo todo, como no momento em que Morena quase é atingida por um tiro disparado por Russo (Adriano Garib) ou quando Lucimar (Dira Paes) esperou o dia todo para agredir Wanda (Totia Meirelles) e no final, fora impedida por uma policial. Por outro lado, tramas que poderiam render bons momentos foram proteladas até o último instante, como a paternidade de Celso (Caco Ciocler), que resultaria em sequencias extremamente interessantes, não fosse a opção da autora de resolver tudo no último capítulo. Tal posicionamento impediu o telespectador de conferir melhores desempenhos de Stenio Garcia, Nívea Maria e Nicete Bruno, apenas alguns nomes dos muitos que foram desperdiçados ou simplesmente sumiram ao longo da novela. Mesmo o último capítulo foi cercado por incoerências, como a narrativa, não se sabe se "verdadeira" ou ficcional, que dizia que Théo (Rodrigo Lombardi) encontrou sua filha com a ajuda de São Jorge.


Além disso, houve uma deturpação no perfil de diversos personagens. Que Morena era uma mulher guerreira, todos sabiam. Mas daí a se envolver na investigação da Polícia Federal acerca do tráfico humano, a ponto de obter porte de arma, denotou certo exagero. Théo, de “o cara” só tinha mesmo a música, já que ao longo da trama, se deitou com praticamente todas as mulheres que o cercavam e nutriu um complexo de Édipo que o impediu de seguir a própria vida, longe dos domínios da mãe, Áurea (Suzana Faini). Aisha (Dani Moreno) buscou a família biológica durante toda a novela; aceitou Wanda, mesmo com esta estando presa, como mãe, mas rejeitou Delzuíte (Solange Badin) por esta ser pobre e moradora do Alemão. E Vó Farid (Jandira Martini), que começou a novela insana, terminou como sábia conselheira de todos os que a cercavam e temiam seu comportamento, no início.


Prova ainda maior da inconstância dos personagens de Salve Jorge fora dada na entrevista de Cláudia Raia do Domingão do Faustão, em que a atriz afirmava que Lívia Marini cairia em desgraça por conta do amor que nutria por Théo. Eis que Glória Perez entrou no ar, por telefone, dizendo que Lívia não estava apaixonada pelo capitão. O constrangimento foi inevitável e denotou um dos maiores problemas da novela: a que estava sendo levada ao ar não condizia com a trama que Glória mantinha em sua cabeça.


É óbvio que nem todos os erros da trama podem ser atribuídos à autora. A direção de Marcos Schechtmann perdeu o brilho ao longo de toda a exibição, investindo em sequências burocráticas e desinteressantes, o que acabou resvalando em outros setores de produção, tal e qual a continuidade, que cometeu deslizes que em Salve Jorge ganharam uma proporção maior do que em qualquer outra novela, tamanha foi a somatória de erros vistos enquanto a trama esteve no ar.


Mas nem tudo esteve perdido em Salve Jorge. O elenco fora o responsável pelo que a trama apresentou de positivo. Excelentes desempenhos de Giovanna Antonelli (Helô), Alexandre Nero (Stenio), Totia Meirelles (Wanda), Adriano Garib (Russo), Paloma Bernardi (Rosângela), Suzana Faini (Áurea), Letícia Spiller (Antônia), Bruna Marquezine (Lurdinha), Solange Badin (Delzuíte), Nando Cunha (Pescoço) e Roberta Rodrigues (Maria Vanúbia), de longe uma das melhores personagens da novela, desperdiçada pela má condução do roteiro.


E com isso, Salve Jorge se encerra. Um arsenal de boas ideias, cuja audiência não correspondeu como esperado; a crítica foi severa; viveu à sombra da novela anterior; e o público, impiedoso, se serviu das redes sociais para massacrar o enredo pouco elaborado que se via na tela. Disso tudo, pode se tirar uma única conclusão: o público quer voar, como Glória Perez pede, mas não está disposto a saltar sem paraquedas nessa escuridão em que Salve Jorge se configurou.



domingo, 25 de novembro de 2012


Duelo de titãs
SBT e Record se esforçam para ocupar a vice-liderança

por Duh Secco



Quem acompanhou os esforços da Record, iniciados em 2004, para se aproximar da liderança de audiência, certamente não vê, no atual momento, o mesmo empenho da emissora por índices mais elevados. A grade de programação se deteriorou, as atrações estão desinteressantes, as novelas perderam seu rumo, e as tentativas desesperadas de reverter o quadro de agora só contribuem para afundar ainda mais a emissora. No caminho inverso, está o SBT, emissora que sempre propagou sua vice-liderança absoluta, mas que fora surpreendida pelo desempenho ascendente da Record, anos atrás. Demorou a reagir, mas quando o fez, fez bem feito. Hoje, o segundo lugar não pode ser dado, com segurança, nem a Record e nem ao SBT. Ambas se revezam no posto abaixo da líder Globo e se digladiam em busca de mais pontos no ibope.


Estudos recentes, entretanto, indicam que o segundo lugar em audiência está com outras mídias. A soma de audiência de plataformas como a TV a cabo e os aparelhos blu-ray é maior do que os índices atingidos pelas emissoras que almejam a vice-liderança. Prova de que a TV aberta já não é mais tão atraente ao telespectador como em outros tempos. A julgar pelo conteúdo oferecido por algumas delas, como a Rede TV!, que loteou sua grade com programas ligados à igrejas, podemos entender o motivo pelo qual o público tem preferido outras opções.


