Somos amantes da teledramaturgia. Respeitamos a arte e a criação acima de tudo. Nosso profundo respeito a todos os profissionais que criam e fazem da televisão essa ferramenta grandiosa, poderosa, que desperta os mais variados sentimentos. Nossa crítica é nossa colaboração, nossa arma, nosso grito de liberdade.



ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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sexta-feira, 12 de outubro de 2012














Otávio e Charlô: e a guerra continua 30 anos depois ...

por Guilherme Staush



Há um ano, exatamente, o autor Sílvio de Abreu nos concedeu sua primeira entrevista aqui, no blog. Na época, já preparava o remake de um de seus maiores sucessos, Guerra dos Sexos, atualmente em sua segunda semana de exibição no horário das 7. E sobre a novela, o autor discorreu na época:
Sei que com “Guerra” estou arriscando comparações e que elas sempre serão favoráveis à versão original da novela e eu nem vou poder colocar a culpa no adaptador, porque eu mesmo estou refazendo. Mas arriscar é o que mais me motiva na minha profissão. Já disse várias vezes que o que me estimula são desafios.

De fato, Silvio está tendo um de seus maiores desafios na TV, e basicamente por duas razões: a primeira delas, por adaptar uma obra que é praticamente irretocável – “Guerra” representou uma inovação no horário, seja pela direção, pela comédia escrachada, pela interação dos personagens que se comunicavam falando diretamente com o público de casa, e pelas cenas de pastelão. É, até hoje, uma das maiores referências dentre as novelas exibidas no horário. E a segunda razão, e talvez a mais desafiadora de todas: conseguir extrair do elenco atual uma atuação tão marcante como a que foi obtida pelo elenco da versão de 83. Algo que nos permita admitir que este remake tem uma razão de ser.

Vale lembrar que, na versão de 83, os protagonistas Otávio e Charlô foram interpretados por Paulo Autran e Fernanda Montenegro, atores essencialmente do teatro, que atuavam pela primeira vez juntos, e protagonizavam cenas de pastelão impensáveis para dois atores daquele quilate (a famosa cena do café é uma das mais reprisadas pela TV até hoje). A novela tinha ainda o casal 20 da televisão brasileira, Glória Menezes (Roberta) e Tarcisio Meira (Felipe), que brigavam como cão e gato, para deleite dos telespectadores acostumados a ver os dois em cenas românticas; e Lucélia Santos, que depois de viver várias heroínas na TV, aparecia pela primeira vez como uma vilã. Vale ressaltar também as ótimas interpretações  de Yara Amaral (Nieta) e Mário Gomes (Nando), que inclusive ganharam o prêmio APCA de melhor atriz e ator daquele ano, juntamente com Fernanda e Paulo. Além disso, teve Cristina Pereira (como a impagável Frô), José Mayer (em sua estreia em novelas, como o lutador Ulisses), e Edson Celulari (interpretando seu segundo vilão, o Zenon). Apesar da pouca experiência dos três em televisão, cumpriram com mérito, o papel designado a eles.

De uma coisa Silvio estava certo: as comparações são mesmo inevitáveis, e no caso de Guerra, isso é ainda mais evidente, pois está se comparando uma obra-prima da TV, uma referência no horário, com uma nova adaptação. Tudo aquilo que fez da trama o grande sucesso que foi não é mais novidade na TV: o pastelão já foi utilizado à exaustão, e a novela já teve (possivelmente) os melhores atores para interpretar seus personagens. Resta ao autor REcriar uma história que ficou datada depois de 30 anos (a posição da mulher na sociedade de hoje é bem diferente da que foi retratada na trama de 83), e surpreender o telespectador que pensa que já conhece a história. E aos atores, cabe a difícil função de cativar o telespectador que vê a novela pela primeira vez, e superar as expectativas daqueles que viram a primeira versão.

