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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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sábado, 6 de abril de 2013


Especial
Novelas que foram sem nunca terem sido
Parte II




Continuamos com nosso especial sobre novelas que sequer saíram do papel. Ou se saíram, não avançaram na produção. Hoje, SBT e Record.

por Duh Secco


SBT

Ainda que esteja longe de ter a tradição dramatúrgica da Globo, o SBT sempre primou pela organização de seus trabalhos. Vez ou outra, no entanto, os planos dão errado e a emissora acaba sendo obrigada a deixar certos textos de lado e cancelar produções, como o remake de A Fábrica, que iria reativar o núcleo de dramaturgia da casa, em 1993.


Caubói (1990)
Argumento de Bráulio Pedroso
De Denise Bandeira, Joaquim Assis e José Joffly.

Autor da inovadora Beto Rockfeller, Bráulio Pedroso pensava em produzir uma nova versão da trama para o SBT, casa que o contratou pouco tempo antes de seu falecimento. Antes de trazer o bicão de volta à telinha, no entanto, Pedroso desenvolveu o argumento de Caubói, sob encomenda de Walter Avancini, então diretor de dramaturgia, para aquele que seria o novo horário de novelas do SBT: 19h. A novela traria o universo do rural chique paulista, através de seu protagonista, um lavrador que se tornara fazendeiro e criador de cavalos. O aclamado cineasta Roberto Farias seria o responsável pela direção do projeto, que não foi adiante.



Mariana: A Menina de Ouro (1993)
De Flávio de Souza

Criador dos sucessos Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum, ambos exibidos pela TV Cultura, Flávio de Souza assinou com o SBT em 1993 para produzir uma trama infanto-juvenil. Mariana, a Menina de Ouro foi concebida como novela, virou série, e terminou como uma espécie de novela como formato de seriado, a ser exibida às 20h30. A pequena Mariana seria o centro da história: uma menina que passa o dia com a empregada (Denise Fraga) enquanto os pais (Mira Haar, uma jornalista, e José Rubens Chachá, agente de turismo) brigam por questões financeiras. Ainda no elenco Etty Fraser (como a avó), Iara Jamra (a tia) e Ary França (o motorista de táxi, namorado da empregada). Marisa Orth, Lilia Cabral, Nuno Leal Maia, Angelina Muniz e Lucélia Santos também estiveram cotados para o elenco, enquanto a direção ficaria a cargo de Fernando Meirelles. Infelizmente, este projeto não foi em frente, contrariando as expectativas do público que sempre viu no SBT os melhores investimentos em programação infantil da TV brasileira.


Asfalto Selvagem
Baseada na obra de Nelson Rodrigues

Antes de iniciar a produção de Mariana, a Menina de Ouro, o SBT ensaiou uma parceria com Daniel Filho, que produziria uma novela por ano para a emissora, em um período de três anos. A primeira trama desta parceria seria Asfalto Selvagem, baseada na obra de Nelson Rodrigues. Sabe-se lá por quais motivos a união de Daniel e Silvio Santos não aconteceu. Asfalto Selvagem viraria minissérie na Globo: Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados.


A Pantera (1996)
De Vicente Sesso

Com Éramos Seis, o SBT viveu seu melhor momento na dramaturgia. Entretanto, suas substitutas não obtiveram o mesmo êxito e Silvio Santos passou a se desinteressar pelo núcleo. Foi por isso que em 1996, tentando evitar um estouro no orçamento, a primeira atração a ser rifada da grade por Silvio foi a novela A Pantera. A trama de Vicente Sesso substituiria Razão de Viver, em novembro daquele ano. Com locações em Roraima e uma cuidadosa reprodução dos anos 50 e 60, focada nos bailes e nos grandes cassinos, a novela custaria em torno de R$ 80 mil por capítulo. Marcos Schechtmann, diretor de Salve Jorge, responderia pela produção, protagonizada por Suzy Rêgo, a cabocla Cristina. Também cotados para A Pantera estavam Paulo Autran e Tônia Carrero. Contracenar com esses dois mitos animou Marília Pêra, que daria vida à vilã Silvana, e também ganharia um programa de variedades no SBT. Com o adiamento da novela, Marília passou um ano encostada, já que não aceitou participar de Pérola Negra, a produção, mais barata, na qual a emissora decidiu investir.


Segredo (1998)
De Walcyr Carrasco

Walcyr Carrasco era contratado do SBT quando assinou, sob o pseudônimo de Adamo Angel, o roteiro de Xica da Silva, na Manchete. O sucesso da produção animou Silvio Santos, que encomendou duas novelas a Walcyr. A primeira, Fascinação, exibida em 1998 com relativo sucesso. E a segunda, Segredo, substituiria a primeira. Contando com a colaboração de Mário Teixeira, Carrasco escreveu os 154 capítulos da trama de João Paulo, um playboy que, ameaçado pelo avô de ser deserdado, acaba tendo que se casar. Sua amante, uma ex-modelo casada, o ajuda a encontrar a moça ideal, optando por uma menina humilde e interiorana. João Paulo se casa com a jovem, por contrato, mas com o tempo tem seu gélido coração tocado pela agora esposa. A novela também teria um núcleo infantil e outro focado na dona de uma pensão. Eis que no meio do caminho, o autor se transferiu para a Globo, deixando a novela toda pronta nas mãos do SBT. Como Carrasco não poderia acompanhar a produção, caso ela saísse do papel, decidiu transferir a ação da trama dos anos 50 para os dias atuais, o que facilitaria a produção. Mas, provavelmente devido ao ingresso de Walcyr na Globo, o SBT engavetou a novela.