No caso de Record e SBT, ambas apresentam atrações semelhantes e outras que divergem, o que garante uma vantagem maior para uma ou outra no saldo final de audiência. A Record investiu demasiadamente em jornalismo, contratando profissionais renomados, que estavam, em sua maioria, no quadro de funcionários da Globo. Tal ação repercutiu em resultados excelentes. O Jornal da Record viu sua média subir consideravelmente, sob o comando de Celso Freitas e Adriana Araújo, e, posteriormente, por Ana Paula Padrão. O Tudo a Ver, de Paulo Henrique Amorim e Patrícia Maldonado, foi um dos excelentes produtos lançados neste período que, infelizmente, não se criou na grade vespertina da Record, tendo apenas o seu título reaproveitado em outra atração, destinada a reprises de quadros de outros programas da emissora. Paulo Henrique fora deslocado para o Domingo Espetacular, espécie de Fantástico, que, a princípio, se tornou uma importante arma na guerra pela audiência dominical. Entretanto, todas estas atrações se deterioraram ao longo dos anos. A exibição de matérias ligadas à Igreja Universal e a opção pelo noticiário policialesco levaram à queda expressiva dos índices do jornalismo da Record. E do sensacionalismo passaram ao grotesco. Geraldo Luiz, apresentador do Balanço Geral, talvez seja o maior expoente desse equívoco. Entre uma notícia absurda e outra, ele investe em almoços no estúdio e conta com o auxílio de um anão e um galo para comandar a atração. É o show das notícias escabrosas!


O SBT, desde a saída de Bóris Casoy e a extinção do TJ Brasil, nunca mais havia investido em jornalismo. Até a contratação de Ana Paula Padrão e Carlos Nascimento e o surgimento do SBT Brasil. A audiência não correspondeu e Silvio Santos recorreu a Joseval Peixoto e Rachel Sheherazade, jornalista que ficou conhecida após difamar o Carnaval em um editorial, na apresentação de um telejornal local do SBT. A dupla de apresentadores se afinou ao longo do tempo e a exibição de matérias curtas, com os posteriores comentários de especialistas, levou o SBT Brasil a vice-liderança em seu horário, numa disputa interessante com o Jornal da Band e mesmo o Jornal da Record, que tem abandonado a linha policialesca adotada por toda a emissora e com isso, revertido a queda de seus índices.


Se no jornalismo as coisas vão bem para o SBT, nas novelas tudo tem saído ainda melhor. Carrossel se tornou o fenômeno de audiência dos últimos tempos, e a grande responsável pelo retorno da emissora à vice colocação. A opção por um produto de muito sucesso nos anos 90 não inspirava confiança no público e crítica. A adaptação de Íris Abravanel, entretanto, se revelou vitoriosa, ao unir as novidades tecnológicas que tanto agradam às crianças aos conflitos e fantasias do folhetim original. A direção de Reynaldo Boury também se revelou um acerto. O resultado: na última semana, a novela chegou a ficar apenas quatro pontos atrás de Salve Jorge, que recebeu a audiência baixa do Jornal Nacional e demorou a subir. O feito do SBT levou à Record ao desespero. Sacrificaram Rebelde, novela que já vinha capengando nos índices devido à sua excessiva duração, o que implicou em mudanças desacertadas no roteiro. Levada no ar no mesmo horário que Carrossel, a trama, também adaptada de um texto mexicano, acabou minguando de vez, até se despedir melancolicamente com seu capítulo final erroneamente programado para a exibição no dia 12 de outubro, um feriado prolongado. Tal ação corresponde a mais um dos muitos erros da Record: a incapacidade da manter a grade de programação sem alterações, por mais de uma semana. Atitude que contribuiu para levar o SBT à derrocada em audiência, no momento em que a Record, no esforço para bater a Globo, se preocupava com os horários de apresentação de seus programas e a duração dos mesmos.


No último mês, a emissora de Edir Macedo chegou a sacrificar Ídolos Kids, hoje sua maior audiência, para promover a estreia da Fazenda de Verão e, no dia seguinte, realocar o reality-show às 20h30, para tentar fazer frente à Carrossel. Em vão. A novelinha infantil continua em alta, enquanto a tal Fazenda ainda não fez o barulho necessário para se atrair o público, levando a Record a programá-la para às 23h. Sua única contribuição, até o momento, foi revelar o bom desempenho de Rodrigo Faro em atrações “ao vivo”. O apresentador também está longe dos áureos tempos de seu O Melhor do Brasil, que chegou a bater a Globo em diversas ocasiões, mas caiu em virtude da repetição de quadros, o que assola todos os outros programas da linha de shows da Record, como o Tudo é Possível, ameaçado de extinção, o Programa do Gugu, e o recém-estreado Programa da Tarde, que de opção interessante para o período vespertino passou ao mais do mesmo, apoiado no tripé famosos, violência e barracos. No SBT, a situação, no que se refere ao entretenimento, não é muito diferente. A linha de shows levada ao ar durante a semana está em decadência. As atrações, já velhas, não empolgam como antes. Mas, curiosamente, o Programa Silvio Santos, no ar quase desde que a TV brasileira iniciou suas atividades, ainda se mantém em boa posição no ibope. Em parte por conta do comportamento moderninho de seu apresentador, cada vez mais assanhado e divertido. Diversão também é o que se vê no Programa do Ratinho, que abandonou os testes de DNA e as notícias pesadas para apostar na anarquia de seus integrantes e no contato com o povão. Resultado: tornou-se uma ótima blindagem para um possível avanço da Record, que tentou derrubar a atração de Carlos Massa como a reprise de Rei Davi. A minissérie serviu também como ataque a Globo, sendo apresentada pela Record como alternativa a uma novela que evoca entidades espíritas.