A teledramaturgia tem apresentado nos últimos anos vários remakes, porém todos eles feitos por autores diferentes dos que escreveram o original, o que significa – pelo menos em tese - uma releitura das obras. Tivemos novas adaptações de Irmãos Coragem, Pecado Capital, Anjo Mau, Ti Ti Ti e O Astro, por exemplo. Entretanto, vimos poucos remakes feitos pelo autor que escreveu o próprio original. Mulheres de Areia e A Viagem foram os últimos, se não contabilizarmos os remakes das obras de Benedito Ruy Barbosa, “reescritos” por Edmara e Edilene. A versão de 1993 de Mulheres de Areia, escrita pela mesma Ivani Ribeiro que fez o original, apresentado 20 anos antes pela Rede Tupi, tinha a vantagem de ter sido uma novela quase que inédita para a grande maioria dos telespectadores, já que há pouquíssimos registros da primeira versão disponíveis, e consequentemente, pouco a se comparar. Por outro lado, embora a primeira “Guerra” já tenha 30 anos (mais tempo do que o espaço entre as duas versões de Mulheres de Areia), com o avanço tecnológico dos últimos tempos, é possível baixar a primeira versão da novela na íntegra pela internet, comprar os dvds com as gravações de todos os capítulos, ou ainda assistir cenas avulsas, alocadas no Youtube. Ou seja, mesmo o telespectador mais jovem pode ter acesso à obra original.

Ainda assim, independente de qualquer comparação (justa ou não) que possamos fazer entre a original e o remake, os problemas da atual versão saltaram aos olhos já no momento em que foi divulgado o clip de lançamento da novela. E, decorridos 11 capítulos, o maior problema da novela, a meu ver, está na direção. Jorge Fernando é um ótimo diretor, mas precisa se atualizar urgentemente. Seus últimos trabalhos têm sido bastante repetitivos, trazendo um humor fácil, forçado e ultrapassado, com interpretações exageradas e caricatas, e tudo isso visto em novelas de um mesmo autor – Walcyr Carrasco – com quem o diretor mais trabalhou nos últimos 10 anos.

O que se nota em “Guerra”, é que não há uma uniformidade na interpretação dos atores. Enquanto Mariana Ximenes e Mayana Moura, por exemplo, dão um tom mais dramático às suas Juliana e Veruska, respectivamente, Glória Pires e Reynaldo Gianecchini exageram na comicidade de Roberta e Nando. O segundo, definitivamente, ainda não encontrou o tom de seu personagem. Está praticamente o Pascoal, o mecânico que interpretou na novela Belíssima, apenas com cabelo e figurino diferentes.

Os excelentes Tony Ramos e Irene Ravache são atores experientes, e certamente, mais tarde, irão deitar e rolar com as cenas de Otávio e Charlô. Precisam se livrar desse tom mais teatral que estão dando às cenas, utilizando um humor forçado, como se seus personagens estivessem “brincando”. É preciso passar credibilidade na rivalidade entre os primos, com um cinismo mais natural e sutil, que é a característica mais marcante de seus personagens. Para que uma cena seja engraçada, não há a necessidade de transformar os personagens em dois palhaços. Às vezes, a ironia e a sutileza podem ter uma graça bem maior.

Edson Celulari está muito bem como Felipe, e Drica Morais conseguiu reinventar uma bela Nieta, apesar da referência “monstruosa” que a personagem tem. O núcleo mais penoso, entretanto, é, sem dúvida o da casa de Semíramis (Débora Olivieiri), onde vive o já citado Nando. Eriberto Leão é um dos atores mais inexpressivos da atualidade, e Marianna Armellini destruiu toda a graça da personagem Frô, magistralmente interpretada por Cristina Pereira na primeira versão (é nessas horas que o telespectador percebe a importância de uma escalação adequada).