A Outra (2004)
Argumento de Liliana Abud
De Ecila Pedroso

Para substituir o sucesso Canavial de Paixões, Silvio Santos anunciou a adaptação de Os Ricos Também Choram, novela que iniciou a exibição de mexicanas no Brasil. Problemas com os direitos autorais da obra acabaram impossibilitando a produção e o departamento de dramaturgia da casa foi obrigado a recorrer ao texto de A Outra. A história girava em torno de Carolina e Clarice (que seriam interpretadas por Mel Lisboa), mulheres idênticas que nunca se viram. A primeira mantinha um romance com o médico Álvaro, mas não conseguiu se casar com ele porque sua mãe autoritária a impedia. A vida das sósias se cruza quando Carolina desaparece. Após uma passagem de tempo, o médico pensa que a paixão de sua vida está morta e conhece Clarice. Impressionado com a semelhança física entre as duas, ele acaba se envolvendo com a outra, jovem ambiciosa, filha de um alcoólatra. Cláudio Heinrich fora sondado para viver Álvaro, mas renovou com a Globo, na época, para continuar apresentando o Globo Ecologia. Fez bem, já que pouco tempo depois, o SBT suspenderia a produção da novela, em virtude do alto custo de produção. Mel voltaria para a Globo no mesmo ano, para atuar em Como Uma Onda. O SBT acabaria exibindo A Outra original, até retomar as atividades de seu núcleo de dramaturgia, em maio do mesmo ano, com Seus Olhos.

***

Record

A Record, em sua pretensão de alcançar a líder Globo, sempre tentou conduzir seu núcleo de dramaturgia da melhor forma possível. Entretanto, o amadorismo ainda reinante no complexo de estúdios Recnov leva a constantes mudanças nas novelas a serem produzidas, chegando, às vezes, a cancelar tramas. Isso vem desde o período em que a dramaturgia da emissora ainda não era tão forte quanto parece ser agora.


Cafezais (2001)
De Vivian de Oliveira

Não é de hoje que a Record tenta, sem muito sucesso, implantar um segundo horário de novelas. Em 2000, enquanto exibia Marcas da Paixão, a emissora cogitou a produção de uma novela de época. Cafezais, escrita por Vivian de Oliveira (autora de Rei Davi e José do Egito), retrataria o ciclo do café em São Paulo no início do século XX. A trama deveria estrear em abril de 2001, época em que a Record desejava ter uma novela às 20h e outra às 21h. Ficou na intenção...



Felizes Para Sempre (2001)

Mesmo depois de desistir de Cafezais, a Record ainda almejava lançar um segundo horário de novelas. Ao invés das 21h, no entanto, resolveram produzir uma trama a ser exibida às 19h. Assim, a emissora adotaria o esquema que tanto sucesso faz na Globo: novela – telejornal – novela. O título escolhido para inaugurar o horário foi Felizes Para Sempre, trama ambientada em Fortaleza, sobre o dono de um parque temático que contrata um dublê para representá-lo em compromissos públicos e encontrar uma mulher para ele. É claro que os dois acabavam se apaixonando pela escolhida. A novela das sete seria escrita por um autor que já estivera entre os funcionários da Globo, e não fora divulgado pela Record, estrearia entre 20 de março e a primeira semana de abril de 2001, indo ao ar das 18h50 às 19h30. Logo após, o Jornal da Record e em seguida, a trama que substituiria Vidas Cruzadas. Cafezais figurava como uma das possíveis candidatas à vaga.


Norte Das Águas (2001)
Baseada na obra de José Sarney

Nem Cafezais, nem Felizes Para Sempre. Ainda em 2001, para substituir a problemática Roda da Vida, a Record decidiu recorrer a outro título e foi buscar inspiração em um livro de contos do senador José Sarney. Norte das Águas seria a obra adaptada para o horário das 20h15, caso a emissora não se encontrasse em dificuldades para encontrar o autor desta adaptação. As gravações seriam realizadas no Maranhão, com orçamento em torno de R$ 10 milhões, buscando realizar algo parecido ao feito pela Manchete com Pantanal: explorar o Brasil que os brasileiros desconhecem. Para arcar com um mega projeto como este, a Record ensaiou uma parceria com a produtora Delta, que incluiria a co-produção de seis novelas, em três anos de contrato. Mesmo com aparentemente tudo a favor, a Record não levou adiante os seus planos e Norte das Águas ficou pelo caminho.


Silêncio Da Mata (2001)
De Solange Castro Neves

Sem a parceria que levaria Norte das Águas adiante, a Record buscou uma solução caseira para substituir Roda da Vida. Solange Castro Neves deixou então o texto de sua novela nas mãos dos colaboradores, Enéas Carlos e Maria Duboc. A mudança no comando da trama levou à queda nos índices, levando a Record a apressar o término da mesma. Neste meio tempo, Solange apresentou a sinopse de Silêncio da Mata, trama que seria ambientada na Mata Atlântica ou em alguma cidade do Amazonas. Disputando a vaga com Silêncio da Mata, uma novela de Marcos Lazzarini, que havia escrito Vidas Cruzadas, no ano anterior. Mas nem a sinopse de Solange, nem a de Marcos, foram produzidas, e o núcleo de dramaturgia da Record acabou desativado.


Machos (2008)
De Lauro César Muniz

Uma brasileira se envolve acidentalmente com o grupo terrorista Al Qaeda, mentor dos atentados de 11 de setembro. Este seria o fio condutor da novela que Lauro César Muniz apresentou a Record para substituir Caminhos do Coração. A cúpula da emissora, no entanto, avaliou que a trama se enquadraria melhor em uma minissérie, e entregou a Lauro a adaptação de Machos, novela chilena exibida pela Sony na América Latina. A novela girava em torno de Ângelo, um homem capaz de tudo para fazer de seus sete filhos verdadeiros machos. Entretanto, todos os rebentos tentavam de alguma forma fugir ao controle do patriarca. E nessa fuga, os machos cruzariam com mulheres independentes em busca de afirmação e enfrentando a crise de meia-idade. Tais mulheres saíram de uma sinopse de Lauro, As Lobas. Entre elas estaria Laura Orlin, mulher de 45 anos, presa a um casamento com um homem que dissimula seu machismo (ao contrário dos “machos”). A partir da descoberta da traição, Laura traçaria um novo rumo para sua vida. No elenco de Machos, estariam Paloma Duarte e Marcelo Serrado. Problemas com a Sony e o sucesso dos mutantes de Caminhos do Coração acabaram protelando Machos. De tal maneira, que a novela acabou esquecida e Lauro partiu para o desenvolvimento da sinopse de Poder Paralelo.