O comando da Universal se converte hoje no maior empecilho para que a Record recupere seus índices. Além de desrespeitar religiões alheias, como fora visto nos anúncios da reprise de Rei Davi, os bispos não demonstram o menor apego pela emissora que controlam. Tanto que, além de promoverem constantes, e ineficientes, alterações na programação da Record, agora decidiram também a extinção de toda a linha de shows da Record News, que deve se manter apenas com as reprises de notícias já exibidas à exaustão nos telejornais da Record. Ou, em breve, servir aos interesses de Edir Macedo e seus discípulos, já que muitos defendem a exibição de programas da Universal na programação do canal, bem como na da Record. Uma forma de atrair mais fiéis (e contribuições), já que a igreja tem perdido um considerável número de seguidores ao longo dos anos. Enquanto isso, o SBT segue no caminho inverso, amparado pela astúcia de seu dono. Tem ainda uma longa jornada a percorrer, na qual deve mirar o novo e se desvencilhar de atrações do passado, sem, entretanto, perder sua essência. O resultado dessa disputa entre duas das grandes emissoras brasileiras só o tempo, e a competência de seus responsáveis, poderá dizer.



terça-feira, 23 de outubro de 2012











Glória Guerreira
Salve Jorge traz o que sua autora tem de melhor

por Duh Secco


Qualquer autor tremeria na base diante da responsabilidade de substituir um sucesso como fora Avenida Brasil, fenômeno de crítica, audiência e repercussão. Entretanto, Glória Perez não deixou transparecer nenhum resquício de insegurança ao assumir tal tarefa, ontem, na estreia de Salve Jorge, seu novo trabalho. Unindo realidade e fé, a autora soube dar o pontapé inicial, causando no público impacto semelhante ao causado pelas primeiras emoções da novela antecessora no horário.


A tarefa de Glória é ainda mais ingrata por conta dos comentários do público acerca de seu estilo. Todo noveleiro age como crítico de TV, em conversas com vizinhos ou em uma mesa de bar. Com o advento das mídias sociais, entretanto, as opiniões expressas pelos telespectadores ganharam uma dimensão muito maior, a ponto de definir o sucesso ou não de uma novela, independente da audiência registrada pelo Ibope. Foi assim que Avenida Brasil ganhou tamanha dimensão ao longo de sua exibição. A novela substituía Fina Estampa, trama de Aguinaldo Silva (outro autor que sempre é, previamente, criticado pela comunidade noveleira), que apesar dos bons números foi massacrada pela opinião pública. Assim, João Emanuel Carneiro e Ricardo Waddington, amparados pelo bom trabalho que desenvolveram, fizeram de Avenida Brasil a salvadora da pátria para uma nação interessada em uma novela das 21h com cara de novela das 21h. Glória Perez assume o horário com uma situação inversa: qualquer coisa que possa apresentar em Salve Jorge vai parecer, a princípio, pequena diante da grandiosidade do trabalho anterior.

O fato de a atual novela ter parte de sua trama desenvolvida na Turquia já colabora para que os críticos de plantão, os profissionais ou não, encontrem motivos para criticar o trabalho da autora. O mesmo se reflete no núcleo pobre, desta vez localizado no Complexo do Alemão; e na repetição de tipos, como Diva, personagem de Neuza Borges. A ambientação dada por Glória à praticamente todos os seus trabalhos faz com que eles pareçam previsíveis aos olhos dos telespectadores (e eu me incluo entre estes). Ao que parece, porém, esse não é o caso de Salve Jorge.

Glória prendeu a atenção do público logo nos primeiros minutos da novela, ao abordar a pacificação no Complexo do Alemão, reproduzida na cidade cenográfica e engrandecida por imagens reais. Vimos que a protagonista, Morena (bem defendida por Nanda Costa), padeceu com o conflito instalado entre os traficantes que dominavam a comunidade e a força policial. Além de conviver com a violência na porta de sua casa, Morena precisa se virar para, com o auxílio da mãe, Lucimar (Dira Paes), sustentar o filho que tivera com um traficante, aos 14 anos. A vida difícil que leva, humaniza Morena e pode fazer com que o público não passe a rejeitá-la, quando ela deixar o filho e seu grande amor, Théo (Rodrigo Lombardi), para trás, ao decidir tentar a vida no exterior, sendo aliciada por Lívia (Cláudia Raia), responsável pelo tráfico humano que irá prejudicar diversas personagens ao longo da narrativa. Com esta humanização de Morena, Glória Perez evita cometer o mesmo erro de América, exibida em 2005. Nesta trama, Sol (Deborah Secco) almejava enriquecer nos Estados Unidos, fazendo deste o seu único objetivo na vida. Algo maior do que o amor que sentia pelo peão de rodeio, Tião (Murilo Benício). O resultado da construção errônea no perfil de Sol levou América a uma crise de audiência e a completa desestruturação do casal protagonista, tanto que, no final, Tião e Sol terminaram com outros amores, Simone (Gabriela Duarte) e Ed (Caco Ciocler), respectivamente.