Na última quinta-feira, foi ao ar a antológica cena do café da manhã, onde os primos Charlô e Otávio se declaram guerra, jogando tudo que tem na mesa na cara um do outro. Obviamente a cena não teve a mesma graça da que já foi vista inúmeras vezes na TV. A ideia de transpor imagens da primeira versão com as atuais não funcionou bem, tirando um pouco o brilho da cena atual e valorizando, por algumas vezes, as imagens de arquivo. Mas, claro, “Guerra” não é só isso, e certamente há muitas surpresas reservadas ao longo da novela. Silvio é um autor experiente e já deu provas de sua habilidade por diversas vezes (quem não lembra da mudança radical nos rumos de Torre de Babel, quando a novela já estava no ar?). A atual Guerra apresenta uma série de personagens interessantes , e que podem ser bem explorados com diversas tramas no decorrer da história. 

As referências a outras novelas, que foram bem marcantes em 83, continuam a todo vapor nesta versão (e que delícia são essas metalinguagens televisivas!). No capítulo de quinta-feira mesmo, a personagem Nieta, assistindo à reprise de Da Cor do Pecado, faz um sutil comentário que serviu justamente para o remake de Guerra dos Sexos: “De repente eles mudam a história. Vocês não sabem que essa gente de televisão é tudo meio louca?”

A novela está apenas no início, e certamente há muito para se analisar. São apenas as primeiras impressões de um produto que ainda tem muito o que oferecer em seus quase 180 capítulos de exibição.
Mas, acima de tudo, cabe ao diretor Jorge Fernando segurar as rédeas, trabalhar um pouco mais as sutilezas subjacentes ao texto de Sílvio, evitar os exageros, e não esquecer que, dirigir uma novela essencialmente cômica, não significa exatamente promover um espetáculo circense em cena.



sexta-feira, 4 de maio de 2012

S I L V I O 

de

A B R E U





Silvio de Abreu retorna ao blog Agora é Que São Eles. No ano passado, o autor nos concedeu uma entrevista (CLIQUE AQUI para ler) contando sobre seus diversos trabalhos na TV. Dessa vez, o autor fala com exclusividade ao Agora sobre seu próximo trabalho, o remake de Guerra dos Sexos, e conta as novidades sobre a trama e o elenco da próxima novela das 7. Confiram!



CONTEÚDO EXCLUSIVO


 por Guilherme Staush



1.   Em depoimentos dados para alguns sites, você contou que Charlô e Otávio (Irene Ravache e Tony Ramos) da Guerra dos Sexos atualizada serão sobrinhos de Charlô e Otávio (Fernanda Montenegro e Paulo Autran) da Guerra de 1983. Como será isso? Eles terão os mesmos nomes dos tios e viverão as mesmas situações deles? Será uma adaptação da Guerra original ou uma continuação da história?

O remake será exatamente como o original com algumas, digamos, licenças poéticas. Em 2012 Bimbo I e Charlô I morrem no inicio da trama e deixam a sua fortuna para seus sobrinhos homônimos e preferidos,  Bimbo II e Charlô II que, coincidentemente, têm os mesmos problemas de relacionamento que eles tiveram no passado e os mesmos gênios combativos e divergentes.  Junto com a herança vem a governanta da casa, que já servia Charlô e Bimbo primeiros, Olivia, que será interpretada pela mesma atriz da versão de 1983, Marilu Bueno. Através das lembranças dela sobre os antigos patrões será possível trazer de volta muitas cenas de Fernanda Montenegro e Paulo Autran. Sei que muitos fãs da novela dirão que na história original eles não tinham sobrinhos, que se a história se passa 30 anos depois, como pode os personagens, nomes e situações serem os mesmos etc e etc, mas isso tudo é irrelevante uma vez que estamos lidando com ficção e o que interessa é proporcionarmos um bom divertimento ao público.  

Tony Ramos e Irene Ravache serão os sobrinhos
homônimos de Charlô e Otávio na atualização de Guerra dos Sexos.


2.  Acredito que a antológica cena do café da manhã, quando os primos Otávio e Charlô dão a guerra por declarada, não faltará no remake. Já escreveu a cena? Pode adiantar algo? Que outras cenas de impacto similar acha que não podem faltar nessa nova versão?