Corpos Partidos (2008)
De Ana Maria Moretzsohn

A estadia de Ana Maria Moretzsohn na Record não se resumiria a uma única novela, caso a emissora tivesse desistido a tempo da saga Os Mutantes: Caminhos do Coração e apostado em Corpos Partidos, trama sobre roubo e tráfico de órgãos, desenvolvida pela autora de Luz do Sol. Gustavo Reiz, que assina a próxima novela da emissora, Dona Xepa, seria um dos colaboradores. E Petrônio Gontijo, Paloma Duarte e Marcelo Serrado encabeçariam o elenco.


Bem Me Quer (2009)
De Margareth Boury

Emplacar uma sinopse nem sempre é fácil. A emissora solicita, os autores trabalham, mas o texto acaba descartado por diversos motivos, alheios à vontade daqueles que penaram para desenvolver argumentos e situações capazes de sustentar uma infinidade de capítulos, meses a fio. No caso de Bem Me Quer, de Margareth Boury, o acordo fechado pela Record com a Televisa, para a produção de textos mexicanos, inviabilizou sua produção. A história do rapaz que trabalhava no ramo hoteleiro, obrigado a recomeçar sua vida após anos na prisão, chegou a ser aprovada pela Record, mas caiu diante da possibilidade de se adaptar novelas mexicanas. Nesta mesma época, ventilou-se a possibilidade da Record produzir Sambalelê, também de Margareth Boury. A trama seria uma espécie de Que Rei Sou Eu?, com a presença de esportes radicais adaptados ao século no qual o enredo se desenvolveria.


Vivendo O Amor (2010)
De Margareth Boury

O acordo com a Televisa não alterou só os rumos de produções já aprovadas pela Record, como Bem Me Quer. Alguns textos mexicanos também foram descartados pela emissora, como Un Gancho Al Corazón, história de uma boxeadora apaixonada por seu treinador, que seria adaptada por Margareth Boury. A trama foi preterida por Cuidado Con El Ángel, que atualmente pode ser vista no SBT. Aqui, o título foi alterado para Vivendo o Amor, após um concurso interno com funcionários da Recnov. Ivan Zettel fora escalado para a direção; Edwin Luisi, Cristina Mullins, Juliana Silveira, Lana Rodes e Cacau Mello estariam no elenco; Roger Gobeth viveria o mocinho, apaixonado por Maytê Piragibe que, grávida, foi obrigada a desistir do projeto. E a Record também abriu mão do projeto, mediante pressão da Televisa, que julgava o texto de Rebelde mais comercial. Assim, toda a produção, alguns nomes do elenco e a cidade cenográfica construída para Vivendo o Amor foram reaproveitados na trama que os mexicanos escolheram. Em entrevista ao nosso blog, Margareth Boury comentou tal mudança:

Cuidado com o Anjo (Vivendo o Amor) teve vinte capítulos escritos e quando eu ia fazer o vigésimo primeiro, recebi um telefonema do Hiran Silveira e tudo mudou. Na semana seguinte eu estava com o Ivan Zettel indo para o México ter reunião sobre Rebelde.

***

Próximo Capítulo: Band, Manchete e Tupi também suspenderam o desenvolvimento de suas novelas. Saiba quais, na 3ª parte do nosso especial.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012



E  S  P  E  C  I  A  L

MÁSCARAS


Parte I




O que leva uma pessoa a assumir uma outra identidade? 
Por quanto tempo é possível vestir uma máscara? 
Quais as consequências de ser quem você não é?

por Guilherme Staush


A mais recente superprodução da Rede Record estreia em abril, mas o blog Agora é Que São Eles sai na frente e adianta, com exclusividade, tudo para os nossos leitores sobre Máscaras, novela escrita por Lauro César Muniz e Renato Modesto, com colaboração de Mário Viana , Mariana Vielmond e João Gabriel Carneiro, e direção geral de Ignácio Coqueiro.

A novela teve seus primeiros capítulos gravados em um transatlântico de luxo, o Vision of the Seas, e, para evitar erros de continuidade, a emissora reproduz em seus estúdios, no Rio de Janeiro, cenários do navio para serem usados em possíveis cenas de flashback.  Máscaras traz vários personagens que "se escondem atrás de uma outra identidade", segundo o autor.

 A novela tem os ingredientes necessários para agradar todo o tipo de público. A trama vem recheada de muito suspense, ação, romance e humor. Tem como protagonista Otávio Benaro (Fernando Pavão), um rico proprietário rural do Mato Grosso do Sul, que se vê diante de uma tragédia familiar. Não suportando o peso do sequestro da mulher e do filho, entra em depressão e não vê mais condições de continuar vivendo. Ele encontra, por acaso, uma saída artificial, um suicídio virtual: renasce assumindo a identidade de um outro homem. Meses após o sequestro, o Dr. Décio (Patrônio Gontijo) recebe uma mensagem por email: "Sei tudo o que aconteceu a Maria e seu filho. Leve Otávio Benaro ao cruzeiro indicado abaixo e lá estarei para revelar tudo". Dr. Décio convence Otávio a fazer a viagem de navio, afirmando fazer parte de uma terapia. A partir daí, a busca de Otávio por informações a respeito do sequestro de sua mulher e filho se funde às histórias paralelas de outros personagens que também estão no navio, trazendo histórias de amor, aventuras e toques de humor.