Apesar da dura rotina a qual é submetida, Morena encontra tempo para se divertir nos bailes funk de sua comunidade, o que faz dela uma figura com grande apelo popular. Assim como as irmãs interesseiras Aída (Natália do Vale) e Raquel (Ana Beatriz Nogueira), que prometem disputar a herança de Leonor (Nicette Bruno), e Lurdinha (Bruna Marquezine), uma piriguete que difere de Suelen (Ísis Valverde), moça que ocupava tal posto na novela anterior. O comportamento e as ambições se assemelham, mas Lurdinha não tem tanta noção do perigo quanto Suelen, já que, para conseguir uma vida melhor, não hesita em dar trela aos homens do tráfico do Alemão. É na comunidade que encontramos também dona Lucimar, a mãe de Morena, que também pode ganhar grande empatia por parte do público. É uma mulher devotada às suas raízes, que convive com gente da alta sociedade, que a ludibria sem a menor culpa. Caso de Stênio (Alexandre Nero), que para impedir que os moradores do Alemão delatassem o seu genro Pepeu (Ivan Mendes), tomou para si a responsabilidade pelos cuidados médicos aos quais o senhor que havia sido atropelado pelo jovem precisaria ser submetido. Pepeu é noivo de Drica (Mariana Rios, que ainda apresenta resquícios de Yasmin, sua personagem em Malhação), a irresponsável filha da delegada Helô (Giovanna Antonelli), outra personagem que pode conquistar os telespectadores. Profissional irrepreensível e defensora da lei, a delegada é uma compradora compulsiva e acumula sacolas e mais sacolas em seus armários.


A lei, inclusive, está presente em diversos núcleos de Salve Jorge. Além da delegada Helô e de seu ex-marido advogado Stênio, temos os membros da cavalaria armada das forças do Exército. É lá que encontramos Théo, o protagonista, verdadeiro herói romântico que, em um primeiro momento, não parece afeito a compromissos. Isto até conhecer Morena, com quem cruzou ao final do primeiro bloco e no término do capítulo, quando, em um momento de distração dela, seu filho Júnior (Luís Felipe Melo), correu em direção aos militares, assustando o cavalo de Théo, homem devotado à sua fé em São Jorge.


A temática da fé, aliás, contribuiu para que fanáticos religiosos tentassem promover um boicote à novela, alegando que o título da mesma faz referência a entidades espíritas. Independente do uso da expressão ou não, é de se lamentar que pessoas que pregam a fé sejam tão cegas e arregradas aos ensinamentos de suas religiões, a ponto de incitarem uma revolta contra um produto que, até o momento, não se mostrou afeito a doutrina alguma. É uma falta de respeito tamanha que chega a colocar em descrença os reais motivos pelos quais as pessoas buscam uma religião. A Record, que não faz mais questão de esconder sua ligação à Igreja Universal do Reino de Deus: promoveu a estreia da reprise de Rei Davi na mesma data em que Salve Jorge estreou, proferindo nas chamadas da minissérie, frases como “Você escolhe o que é certo e o que é errado”, como se pregasse que apenas os fiéis da igreja de Edir Macedo fossem dignos de respeito. E audiência.


Glória Perez passou por cima de todos esses comentários, assim como fez em América, quando grupos defensores dos animais a ameaçaram de morte por conta da abordagem do mundo dos rodeios. Sua sensibilidade para perceber temas relevantes, como os que fizeram de Barriga de Aluguel e O Clone, grandes sucessos de audiência, a credencia como uma das grandes autoras do Brasil. A dose de fantasia em que em envolve seus roteiros faz com que muitos a critiquem, tal e qual faziam com Janete Clair, também perseguida pela crítica; naquele tempo, restrita aos jornais e falatório nas ruas. E a atualidade se faz pungente em suas obras, como nas situações em que Sidney (Mussunzinho) divulga detalhes da pacificação do Alemão pela internet ou como quando Demir (Tiago Abravanel) simula passos de “Ai, Se Eu Te Pego", hit de Michel Teló, para turistas brasileiros. Assim, Glória fez de Salve Jorge uma boa estreia, conduzida por uma boa dose de ligação com a realidade, personagens de fácil assimilação e pela direção eficaz de Marcos Schechtman. Que venha o sucesso!


sexta-feira, 19 de outubro de 2012













Oi, oi, oi!
Avenida Brasil se consagra um dos maiores sucessos dos últimos tempos

por Duh Secco





Não há um único brasileiro sequer que, nos últimos tempos, não tenha ouvido comentários acerca de Avenida Brasil, novela das 21h que se encerrou hoje. Mais do que um sucesso de audiência, a trama de João Emanuel Carneiro se sagrou como um verdadeiro fenômeno de repercussão. Não esteve só na boca dos telespectadores ou nos bolões de aposta em torno do misterioso assassinato de Max (Marcello Novaes). O mérito de Avenida Brasil, no que tange à seus reflexos perante o público, se deu principalmente pelo fato do roteiro não conter nenhuma possibilidade de conteúdo transmídia e mesmo assim ter mobilizado o público da internet, nos meses em que esteve no ar. É um caso diferente do de Cheias de Charme, que fez da rede uma aliada no desenrolar de sua trama e consequente propagação de seu sucesso. A novela das 21h se valeu do carisma de seus personagens, incluindo a maquiavélica Carminha (Adriana Esteves), e dos acertos e erros de seu roteiro para eclodir em comentários nas mídias sociais.

Avenida Brasil começou com um prólogo eletrizante, que contava a trajetória da pequena Rita (da pequena e talentosa Mel Maia), abandonada em um lixão pela madrasta Carminha e seu amante Max, após a morte de seu pai, Genésio (Tony Ramos). Os primeiros capítulos, bem como o decorrer de toda trama, ficaram marcados pela estética de cinema imprimida pela direção de Amora Mautner e José Luiz Villamarim, sob o núcleo de Ricardo Waddington, que trouxe iluminação e enquadramentos diferenciados, que em certos momentos davam a impressão de que o público espionava os acontecimentos da trama por uma pequena fresta, nos ambientes em que as cenas se desenrolavam. Sem sombra de dúvida, a direção foi a maior responsável pelo espetáculo que se viu na tela nos últimos meses, ao orquestrar, de modo perfeito, o roteiro eficiente do autor, a produção impecável, e o talento do elenco reunido nesta produção.