A cena já está reescrita e vai ter algumas surpresas para o público. Revendo a novela é surpreendente o número de situações divertidas em que os personagens são colocados. Não só Charlô e Otávio, mas todos os outros. Roberta Leone e Felipe de Alcântara, que foram Gloria Menezes e Tarcísio Meira e agora serão Glória Pires e Edson Celulari têm uma infinidade de situações inusitadas e divertidas que serão conservadas e modernizadas. Quando se fala da novela, a primeira cena que vem à cabeça do público é a da cena do café da manhã, o que não é de estranhar porque é a mais reprisada da história da televisão brasileira em todos os tempos, mas a novela vai muito além disso.   
  
"Bimbo" (Paulo Autran) e "Cumbuca" (Fernanda Montenegro) na
antológica cena da guerra no café da manhã, na versão original de 1983:
a cena de novela mais reprisada da TV!

3. Na original de 83, as personagens constantemente olhavam e falavam para a câmera, buscando uma forma de interação com o público, criando um estilo que ficou registrado nessa produção. Pretende utilizar esse mesmo recurso na atualização da novela? Acredita que o pastelão, falando mais especificamente sobre “tortas na cara”, ainda terá o mesmo impacto 30 anos depois?

Ainda não decidi com o Jorge Fernando se vamos conservar a retirada da quarta parede, ou seja, fazer os personagens dialogarem com o público. Na versão de 83 essa prática não começou no inicio da novela. Em Jogo da Vida, minha novela anterior, eu tinha usado pela primeira vez este recurso com o personagem Mariúcha, de Elizângela, que era uma vilã e fazia do público seu cúmplice. O resultado foi ótimo e resolvemos repetir a experiência quando sentimos que ficaria bom também na Guerra, e estávamos certos. Em a Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden usamos novamente esse recurso, mas a audiência não entendeu, se ressentiu. Talvez seja melhor esperar a audiência se firmar, para começar a brincar, ainda não sabemos. É evidente que o pastelão não terá o mesmo impacto que teve em 1983, porque já foi mais do que copiado e desgastado em várias outras novelas de muitos outros autores, mas acredito que completa bem o contexto do humor de Guerra dos Sexos e será conservado, assim como o gênero screwball comedy que permeia toda a trama.


Glória Pires será Roberta Leone na versão atualizada, papel que foi de Glória Menezes em 1983.


4. Você ficou chateado por não poder contar com alguns atores que estavam previamente escalados para fazer a novela? O que é mais importante na hora de escalar o elenco para uma produção como essa: O Physique du role do ator, a química com o par romântico, ou algum outro fator?

Não houve muitas baixas no elenco original proposto. Claudia Raia saiu por uma impossibilidade de gravar nos finais de semana, e acho que Luana Piovani é uma escalação à sua altura e está ótima como Vânia. Márcio Garcia seria um excelente Fábio, fotógrafo, apaixonado por Juliana, Mariana Ximenes, mas Paulo Rocha foi uma revelação em Fina Estampa e estou muito satisfeito que faça parte do elenco. Além deles, todos os outros personagens, 25 no total, foram preenchidos pelas nossas primeiras escolhas. O physique du role é super importante, mas não é tudo, veja o exemplo de Michelle Williams em Sete Dias com Marilyn. Ela não tem nada do físico de Marilyn Monroe e convence plenamente na tela. A química do par romântico é imprescindível, mas só vamos ver se funciona quando estiverem em cena. Acho que o que mais conta é o talento de cada um, a vontade, o empenho e a disponibilidade para fazer a novela. 
  

Marilu Bueno vai dar continuidade à Olívia, a fiel governanta
de Charlô, na versão de 1983.