Confira o elenco completo com respectivos personagens no final desta postagem.

Agradeço aos autores Lauro César Muniz e Renato Modesto, aos colaboradores João Gabriel Carneiro, Mariana Vielmond e Mário Viana e ao elenco da novela pela gentileza em colaborar neste especial. Me enviaram material, concederam entrevistas, e cumpriram o prazo solicitado. Vocês foram fantásticos!

O especial será dividido em três partes, e você, nosso leitor, começa a acompanhar agora. Embarque nessa viagem..


Vision of the Seas, o luxuoso navio onde foram gravadas cenas da novela.




ENTREVISTAS EXCLUSIVAS
 

LAURO CÉSAR MUNIZ   (autor)

 
1-  O título provisório “Navegantes” acabou cedendo lugar ao nome definitivo “Máscaras”, que parece estar fortemente ligado à troca de identidade do protagonista Otávio logo no início da trama. O título definitivo faz referência a outros personagens da novela também? O que o público pode esperar de sua mais nova novela?


Lauro César Muniz   O painel de personagens de Máscaras foi composto a partir do tema básico de “Máscaras”, ou seja, uma visão sobre homens e mulheres que se escondem atrás de outras identidades. O personagem masculino central, por exemplo, Otávio Benaro (Fernando Pavão), é levado a assumir a identidade de seu maior inimigo, assim como, seu inimigo acaba assumindo a identidade de Otávio. Uma dupla troca de identidades: o herói veste a máscara do vilão e o vilão veste a máscara do herói.  Maria (Miriam Freeland), mulher de Otávio, desaparece logo no início da história com seu filho ainda bebê. Com uma forte crise de DPP – depressão pós-parto Maria não consegue assumir a identidade tão consagrada de mãe. E torna-se um grande mistério ao longo de toda a trama. Uma personagem muito especial da história chega ao absurdo de trocar de nomes a todo momento, e então eu a codifiquei como Nameless (sem nome, em inglês). Até o momento em que ela é rebatizada e passa a agir com uma nova identidade, absolutamente inédita na sua vida. É assim que essa personagem tão “desfigurada” entra em contato com Otávio, que julga ser outra pessoa. Enfim, um jogo de espelhos bastante instigante. Outras personagens que participam da ação têm máscaras sociais mais identificadas: uma prostituta de luxo (Giselle Itiê) que esconde sua atividade ao tentar deixar de ser uma garota de programa, um empresário importante que mantém atividades escusas, ligado a um grupo norte-americano e que esconde seu nome junto ao seu grupo de ação, os “laranjas” desse empresário, os membros desse grupo de ação (gangue), um americano que vive no Brasil ligado a uma grande empresa americana, um rapaz que se envolve com muitas mulheres e cuja identidade e atividade se mantém secreta, para espanto das senhoras, e muitas e muitas outras personagens que aparentemente têm uma atividade e uma identidade normais, mas que revelarão ao longo da história, para surpresa dos telespectadores, como sendo pessoas de outra atividade.

Fernando Pavão vive o protagonista Otávio Benário, que se envolve
com a misteriosa Nameless (Paloma Duarte).
 
 
2-  Grande parte dos autores centraliza suas tramas em personagens femininas (Gilberto Braga criou Júlia Mattos, Eloá Pellegrini, Raquel Acioly, e até mesmo sua recente Insensato Coração teve como trama principal a vingança da enfermeira Norma; Manoel Carlos criou suas Helenas e fez delas as protagonistas de suas novelas; Aguinaldo Silva fez sucesso com Maria do Carmo e bebeu da mesma fonte para criar sua atual Griselda, e até mesmo a estreante Lícia Manzo fez com que as personagens femininas quase que dominassem totalmente sua  novela das seis). Diferente dos seus colegas, você parece apostar na força dos protagonistas masculinos (foi assim quando contou a trajetória de Antônio Maciel em Cidadão Brasileiro , a de Sassá Mutema em O Salvador da Pátria, e a de Renato Villar em Roda de Fogo). Entretanto, pela storyline da novela, que me foi gentilmente enviada, pude observar que, embora a história esteja centrada na tragédia que acontece na vida de Otávio (Fernando Pavão), há um grande número de atrizes no elenco, e, me parece que, temáticas mais tipicamente femininas serão abordadas (mulheres misteriosas e em busca de emoções e realizações sexuais), em oposição à “pesada” e “masculina” Poder Paralelo, sua novela anterior. Há uma tentativa de cativar mais o público feminino nesse aspecto?

Lauro César Muniz   Na década de 1970 fui bastante analisado pelos críticos da época (Artur da Távola, Helena Silveira) como um autor que pesquisava a alma feminina com personagens como Marina (René de Vielmond), Cândida (Suzana Vieira) de Escalada, ou as Carolinas (Renata Sorrah, Yara Cortes), Violeta (Araci Balabanian) de O Casarão, como as personagens Cynthia Levy (Sônia Braga) de Espelho Mágico. Mas sempre o protagonista que alinhavava todas as ações eram personagens masculinos. Mas as mulheres em geral eram mais determinadas e fortes. Depois fiz várias personagens femininas em novelas mais leves como a Francisca Moura Imperial (FMI – Eva Wilma) ou a Zazá (Fernanda Montenegro). Mas eram novelas leves de horários mais baixos. Em 1999 fiz a Chiquinha Gonzaga (Gabriela e Regina Duarte) mulher muito forte que participou de todos os movimentos reivindicatórios do século 19 e início do século 20, e em contraponto outras mulheres interessantes como  uma jornalista aprisionada pelos costumes da época e tantas outras personagens femininas fortes. Nesse século fiz novelas mais calcadas em ações de homens fortes, Cidadão Brasileiro, e principalmente Poder Paralelo. A geração de críticos, de hoje, me julga um autor preocupado com personagens masculinos. Por isso, ao fazer agora, Máscaras, abri um leque bastante especial de personagens femininas, retomando assim minha visão feminina dos anos de 1970, 80, 90... Verão em Máscaras mulheres muito interessantes: Nameless (Paloma Duarte), Manuela (Giselle Itiê), Valéria (Bete Coelho), Zezé (Bárbara Bruno), Flávia (Francisca Queiróz), Geraldine (Luiza Tomé) , Eneida (Flávia Monteiro), Nair (Eliete Cigarini) , Yara (Livia Rossy), Mirella (Luli Miller), que vão encantar e surpreender.