Adriana Esteves foi uma Carminha irrepreensível; Débora Falabella (Rita / Nina) cumpriu bem sua função de mocinha com caráter dúbio; Cauã Reymond se esforçou para imprimir veracidade à Jorginho, constantemente perturbado pelos seus traumas do passado; e Murilo Benício (Tufão), mais uma vez, se sagrou vitorioso na composição de seus personagens. Seria injusto mencionar um ou outro ator do elenco que tenha se sobressaído, já que praticamente todos estiveram muito bem. Menções honrosas para José de Abreu (Nilo), Juliano Cazarré (Adauto), Marcos Caruso (Leleco), Otávio Augusto (Diógenes) e Ísis Valverde (Suelen). Além, é claro, de Cacau Protásio, que passou de coadjuvante a protagonista dos momentos mais divertidos da novela. O público passou a aguardar ansiosamente cada aparição de sua Zezé. Lamenta-se a repetição de tipos que permeiam a carreira de Ailton Graça, desta vez como o malandro Silas, e o tom atribuído por Heloísa Perissé à sua Monalisa, idêntico ao de seus personagens anteriores, mesmo estando diante de algo diferente do que fizera anteriormente.





A trama muito bem urdida de Avenida Brasil deu possibilidades a todos os integrantes do elenco e conseguiu prender a atenção do público, ainda que sérios deslizes nas situações tramadas por João Emanuel Carneiro tenham comprometido a narrativa. Foi o caso da vingança de Nina, que se revelou falha no decorrer da novela, já que, depois de muito ouvir atrás das portas, a única prova que a cozinheira possuía contra sua algoz eram fotos dela em pleno ato sexual com Max. Fotos essas que desemboracam em um erro ainda maior: em plena era tecnológica (e Nina se aproveitara muito bem da tecnologia quando necessário), a mocinha entregou cópias impressas dos arquivos a amigos de confiança e se esqueceu de armazenar as mesmas em um pen-drive ou qualquer coisa do tipo. João Emanuel Carneiro se justificou, alegando ser uma analfabeto digital e se apoiando na liberdade criativa do processo de escrita de uma novela. Mas tal liberdade não condizia com o roteiro (até então) crível que vinha sendo apresentado. A vingança de Nina também empacou no episódio do dinheiro do sequestro de Carminha, que se multiplicou nas mãos da namorada de Jorginho e serviu para que ela comprasse Max, por quem se dizia apaixonada, mesmo se negando a transar com ele. Era de se entender que a mocinha da novela não pudesse se deitar com o vilão. Mas ficou difícil de aceitar que o vilão aceitaria as desculpas da garota por tanto tempo.

Por outro lado, dá para entender que a revelação de Nina sobre o verdadeiro caráter de Carminha era fundamental para o desenrolar da novela. Para se obter uma vaga noção do quanto a manutenção desta trama era necessária, basta se atentar para os capítulos exibidos nesta última semana. Carminha, após a morte de Max, vai morar com Santiago (Juca de Oliveira), seu pai, que se revela como grande vilão. A submissão da loira ao pai é algo aparentemente inexplicável, uma vez que os dois já haviam se enfrentado em ocasiões anteriores, nas quais Carminha nunca demonstrou o medo e a resignação que pareceu ter com o pai, articulador de um sequestro mal ajambrado de Tufão, motivado por uma até então desconhecida fortuna utilizada pela família do jogador para abrir um nunca antes comentado shopping no bairro do Divino. De tramas equivocadas como esta a furos como o de Nina, que saiu do banco com um milhão em espécie (um erro sobre o qual ela havia alertado seu pai, quando ainda era pequena) e a presença de notas utilizadas para o pagamento do sequestro de Carminha e que serviram para incrimar a cozinheira, quando esta já havia gastado todo o dinheiro; até situações óbvias que contribuíram para o encaminhamento dos momentos finais, como Ivana (Letícia Isnard), desconfiada que só, falando sobre o shopping na frente de Carminha ou o sequestrador de Tufão parar para abastecer o carro e ser flagrado por Nina. Entre bons momentos, e outros não tão bons assim, Avenida Brasil foi seguindo até o seu derradeiro capítulo.

A imprensa já havia adiantado praticamente todos os acontecimentos deste final, o que dizimou por completo a surpresa do mesmo: Carminha atirou no pai, salvando Nina e Tufão. A cozinheira esquecera do mal que a madrasta lhe fez e a perdoou. Uma atitude até que aceitável, não fosse o fato de Nina ter dedicado sua vida a destruir sua madrasta. O embate final das duas, que acabou desembocando em um perdão recíproco, não condiz com a trajetória de ambas ao longo de toda a narrativa. Ficou difícil para o telespectador digerir o fato de Carminha ter se redimido após passar um curto período de tempo sob o domínio de seu pai. E também que Nina tenha se influenciado pelo fato de Carminha ter salvo sua vida duas vezes (quando atirou em Santiago e quando matou Max) a ponto de esquecer o passado de tragédias pelo qual teve que passar ao ser jogada no lixão pela vilã.