5.  Quais os nomes confirmados para o elenco da novela até o momento?

Otávio - Tony Ramos; Charlô - Irene Ravache; Felipe - Edson Celulari; Juliana - Mariana Ximenez;  Analu - Raquel Bertami; Nando - Reynaldo Gianecchini; Olivia - Marilu Bueno; Vânia - Luana Piovani; Ulisses - Eriberto Leão; Afrodite - Mariana Armellini; Ronaldo – Jesus Luz; Dalete - Carol Rebelo; Roberta - Gloria Pires; Kiko - Johny Massaro; Fabio - Paulo Rocha; Manoela - Guilhermina Guinle; - Nieta - Drica Moraes; Dinorah - Fernando Eiras; Carolina - Bianca Bin; Nene Stallone - Daniel Boaventura; Veruska - Mayana Moura; Zenon - Tiago Rodrigues; Semíramis - Debora Olivieri; Montanha - Marcelo Barros.  


Eriberto Leão (Ulisses), Bianca Bin (Carolina), Drica Moraes (Nieta) e Marianna Armellini (Frô)
estarão no remake de Guerra dos Sexos.


***


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Elenco estelar numa farsa tupiniquim-hollywoodiana

Adaptado por Daniel Pepe a partir de texto original do mesmo autor em parceria com Duh Secco [1]



Às 19h de 06 de junho de 1983 estreava “Guerra dos Sexos”, um marco da teledramaturgia que Sílvio de Abreu escreveu com a colaboração de Carlos Lombardi, contando com a direção de Jorge Fernando e Guel Arraes.

É importante ressaltar que a novela é esse marco graças também a duas notórias novelas que vieram antes no mesmo horário: “Feijão Maravilha” (Bráulio Pedroso – 1979) e “Jogo da Vida” (Sílvio de Abreu – 1981/82). Nilson Xavier, autor do site “Teledramaturgia”, escreveu para o blog Zappiando: “Feijão Maravilha” não podia ser considerada uma novela comum, era uma anti-novela. Humor pastelão e situações surreais permeavam a trama. E tudo isso antes de Silvio de Abreu revolucionar o horário das sete com Guerra dos Sexos. [2]

Em “Jogo da Vida”, as situações surreais começaram a ter grande importância depois do drama, que permeava a sinopse da novela, ter conquistado o telespectador. Portanto, em 1983 o público já estava preparado para uma história que partia dessas situações nonsense atípicas logo no primeiro capítulo.

O autor resumia toda a história em apenas uma linha em entrevista ao Jornal do Brasil, concedida em maio de 1983: “Guerra dos Sexos" é, de certa forma, a briga entre machistas e feministas, mostrando o quanto o radicalismo, neste caso, é desnecessário e ineficaz. Mas a novela não se resumia a isso!

As novidades de Guerra dos Sexos começavam pelo quarteto estelar de protagonistas: o casal maior do teatro que se encontrava pela primeira vez – Fernanda Montenegro e Paulo Autran – e o casal maior da TV, que já havia namorado em inúmeras produções, desta vez aparecia em pé de guerra – Tarcísio Meira e Glória Menezes.

A trama teve do início ao fim uma estrutura rígida da narrativa, amarrada na ideia inicial de Sílvio de Abreu - mencionada acima -, não tendo se perdido praticamente em nenhum momento. Pelo contrário. Na altura da metade da novela, o protagonista Otávio (Paulo Autran) teve problemas de saúde e precisou se afastar por dois meses. E nem por isso o autor deixou a peteca cair. Criou o entrecho do desaparecimento do personagem, que mesmo ausente se fazia presente para atormentar a prima Charlô (Fernanda Montenegro). Um desses artifícios foi o de mandar três mulheres, cada uma a seu tempo, para instigar a curiosidade da prima e da criada Olívia (Marilu Bueno) sobre ele ter outras relações e sobre o que fazia quando pintava o bigode de preto e saía com o fiel e companheiro motorista desajeitado Nando (Mário Gomes). Elas deram vida às chamadas “mulheres do bigode preto”, em participações super especiais de Renata Sorrah, Suely Franco e Regina Duarte.

Participações especiais não faltaram em “Guerra dos Sexos”. Outras bem marcantes foram as ex-mulheres de Felipe (Tarcísio Meira), interpretadas por Eva Wilma, Aracy Balabanian, Suzana Vieira, Irene Ravache e Renée de Vielmond, que apareceram juntas para atormentar o ex-marido.