Giselle Itiê, Eliete Cigarini, Bárbara Bruno e Luiza Tomé
fazem parte do universo feminino de "Máscaras".


3-  Você já demonstrou por diversas vezes sua aversão aos mocinhos tradicionais e às tramas maniqueístas recorrentes em nossa teledramaturgia atual, inclusive discorreu sobre esse assunto em entrevista concedida ao nosso blog, no ano passado. Nesse sentido, podemos esperar que o protagonista Otávio seja um herói de caráter duvidoso, e que carregue esse mistério no decorrer da novela junto ao público? De que forma ele mostrará sua dubiedade?

Lauro César Muniz   Otávio não será um herói de caráter duvidoso. Otávio será um homem que viverá a biografia de outro homem muito diferente dele. A dubiedade desse personagem ficará muito clara porque ele tem dupla personalidade: a sua própria (sem máscara) e a do outro que veste sempre uma máscara social, ligada a um grupo de ação. Tudo para desvendar o paradeiro de sua mulher (e seu filho criança), cuja identidade ficará bastante confusa para ele. Nesse torvelinho de dúvidas, ele se apaixonará por Nameless (Paloma Duarte), uma mulher que não existe no plano oficial. Ele nunca saberá quem é ela, na realidade, porque até ela já perdeu de vista sua verdadeira identidade, sua biografia pessoal, sua origem.

Terei nessa jornada a companhia de vários autores: RENATO MODESTO (co-autor), MÁRIO VIANA, MARIANA VIELMOND, JOÃO GABRIEL CARNEIRO, e a pesquisa sempre eficiente de CAROL AGABITI.




RENATO MODESTO  (co-autor)

 
1-  Além de seu lado ator, você também é conhecido do grande público pelos seus trabalhos de co-autoria em novelas de Walther Negrão (Como uma Onda, Desejo Proibido e Araguaia). Qual é basicamente a diferença de trabalhar com Walther Negrão e Lauro César Muniz? O que os dois autores têm de semelhante e de diferente? 

Renato Modesto   Trabalhei durante muitos anos com o Walther Negrão na Rede Globo. Com o Lauro César Muniz, na Rede Record, estou trabalhando há poucos meses. Ainda é cedo, portanto, para fazer uma comparação bem fundamentada. Minha impressão inicial é a seguinte: o Negrão é um escritor que gosta de escrever “do fim para o começo”. Isso é: ele vai planejando com antecedência os pontos principais futuros da trama e vai encaminhando a estrutura da história na direção dessas balizas. O Lauro trabalha de forma mais aberta com relação ao encaminhamento futuro da trama. Ele gosta de ir criando a história a cada dia, com total liberdade para inventar novas situações. Tenho a impressão, portanto, de que o Negrão é um escritor mais racional e o Lauro um escritor mais intuitivo. Tirando essa diferença básica de temperamento e estilo, são dois grandes mestres da dramaturgia, altamente competentes e criativos, craques em adivinhar o que vai comover e cativar o público. É uma honra e uma alegria para mim poder trabalhar e aprender com autores desse gabarito. 



2-  Você acabou de sair de uma trama – Araguaia -  que narrava a luta de um homem contra uma maldição indígena, com cenários bucólicos e tramas leves, para encarar o desafio de co-autorar Lauro César Muniz em uma história cheia de mistérios, suspense e ação. De que forma você se preparou para escrever “Máscaras”? Qual o maior desafio?
Renato Modesto    De fato, existe uma grande diferença entre uma novela das 18 h. e uma novela das 22 h., em termos de estilo e temas. A novela das 18 h. deve ser leve e romântica, voltada para todas as faixas etárias. A das 22 h. deve ser mais realista e forte, voltada fundamentalmente para um público adulto. Meu maior desafio em “Máscaras” será realizar bem essa transição, afinando o tom do meu trabalho aos novos horário e público-alvo. Além da minha experiência pregressa como roteirista, creio que minha paixão por literatura policial, cinema e seriados americanos contam como preparação para vencer esse desafio.
 
3- Como está sendo feita a divisão de trabalho entre os autores e colaboradores da novela?
Renato Modesto    O Lauro tem o costume de centralizar o trabalho nos primeiros capítulos de suas novelas para que personagens, diálogos e tramas fiquem com o seu estilo, sua marca autoral. Em seguida, a divisão é feita da forma usual: autores definem o rumo das tramas, escrevem escaletas (resumos esquemáticos de cenas futuras) e diálogos. Colaboradores dão sugestões e escrevem diálogos. 