Nada disso, entretanto, se converte em demérito para a novela, vista por todas as classes sociais, embora a imprensa tenha sempre se preocupado em frisar que se tratava de uma trama concebida para a classe C. Há, em todos estes comentários, um claro erro de interpretação, que não permitiu que críticos mais ferrenhos vissem que Avenida Brasil é sobre a classe C, mas com uma narrativa voltada para todas as classes. Se não fosse assim, não haveria a necessidade de um núcleo rico, capitaneado por Cadinho (Alexandre Borges) e suas três mulheres. Muitos rejeitaram tais personagens, fundamentais na história, já que simbolizavam um respiro dentro da narrativa pesada da novela. João Emanuel Carneiro é afeito a núcleos que funcionam como sitcoms dentro do contexto da obra. Em Da Cor do Pecado, as tramas paralelas eram tão desconexas da central, que isto ficava visível até mesmo na divisão dos blocos: o primeiro e o último eram voltados para os protagonistas e os dois do meio para a comicidade dos Sardinha, do pai Helinho (Matheus Nachtergaele) e do casal falido Edu (Ney Latorraca) e Verinha (Maitê Proença).

Muitos também torceram o nariz para a trilha sonora popular, que nada mais é do que um reflexo do atual momento da música brasileira, onde grandes intérpretes se preocupam mais em lançar álbuns para os críticos do que com a execução de suas músicas na rádio, deixando para esta a reprodução de canções de refrão repetitivo, como as que permeavam as cenas da novela e condiziam perfeitamente com a narrativa.

Enfim, Avenida Brasil chegou ao seu final. Cheia de deslizes, que a impede de figurar entre as obras-primas da dramaturgia nacional; e de méritos que a colocam como uma das novelas de maior sucesso dos últimos tempos.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012














Otávio e Charlô: e a guerra continua 30 anos depois ...

por Guilherme Staush



Há um ano, exatamente, o autor Sílvio de Abreu nos concedeu sua primeira entrevista aqui, no blog. Na época, já preparava o remake de um de seus maiores sucessos, Guerra dos Sexos, atualmente em sua segunda semana de exibição no horário das 7. E sobre a novela, o autor discorreu na época:
Sei que com “Guerra” estou arriscando comparações e que elas sempre serão favoráveis à versão original da novela e eu nem vou poder colocar a culpa no adaptador, porque eu mesmo estou refazendo. Mas arriscar é o que mais me motiva na minha profissão. Já disse várias vezes que o que me estimula são desafios.

De fato, Silvio está tendo um de seus maiores desafios na TV, e basicamente por duas razões: a primeira delas, por adaptar uma obra que é praticamente irretocável – “Guerra” representou uma inovação no horário, seja pela direção, pela comédia escrachada, pela interação dos personagens que se comunicavam falando diretamente com o público de casa, e pelas cenas de pastelão. É, até hoje, uma das maiores referências dentre as novelas exibidas no horário. E a segunda razão, e talvez a mais desafiadora de todas: conseguir extrair do elenco atual uma atuação tão marcante como a que foi obtida pelo elenco da versão de 83. Algo que nos permita admitir que este remake tem uma razão de ser.

Vale lembrar que, na versão de 83, os protagonistas Otávio e Charlô foram interpretados por Paulo Autran e Fernanda Montenegro, atores essencialmente do teatro, que atuavam pela primeira vez juntos, e protagonizavam cenas de pastelão impensáveis para dois atores daquele quilate (a famosa cena do café é uma das mais reprisadas pela TV até hoje). A novela tinha ainda o casal 20 da televisão brasileira, Glória Menezes (Roberta) e Tarcisio Meira (Felipe), que brigavam como cão e gato, para deleite dos telespectadores acostumados a ver os dois em cenas românticas; e Lucélia Santos, que depois de viver várias heroínas na TV, aparecia pela primeira vez como uma vilã. Vale ressaltar também as ótimas interpretações  de Yara Amaral (Nieta) e Mário Gomes (Nando), que inclusive ganharam o prêmio APCA de melhor atriz e ator daquele ano, juntamente com Fernanda e Paulo. Além disso, teve Cristina Pereira (como a impagável Frô), José Mayer (em sua estreia em novelas, como o lutador Ulisses), e Edson Celulari (interpretando seu segundo vilão, o Zenon). Apesar da pouca experiência dos três em televisão, cumpriram com mérito, o papel designado a eles.

De uma coisa Silvio estava certo: as comparações são mesmo inevitáveis, e no caso de Guerra, isso é ainda mais evidente, pois está se comparando uma obra-prima da TV, uma referência no horário, com uma nova adaptação. Tudo aquilo que fez da trama o grande sucesso que foi não é mais novidade na TV: o pastelão já foi utilizado à exaustão, e a novela já teve (possivelmente) os melhores atores para interpretar seus personagens. Resta ao autor REcriar uma história que ficou datada depois de 30 anos (a posição da mulher na sociedade de hoje é bem diferente da que foi retratada na trama de 83), e surpreender o telespectador que pensa que já conhece a história. E aos atores, cabe a difícil função de cativar o telespectador que vê a novela pela primeira vez, e superar as expectativas daqueles que viram a primeira versão.