Se a estrutura da novela era linear, ao mesmo tempo conseguia ser anárquica e debochada, cheia de cenas nonsense, de acontecimentos surreais que partiam de algum entrecho importante no desenrolar da história. Como na situação em que Charlô, guiando uma moto, cai do “Minhocão” depois de uma perseguição atrás de Otávio e de Nando, numa das tentativas de desvendar o “segredo do bigode preto”. No hospital, convalescendo, ela canta para os outros doentes tal como Susan Hayward em “Meu Coração Canta”. E logo em seguida, se finge de moribunda para Otávio, cena inspirada em “A Dama das Camélias”.

Essas foram uma das muitas referências a Hollywood. Talvez a maior citação tenha sido a festa em que Charlô deu em homenagem à amiga Roberta Leone (Glória Menezes), na qual os convidados deveriam ir fantasiados de atores hollywoodianos. Como sempre, Charlô surpreendeu e foi vestida de Theda Bara, atriz polêmica para a sua época. Otávio apareceu de Rodolfo Valentino, maior galã do cinema mudo. Os demais personagens ainda homenagearam Doris Day, Rock Hudson, Rita Hayworth, Jean Harlow, Elizabeth Taylor, Elvis Presley, e “O Gordo e o Magro”.

Sílvio de Abreu chegou a solicitar, inclusive, uma trilha sonora internacional composta somente de temas do cinema americano, já que vários deles pontuaram inúmeras cenas da novela. Só que a essa altura, as músicas que compunham a trilha internacional da trama já estavam selecionadas. Porém, não foi a discordância com relação à trilha sonora que tirou o brilho de “Guerra dos Sexos”. A novela tinha em seu elenco, alguns dos maiores nomes da teledramaturgia.

Além do quarteto
principal, outros atores davam à história uma qualidade diferenciada. Vale destacar aqui a grande e saudosa Yara Amaral, que interpretou magistralmente a paulistana de ascendência italiana do bairro da Mooca, que tinha como qualidades ser fofoqueira, encrenqueira, ignorante e preconceituosa, sem com isso deixar de ter um grande carisma e ser bastante querida como muitas mulheres reais que existiam no bairro e que continuam lá até hoje. Não bastasse tudo isso, Nieta era noveleira! Característica perfeita para segurar de vez o telespectador.

Com a doença de Paulo Autran, a espiã de Otávio, Verusca, divertidamente feita por Sônia Clara, ganhou um novo parceiro de cena: Nenê Gomalina, papel que caiu como uma luva para Hélio Souto. Os dois acabaram sendo responsáveis por momentos hilários da trama.

Outro destaque foi Maria Zilda, representante da mulher independente financeira e emocionalmente que morava sozinha e não tinha planos de se casar nem de ter filhos. Apenas curtia a vida e as paixões sem compromisso. Por outro lado, Leina Krespi mudava o tom e vivia uma tia solteira, dona Semíramis, às voltas com sua sobrinha, Frô, a feiosa que se julgava deslumbrante, numa criação perfeita de Cristina Pereira. Quem também mudava de ares era Helena Ramos, musa da pornochanchada, que encarou o desafio de viver a boa e recatada Lucilene. Já Lucélia Santos era Carolina, a mocinha com cara de anjo que na verdade era um diabinho que enganava e prejudicava quem quer que fosse para atingir seus objetivos, entre eles ser a mulher de Felipe.

A parte romântica da novela coube sobretudo ao quarteto Fábio (Herson Capri), Juliana (Maitê Proença), Nando e Roberta, entrando mais tarde Felipe e Carolina nesse meio. O desfecho dessas tramas amorosas fugiu do lugar-comum das tramas anteriores.