                       ***
 

ELENCO e personagens

Fernando Pavão (Otávio), Miriam Freeland (Maria), Petrônio Gontijo (Décio), Paloma Duarte (Nameless), Heitor Martinez (Martin), Íris Bruzzi (Olivia), Giselle Itiê (Manu), Nicola Siri (Caio), Julia Maggessi (Luciana), Flávia Monteiro (Eneida), Bete Coelho (Valéria), Emilio Dantas (Gino), Raul Gazolla (Vado), Lívia Rossy (Yara), Eliete Cigarini (Nair), Jean Fercondini (Marco Antonio), Louise D’Tuani (Letícia), Gabriela Durlo (Marina), Márcio Kieling (Gabriel), Luiza Curvo (Laís), Renato Liveira (Jairo), Francisca Queiroz (Flávia), Luiza Tomé (Geraldine), Jorge Pontual (Mário), Franciely Freduzeski (Claudia), Daniela Galli (Tonia), Karen Junqueira (Luma), Dado Dolabella (Edu), Cecil Thiré (Eduardo), Roberto Bomtempo (Zezé), Bárbara Bruno (Zezé), Jussara Freire (Elvira), Jonas Bloch (Big Blond), Giuseppe Oristânio (Pulga), Bemvindo Sequeira (Novais), Carlos Bonow (Fausto), Marcello Escorel (Toga), Perfeito Fortuna (Dr. Cotrim), Luli Miller (Mirella), Augusto Zacchi (Régis), Valquiria Ribeiro (Babá), Daniel Aguiar (Guto), Bruna Di Túlio (Sônia), Carol Cavalcanti (Vera),  Yana Sardenberg (Guta), Nanda Andrade (Soraia), Daniel Villas (Rubens), Rafael Queiróz (Fred),  José Carlos Pieri (Augusto).


Na segunda parte do especial, você vai conhecer os colaboradores de "Máscaras": João Gabriel Carneiro, Mário Viana e Mariana Vielmond.  Aguarde!


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

E S P E C I A L

60 ANOS DA TELENOVELA BRASILEIRA

com
AUTORES DE NOVELA .Parte I





Eles escrevem as novelas que vemos diariamente na TV, mas bem antes de virarem autores, foram (e ainda são) telespectadores, como nós. Quais são as lembranças, quais as novelas e cenas que marcaram os profissionais dessa nossa usina de sonhos?
.
O “Agora” resolveu unir grande parte deles, para juntos comemorarmos os 60 anos da telenovela brasileira. Independente das homenagens prestadas e dos homenageados, o importante é festejar a verdadeira estrela desse encontro: a própria telenovela.

Pedimos aos autores que relembrassem uma novela marcante desses 60 anos, que explicassem o motivo da escolha, e sugerissem uma atuação e uma cena inesquecível dessa novela. O resultado foi uma grande surpresa, carregada de grandes e emocionantes recordações.

Agradecemos a todos os autores que colaboraram com esses depoimentos exclusivos para o “Agora é Que São Eles”.



ALCIDES NOGUEIRA

Novela marcante/inesquecível: Escalada (1975), de Lauro César Muniz.

Razão da escolha: Lauro contou, com brilhantismo, a saga de Antônio Dias, costurando a trajetória desse personagem com a história do Brasil.

Uma atuação ou uma personagem marcante dessa novela: Tarcísio Meira, como Antônio Dias.

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: O reencontro de Antônio (já separado de Cândida) e Marina (Renee de Vielmond), o grande amor da vida dele.









MIGUEL PAIVA

Novela marcante/inesquecível: Terra Nostra (1999), de Benedito Ruy Barbosa.



Razão da escolha: Dramaturgia de primeira qualidade contando um momento histórico do país, São Paulo, a influência italiana... Por aí.

Uma atuação ou um personagem marcante dessa novela: O inesquecível Raul Cortez ao lado da Janete de Ângela Vieira.

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: Todas as cenas que reproduziam a São Paulo da época.





MARGARETH BOURY


Novela marcante/inesquecível: Roque Santeiro (1985).

Razão da escolha: Era divertido, tinha o toque de mestre do Dias Gomes (depois o de Aguinaldo Silva), um elenco maravilhoso e uma trama pra lá de boa!

Uma atuação ou uma personagem marcante dessa novela: Regina Duarte saindo do tipo namoradinha do Brasil e arrasando como a viúva Porcina.

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: A praça da cidade com o Zé das Medalhas (Armando Bógus).









LAURO CÉSAR MUNIZ


Novela marcante/inesquecível: Beto Rockefeller (1968), de Braulio Pedroso.



Razão da escolha: A novela é um marco de renovação da telenovela brasileira, apontando caminhos para o futuro. Deveríamos hoje voltar ao Beto para reinventar a novela que está tão desgastada.

Uma atuação ou uma personagem inesquecível dessa novela: O personagem do Luiz Gustavo, Beto Rockefeller, que trazia um delicioso e cômico bicão para o centro da trama, ignorando heróis e vilões estereotipados.

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: O bicão Beto cantando a personagem da Maria Della Costa.




RENATA DIAS GOMES


Novela marcante/inesquecível: Que Rei Sou Eu? (1989), de Cassiano Gabus Mendes.




Razão da escolha: Foi das novelas mais marcantes da minha infância. Colecionei o álbum de figurinhas, me vestia como os personagens. Adorava!

Uma atuação ou uma personagem marcante dessa novela: Aline (Giulia Gam) e Jean Pierre (Edson Celulari).

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: Não consigo lembrar de uma cena específica. Lembro de flashes do bobo da corte (Stênio Garcia), da rainha (Tereza Rachel) gritando "Ravengar!" e de Aline e Jean Pierre juntos. Eu era muito pequena e lembro mais da sensação de adorar e acompanhar a novela do que de cenas propriamente ditas.




MARIA ADELAIDE AMARAL


Novela marcante/inesquecível: Roda de Fogo (1986), de Lauro César Muniz e Marcílio Moraes.



Razão da escolha: Nem sempre é mencionada e foi uma das melhores novelas dos anos 80.

Uma atuação ou uma personagem inesquecível dessa novela: Tarcísio Meira deu um show!

Uma cena inesquecível dessa mesma novela: A morte do personagem de Tarcísio nos braços de Bruna Lombardi.