A teledramaturgia tem apresentado nos últimos anos vários remakes, porém todos eles feitos por autores diferentes dos que escreveram o original, o que significa – pelo menos em tese - uma releitura das obras. Tivemos novas adaptações de Irmãos Coragem, Pecado Capital, Anjo Mau, Ti Ti Ti e O Astro, por exemplo. Entretanto, vimos poucos remakes feitos pelo autor que escreveu o próprio original. Mulheres de Areia e A Viagem foram os últimos, se não contabilizarmos os remakes das obras de Benedito Ruy Barbosa, “reescritos” por Edmara e Edilene. A versão de 1993 de Mulheres de Areia, escrita pela mesma Ivani Ribeiro que fez o original, apresentado 20 anos antes pela Rede Tupi, tinha a vantagem de ter sido uma novela quase que inédita para a grande maioria dos telespectadores, já que há pouquíssimos registros da primeira versão disponíveis, e consequentemente, pouco a se comparar. Por outro lado, embora a primeira “Guerra” já tenha 30 anos (mais tempo do que o espaço entre as duas versões de Mulheres de Areia), com o avanço tecnológico dos últimos tempos, é possível baixar a primeira versão da novela na íntegra pela internet, comprar os dvds com as gravações de todos os capítulos, ou ainda assistir cenas avulsas, alocadas no Youtube. Ou seja, mesmo o telespectador mais jovem pode ter acesso à obra original.

Ainda assim, independente de qualquer comparação (justa ou não) que possamos fazer entre a original e o remake, os problemas da atual versão saltaram aos olhos já no momento em que foi divulgado o clip de lançamento da novela. E, decorridos 11 capítulos, o maior problema da novela, a meu ver, está na direção. Jorge Fernando é um ótimo diretor, mas precisa se atualizar urgentemente. Seus últimos trabalhos têm sido bastante repetitivos, trazendo um humor fácil, forçado e ultrapassado, com interpretações exageradas e caricatas, e tudo isso visto em novelas de um mesmo autor – Walcyr Carrasco – com quem o diretor mais trabalhou nos últimos 10 anos.

O que se nota em “Guerra”, é que não há uma uniformidade na interpretação dos atores. Enquanto Mariana Ximenes e Mayana Moura, por exemplo, dão um tom mais dramático às suas Juliana e Veruska, respectivamente, Glória Pires e Reynaldo Gianecchini exageram na comicidade de Roberta e Nando. O segundo, definitivamente, ainda não encontrou o tom de seu personagem. Está praticamente o Pascoal, o mecânico que interpretou na novela Belíssima, apenas com cabelo e figurino diferentes.

Os excelentes Tony Ramos e Irene Ravache são atores experientes, e certamente, mais tarde, irão deitar e rolar com as cenas de Otávio e Charlô. Precisam se livrar desse tom mais teatral que estão dando às cenas, utilizando um humor forçado, como se seus personagens estivessem “brincando”. É preciso passar credibilidade na rivalidade entre os primos, com um cinismo mais natural e sutil, que é a característica mais marcante de seus personagens. Para que uma cena seja engraçada, não há a necessidade de transformar os personagens em dois palhaços. Às vezes, a ironia e a sutileza podem ter uma graça bem maior.

Edson Celulari está muito bem como Felipe, e Drica Morais conseguiu reinventar uma bela Nieta, apesar da referência “monstruosa” que a personagem tem. O núcleo mais penoso, entretanto, é, sem dúvida o da casa de Semíramis (Débora Olivieiri), onde vive o já citado Nando. Eriberto Leão é um dos atores mais inexpressivos da atualidade, e Marianna Armellini destruiu toda a graça da personagem Frô, magistralmente interpretada por Cristina Pereira na primeira versão (é nessas horas que o telespectador percebe a importância de uma escalação adequada).

Na última quinta-feira, foi ao ar a antológica cena do café da manhã, onde os primos Charlô e Otávio se declaram guerra, jogando tudo que tem na mesa na cara um do outro. Obviamente a cena não teve a mesma graça da que já foi vista inúmeras vezes na TV. A ideia de transpor imagens da primeira versão com as atuais não funcionou bem, tirando um pouco o brilho da cena atual e valorizando, por algumas vezes, as imagens de arquivo. Mas, claro, “Guerra” não é só isso, e certamente há muitas surpresas reservadas ao longo da novela. Silvio é um autor experiente e já deu provas de sua habilidade por diversas vezes (quem não lembra da mudança radical nos rumos de Torre de Babel, quando a novela já estava no ar?). A atual Guerra apresenta uma série de personagens interessantes , e que podem ser bem explorados com diversas tramas no decorrer da história. 

As referências a outras novelas, que foram bem marcantes em 83, continuam a todo vapor nesta versão (e que delícia são essas metalinguagens televisivas!). No capítulo de quinta-feira mesmo, a personagem Nieta, assistindo à reprise de Da Cor do Pecado, faz um sutil comentário que serviu justamente para o remake de Guerra dos Sexos: “De repente eles mudam a história. Vocês não sabem que essa gente de televisão é tudo meio louca?”

A novela está apenas no início, e certamente há muito para se analisar. São apenas as primeiras impressões de um produto que ainda tem muito o que oferecer em seus quase 180 capítulos de exibição.
Mas, acima de tudo, cabe ao diretor Jorge Fernando segurar as rédeas, trabalhar um pouco mais as sutilezas subjacentes ao texto de Sílvio, evitar os exageros, e não esquecer que, dirigir uma novela essencialmente cômica, não significa exatamente promover um espetáculo circense em cena.



sábado, 15 de setembro de 2012













Tapas & Beijos, uma fórmula de sucesso

por Daniel freitas



No ar desde abril de 2011, a série Tapas & Beijos, idealizada por Cláudio Paiva e com direção de Maurício Farias, vem se consolidando com um dos maiores acertos da Rede Globo no quesito humor. Responsável por resgatar o antigo público do Casseta & Planeta Urgente para as noites de terça-feira, a produção alcança respeitáveis 25 pontos no IBOPE, a audiência média de uma novela das seis. No ano passado, chegou à marca dos 31. Com o sucesso, a Globo Marcas/Som Livre lançou três DVDs com a temporada 2011, mais making of e erros de gravação. A receptividade do público não é em vão. Um roteiro bem amarrado, histórias que não caem na mesmice e um elenco que dispensa apresentações são a fórmula para o êxito.