Fechavam o elenco ainda Ary Fontoura, Edson Celulari, José Mayer, Diogo Vilela, Ângela Figueiredo, Terezinha Sodré, Paulo César Grande, entre outros. Em depoimento ao site Memória Globo, Fernanda Montenegro diz que "Guerra dos Sexos" foi uma linguagem ousada. Mas ousamos na medida certa. Foi uma loucura certa. Loucura ou não, foi a novela certa, na hora certa. Quando o gênero dava sinais de cansaço, “Guerra dos Sexos” sacudiu o cenário da teledramaturgia, deixando sua marca na história da televisão brasileira. E uma marca maior ainda na lembrança de todos os que puderam conferir esse grande espetáculo.

Releia também o relato sobre a novela do nosso colunista Ivan Gomes para o Blog "Prefiro Melão - Novelas e Cia."


[1] Revista Memória da TV - edição 1

[2] Blog Zappiando - Nilson Comenta "Feijão Maravilha"

Imagens: Blog Memória da TV, Comunidade Memória da TV no Orkut, Ucha Projetos Editorias photostream



segunda-feira, 2 de maio de 2011



A ARTE QUE VEM DA ALMA


por Ivan Gomes





Escrevo esse texto com a voz de Yara Amaral representando Áurea na novela Dancin’ Days, através da maravilha que é o Youtube. Paro em alguns momentos de escrever para, além de ouvir sua voz, poder ver seu rosto, sua intensidade, sua entrega.

O talento de Yara Amaral me arrebatou em 1986 na minissérie Anos Dourados, de Gilberto Braga. Ela vivia Dona Celeste, mãe da protagonista Lourdinha (Malu Mader). Eu tinha medo daquela mãe, medo daquela hipocrisia, medo dos medos dela, mas ficava hipnotizado diante de tanta força dramática. Um bom ator consegue tirar leite de pedra de textos medíocres, mas diante de textos primorosos (como foi o de Anos Dourados), uma atriz do porte de Yara faz misérias, deita e rola, se transforma em outras, se multiplica.

Yara não representava apenas quando estava com a deixa, ela sentia também cada palavra vinda dos atores e a
trizes que contracenavam com ela. Cada palavra uma reação, um mexer de sobrancelha, um olhar na medida certa, na vivência do que lhe foi proposto, sentindo, de acordo com seu personagem, o que é dito pelos parceiros de cena.

Não era atriz de um tipo só. Em 83 já tinha dado vida a Nieta - de Guer-ra dos Sexos -, uma personagem de tintas cômicas mais carregadas, fortes, no limite da caricatura. Como ri com ela! Como ela poderia estar aqui do lado! Como ela poderia ser a minha vizinha! Como ela poderia vir bater a porta da minha casa e pedir uma xícara de açúcar para seus bolinhos de chuva! Porque mesmo com toda a comédia da novela, Yara criou uma verdade, uma vida, absorveu do texto tudo o que podia, para fazer daquele barro, daquela costela, sua Nieta.

Em 88 mais uma densidade: a Dona Joana de Fera Radical. Novamente uma mãe. Essa, temerosa que o mundo que tinha criado desabasse, desconfiada com razão da intrusa que se metia em sua família. Não era diabólica. Era mais perigosa. Não ria de suas maldades. Os tons eram mais pra baixo, mais desafiadores pra seus oponentes. Coisas de grande atriz.

Yara se foi, em circunstancias dramáticas: no naufrágio do Bateau Mouche. Mas na minha vida ela continua como uma das maiores atrizes desse país, como um dos maiores talentos que pude ver na televisão. Sinto falta de seu talento e de sua força interpretativa. A ela e nessa singela homenagem, deixo o meu aplauso; e a vocês, que leram essa postagem, a cena que estava vendo, ouvindo e saboreando, saudoso e orgulhoso de aplaudir tão precioso talento.


quarta-feira, 27 de abril de 2011



Ainda vale a guerra dos sexos?

por Daniel Pepe



Com a confirmação, na última semana, pelo autor Sílvio de Abreu, de que o remake de Guerra dos Sexos deve sair no segundo semestre de 2012, volta à discussão o fato de o tema estar ou não ultrapassado. Na exibição do original, em 1983, a mulher ainda lutava duramente para mostrar que poderia ter o mesmo valor que o homem no mercado de trabalho. Essa luta ainda existe, mas é bem mais branda e pontual. De fato, ainda se encontram profissões onde não se espera ver mulheres exercendo, assim como aquelas onde são improváveis de ver homens em ação. Mas isso não daria um plot tão interessante para uma novela como deu naquela época.