Aguardem a segunda parte deste especial, com novos depoimentos ...



VÍDEO ESPECIAL

O "Agora" produziu um vídeo especial com as homenagens dos autores e cenas das novelas relembradas. Confira!







SEGUNDA PARTE

CLIQUE AQUI  para ver a segunda parte do especial, com os depoimentos de Ana Maria Moretzsohn, Cristianne Fridman, Manoel Carlos, Marcilio Moraes, Ricardo Linhares, Sílvio de Abreu e Walcyr Carrasco.





quinta-feira, 7 de julho de 2011



LAURO CÉSAR MUNIZ






“Carinhoso”, “O Casarão”, “Roda de Fogo”, “O Salvador da Pátria” e “Cidadão Brasileiro” são alguns dos grandes sucessos do consagrado autor Lauro César Muniz, nome que não poderia faltar na nossa galeria de entrevistados.
A educação, a seriedade e o profissionalismo do escritor podem ser medidos até mesmo na realização de uma entrevista. O respeito e a dedicação que Lauro devotou ao nosso trabalho estão impressos em cada linha. Quem ler, verá ...



ENTREVISTA EXCLUSIVA



Guilherme Staush pergunta:
1. Enquanto que nos anos 70 os vilões eram odiados pelo público, que torcia desesperadamente pela felicidade da mocinha, na teledramaturgia atual há uma forte tendência dos telespectadores amarem os vilões e rejeitarem as protagonistas pelo fato de essas, ao longo da novela, cometerem atos injustificáveis, e não enxergarem aquilo que está óbvio aos olhos do grande público (a Marina, de “Insensato Coração”, atual novela das 9 da Globo, é um grande exemplo).
A personagem Odete Roitman, da novela “Vale Tudo” (Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Leonor Bassères), parece ser uma das grandes responsáveis por essa mudança de atitude do público. Na época da novela, em 1988, o público odiava a personagem. Com o passar do tempo, o telespectador passou a amar a Odete, concordando com a maioria das barbaridades que ela dizia.
Os vilões das suas novelas são sempre mais comedidos nesse aspecto, seja o Mário Liberato de “Roda de Fogo” (1986) ou o Atílio Salles Jordão, de “Cidadão Brasileiro” (2006).
Existe uma maneira de equilibrar mais essa dosagem que se imprime às características de mocinhos e vilões, sem que os primeiros pareçam ingênuos demais e os segundos simpáticos demais? Você acha interessante e saudável que o público se identifique tanto com os vilões nas novelas, e por vezes até torça por eles?

Vilões ou heróis são antes de tudo, personagens. E como tais devem ser humanos, contraditórios, viver com muita verdade suas ações e estarem justificados, de forma consistente, com relação às suas atitudes. Heróis ou heroínas protegidas pelos autores como exemplo de pureza ou virtude acabam se tornando sem verdade, daí certa aversão do público, nada ingênuo, às suas ações e falta de visão. Herói, em minha teledramaturgia, é sinônimo de mau personagem, sem vida real, sujeito a ingenuidades. Por isso tenho evitado heróis exemplares (agrh!), e nem desejo personagens centrais com essa carga de desequilíbrio. Vejam meus personagens centrais: Antônio Dias de “Escalada” não é um exemplo de virtude, é um lutador, ambicioso, quer vencer na vida e se alia por vezes a personagens sem escrúpulos. Tal é o caso de Fachini, seu patrão, dono de uma Construtora que ganha lícita ou ilicitamente concorrências para participar da construção de Brasília. O mesmo se dá com
Antônio Maciel, de “Cidadão Brasileiro”, Sassá Mutema de “O Salvador da Pátria”, que mente para ser considerado um herói, Tony Castellamare, que usa métodos da máfia para se infiltrar nela em “Poder Paralelo”, e as mulheres infiéis, como Marina em Escalada ou Luíza em Cidadão Brasileiro e Lina em “O Casarão”. Personagens reais, que vivem suas contradições entre a paixão e a obrigação a maridos que já não amam... Além dos personagens que você, Guilherme, citou: Mário Liberato de “Roda de Fogo” assim como Renato Villar, parceiro de Mário em uma organização criminosa, vilões reais, plenos de contradições. Um mais outro menos. E uma juíza, responsável por um processo em que Renato é réu, que acaba se apaixonando por ele. Busco não ser esquemático, criar fortes dados contraditórios em cada um dos personagens para que eles não fiquem simplificados, evitando assim o maniqueísmo fácil (o bem de um lado, o mal do outro – agrh!). Todos os personagens devem ser enriquecidos psicologicamente, tornando-se humanos, com seus defeitos e qualidades, evitando a simplificação que torna a história rasa.

Duh Secco pergunta:
2. Suas novelas para o horário nobre da Globo, nos anos 70, hoje são lembradas como clássicos, mas foram tachadas como obras de difícil aceitação pelo público e audiência mediana, na época de suas exibições originais. Sua primeira novela nesta nova fase da Record, "Cidadão Brasileiro", também foi considerada sofisticada demais para o padrão da emissora. Já na época de Poder Paralelo, você declarou que queria uma novela cheia de ação, dentro dos padrões da Record. Acredita que haja espaço, nos dias de hoje, para novelas como "O Casarão" e "Espelho Mágico"? O público tem preferência por tramas fáceis ou são as emissoras que impõem esse estilo? A dramaturgia retrocedeu?