O seriado tem no comando a dupla Fernanda Torres e Andréa Beltrão como Fátima e Sueli, duas mulheres divertidas, que levam a vida com graça e espiritualidade, sem abrir mão de enrascadas e confusões. Os papéis parecem ter sido feitos sob medida para as duas atrizes, donas de invejáveis currículos na arte de fazer rir. Andréa demonstra sua versatilidade desde a Zelda Scott de Armação Ilimitada, passando por diversas novelas (Rainha da Sucata, Pedra sobre Pedra, A Viagem, e As Filhas da Mãe, entre elas) e programas de humor como o Zorra Total, no qual viveu a Garota TPM. A atriz também protagonizou a gincana Radical Chic, no início dos anos 90, na qual viveu a personagem título, criada por Miguel Paiva.    

Já a história de Fernanda Torres se confunde com a trajetória do humor televisivo brasileiro, colecionando sucessos desde A Comédia da Vida Privada, Brava Gente, Vida ao Vivo Show e quadros cômicos do Fantástico. O maior destaque, sem dúvida, foi a série Os Normais, no qual, ao lado de Luiz Fernando Guimarães, deu vida ao casal Rui e Vani. Em Tapas & Beijos, Sueli e Fátima dosam com maestria esperteza e ingenuidade, a dureza da vida e a capacidade de rir de si mesmas. E nisso reside o sucesso do programa, permeado por entonações de voz, trejeitos de corpo e frases hilárias reunidas numa receita de humor inteligente.



Sueli e Fátima iniciaram a série como duas mulheres solteiras e independentes, que dividiam um apartamento no bairro carioca do Méier e não deixavam de sair à luta em busca de um grande amor. É na charmosa Copacabana que a história acontece, tendo como pano de fundo as paisagens da zona sul do Rio de Janeiro e os clássicos musicais que enaltecem as belezas do bairro na voz de Nelson Gonçalves e outros mestres. Para ambientar a história, uma réplica perfeita de Copacabana foi construída no Projac. Lá, as duas são vendedoras de uma loja para noivas, palco para as confusões que envolvem o restante do afinado elenco: Armane (Vladimir Brichta), Jorge (Fábio Assunção), Djalma (Otávio Muller), Flavinha (Fernanda de Freitas), Seu Chalita (Flávio Migliaccio), Bia (Malu Rodrigues) e Jurandir (Érico Brás) – este último com raízes no Bando de Teatro Olodum, de Salvador, e revelado para o Brasil através do filme Ó Paí Ó.

Ao longo do primeiro ano, Sueli tenta se livrar do ex-marido Jurandir, enquanto Fátima faz de tudo para que Armane deixe a esposa e a assuma de vez. Enquanto isso, as duas sofrem a marcação cerrada de Flavinha (ótima, com as caras e bocas sempre no tom certo), que também trabalha na loja de noivas e é mulher do dono, o palerma Djalma. No final da temporada, Fátima se casa com Armane e Sueli com Jorge, dono da boate La Conga, que carrega a tiracolo a filha Bia, que por sua vez se torna a namorada de Jurandir. E a celeuma está formada. De alianças no dedo, Sueli e Fátima agora são vizinhas e moram com seus maridos em Copacabana, deixando as agruras da solteirice de lado e vivendo suas obrigações de esposas.   

A cada terça-feira, os personagens vivem situações que dão voltas em torno de si, mas nunca se repetem. É algo repisado e original ao mesmo tempo. Tiradas despretensiosas que soam hilárias quando saem da boca de atores com o timing perfeito para as deixas e diálogos rápidos, inseridos num roteiro ágil. Tanta criatividade já rendeu mudanças na função de alguns personagens (como o que ocorreu com o ator Kiko Mascarenhas, que primeiro atuou como o Santo Antônio que conversa com Sueli, e depois como o advogado de Clotilde, ex-mulher de Armane) e participações especiais, como Daniel Boaventura, Luiz Carlos Miele, Hugo Resende, Guilherme Winter, Letícia Isnard, Yoná Magalhães, Vinicius Manne, Juliano Cazarré e Alexandre Slaviero.

Para gravar Tapas & Beijos, Andréa Beltrão teve de deixar seu papel em A Grande Família, outro programa prestigiado da emissora. Ao lado de Fernanda Torres, ela habita um universo temático com o qual as telespectadoras muito se identificam: o casamento. O autor Cláudio Paiva já admitiu, inclusive, que foram os 25 anos de casado com a esposa (bodas de prata) que o fizeram escolher o tema como fio condutor da atração. A Djalma Noivas, então, representa o clássico fetiche feminino pelo mundo dos vestidos brancos. Basta dizer que 60 vestidos de noiva diferentes são usados no cenário da loja.

Casamento, inclusive, é algo que ocorre aos montes na ficção. As próprias Andréa e Fernanda já se casaram diversas vezes em muitas novelas. Mas em Tapas & Beijos, pode ser que a união selada pelas personagens não tenha lá um final muito feliz. Nos bastidores da Rede Globo, circula a possibilidade de reviravolta na história e de Fátima e Sueli não chegarem até o final do ano casadas, em razão de um possível desgaste do matrimônio. Será que elas eram mais felizes quando solteiras? Não se sabe. Mas continuam tão engraçadas quanto antes, com disposição e fôlego para mais e mais temporadas.