O caminho mais fácil seria manter a sinopse original, onde o mote era uma disputa – ou aposta, como era mencionada – declarada em cartório, de que as mulheres, no comando da cadeia de lojas herdada pelos primos Charlô (Fernanda Montenegro) e Otávio (Paulo Autran), deveriam, durante certo período, provar que seriam capazes de elevar os lucros das vendas.

Mesmo se a história se mantiver dessa forma, será muito cômico e divertido ver os até agora escalados Irene Ravache e Tony Ramos nos papéis principais. A novela não deixará de fazer sucesso por causa disso. Mas seria muito mais interessante se o autor e seus colaboradores buscassem outro foco, existente nos dias de hoje e que gere uma disputa, uma rixa que coloque os sexos em lados opostos. É algo para observar como agem as pessoas atualmente em relação ao sexo oposto e encontrar pontos de divergência que sejam suficientes para que uma nova farsa seja criada. Daria mais trabalho, mas acho que justificaria melhor a releitura da novela.

Outros núcleos hoje destoariam muito, como o das feministas Vânia (Maria Zilda) e Leda (Terezinha Sodré). Vânia morava sozinha e não procurava por compromissos sérios. Esses dois fatos hoje são vistos como normais, não seriam contraponto algum ao machismo. Leda queria impor autoridade, dando a si mesma um ar mais austero para, na intimidade, deixar aflorar sua verdadeira natureza, de menina frágil e delicada. Isso hoje poderia mais ser visto como um distúrbio de personalidade do que a impossibilidade de se mostrar como realmente é para não perder o respeito. De uma forma geral, o termo feminista já está bem démodé.

O autor disse que alguns núcleos serão mudados; eu aposto nesses acima como os primeiros. Disse também que outros serão acrescentados. Torçamos para que não sejam cometidos exageros. A novela tinha uns trinta personagens fixos, que foram suficientes para conduzir a história durante sete meses. Considerando aí alguns poucos minutos de arte que a novela das sete tenha ganhado daquela época até hoje, talvez uns cinco ou seis personagens a mais – de preferência ligados aos originais – deem conta do recado.

Dessa forma, acho que, enquanto houver homens e mulheres no mundo, e este estiver ainda em evolução, sempre haverá espaço para uma guerra dos sexos. A diferença é que, conforme as épocas, essa guerra pode ser motivada por razões diferentes. Mas o ridículo da situação, como bem defendeu Sílvio em 1983, seria o mesmo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

TV In e TV Out
por Daniel Pepe


A atuação de Ana Beatriz Nogueira em Insensato Coração. A atriz, que já vinha fazendo muito bem o papel de Clarice, a mulher do banqueiro Cortez (Herson Capri), se superou depois que a sua personagem recebeu um vídeo onde o marido e sua amante Natalie (Deborah Secco) trocam juras de amor. Se antes ela suportava as traições de Cortez, demonstrando resignação e até justificando uma certa compreensão, sem nunca perder a classe, agora não mais admitiu ser passada para trás. Toda a transição da mulher resignada para a vingativa foi feita de forma bem convincente e coerente pela atriz.




Novas notas sobre o remake de Guerra dos Sexos, para o segundo semestre de 2012. O ponto negativo não se refere à história ganhar uma releitura para os dias atuais, mas ao fato de que, desde 2006, essa notícia vai e volta na mídia. Confirmam para depois cancelarem, inclusive com argumentos conflitantes sobre o motivo de seu cancelamento. Falta de planejamento da emissora ou colunistas que soltam notas sem realmente checar a veracidade dos fatos?