Na década de 70 escrevi grandes sucessos de audiência como “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Carinhoso”, “Corrida do Ouro” (início apenas, conduzida depois apenas pelo Gilberto Braga)... A audiência alta me deixava seguro, fez crescer meu salário na TV Globo, mas não me deixava plenamente em paz comigo mesmo. Foi quando o Daniel Filho me convocou para escrever a novela das 8. Desenvolvi uma sinopse e levei para discutir com o Daniel. Ele ficou com aquela sinopse... Vou aqui transcrever o resto de um depoimento que dei a um livro biográfico sobre meu trabalho: “LCM solta o verbo” de Hersh Basbaum:

“... eu havia escrito um caso especial que teve uma grande repercussão, O crime do Zé Bigorna, com Lima Duarte. É importante este adendo. Havia sido proibido pela censura, ninguém se preocupou muito com isso, era já uma rotina.(...) Inconformado, conhecendo a força de minha peça, eu pedi licença à Globo para ir pessoalmente a Brasília, tentar liberar o programa. Fui recebido depois de horas na ante-sala, pelo Romero Lago, o chefe da censura naquele momento.(...) Consegui a liberação, o programa foi ao ar com enorme repercussão. Depois de tantas coisas proibidas, O crime do Zé Bigorna pareceu um oásis de tolerância, gerou certa perplexidade na imprensa de esquerda, que ainda resistia a ditadura.

Sobre o meu projeto para a nova novela das oito, Daniel disse: “não reconheço nessa sinopse o autor de O Crime do Zé Bigorna”. Fiquei admirado! “O que você escreveu aqui pode fazer sucesso, mas não tem a verdade do Zé Bigorna. Se você quiser, podemos fazer essa novela, mas acho que você pode me dar uma história mais real”. Aquilo foi uma porrada em meus brios e eu disse que precisava de mais uns dez dias para repensar a história. Poucos dias depois voltei com outro tema completamente diferente, que se chamava Escalada, baseada na história de meu pai. Uma história epidérmica, vivenciada, sofrida, visceral como O crime do Zé Bigorna.”

“Escalada” fez sucesso, deu boa audiência e então me animei, estimulado pelo Daniel, e criei “O Casarão” e “Espelho Mágico”, novelas de estruturas complexas, que desafiavam um pouco os padrões do horário. A audiência de “O Casarão” se manteve em nível bom e trazia à emissora prestígio e prêmios especiais. Me deram licença para apertar o torniquete e então fiz uma novela de estrutura bem mais complicada. Também houve honrarias, mas nesse caso a audiência se ressentiu. Não ao nível do absurdo, mas caiu da média geral do horário.

Não me importei, fiquei feliz eu, com o resultado e a qualidade. Claro que isso gerou também boas consequências, as novelas adquiriram um nível muito melhor. Era preciso coragem e os responsáveis na época correram o risco.

“Cidadão Brasileiro” não estava acima dos padrões do público. Era quase um remake de “Escalada”, com modificações de épocas e mais liberdade de expressão, sem a censura da década de 70. O problema maior era de produção e exibição sem ter um horário fixo. A TV Record estava ainda testando uma grade e não tinha as ótimas condições de produção que tem hoje no RecNov. O mesmo aconteceu com “Essas Mulheres”.

Quanto a “Poder Paralelo” foi um novela muito bem sucedida, com o padrão de audiência das novelas que estão no ar nos três últimos anos. É preciso considerar que a grande maioria dos capítulos dessa novela foram exibidos depois das 23 horas, cedendo o horário das 22 horas para o reality-show (A Fazenda).

As emissoras infelizmente ainda estão cativas de um conceito equivocado de que é preciso baixar o nível porque houve a ascensão de uma nova classe média que se supõe de baixo nível de exigência. Porém o que eu percebo nos muitos group-discussions que participei e em cartas e e-mails que recebo, é que público não é ignorante e, ao contrário, tem se queixado da baixa qualidade das novelas atuais. Dê qualidade ao público e ele reconhecerá. É preciso ter consciência também que está crescendo muito o público das emissoras por assinatura, a TV paga. Não apenas nas grandes capitais, mas em todo o país pela força das antenas parabólicas. As emissoras estão percebendo isso aos poucos... Todos estão buscando caminhos, inclusive fazendo uma revisão da extensão da telenovela. Novelas mais curtas trarão mais qualidade, por vários motivos. Abaixo esclareço isso melhor.

Guilherme Staush pergunta:
3- Você é mentor de uma campanha que visa a redução de capítulos das novelas com o objetivo de melhorar a qualidade das mesmas. Nós, da equipe do “Agora”, sondamos alguns de nossos autores entrevistados, e eles têm se mostrado simpáticos a causa. Poderia nos contar mais a respeito de sua campanha e como está seu desenvolvimento? Como seus colegas estão reagindo?

Tenho recebido a adesão de vários colegas autores, diretores, atores e atrizes. E até de agentes de publicidade. Sinto que o formato de novelas muito longas tem os dias contados. A tendência é que haja uma diminuição de capítulos nas novelas do futuro. O cinema e o teatro já entenderam que o público jovem de hoje quer dinamismo – o conceito básico produzido pela internet! Ora, a telenovela está na contramão: hoje se faz novelas com mais de 200 capítulos, que se arrastam, sofrendo de dinamismo. 200 capítulos exigem muitos núcleos. Uma história com muitos núcleos paralelos tende a ficar sem foco. A história central fica diluída, sem personagens centrais determinantes. Se a novela não tiver uma linha central bem nítida, o interesse cai, gerando as "barrigas" que afastam o público. A audiência oscila e só vai retomar os melhores índices ao caminhar para o final.

Peço licença para ser um pouco didático: o ponto de equilíbrio financeiro de uma novela, em geral, está em sua metade, ou seja, uma novela de 200 capítulos se paga por volta do capítulo 100. O investimento é feito prevendo-se 200 capítulos (pouco menos, pouco mais), com um enorme número de personagens (50, 60, às vezes muito mais), porque é necessário contar a história com muitas ramificações paralelas. Muitos personagens e histórias paralelas exigem muitos cenários, figurinos, várias frentes de gravações com muito diretores, etc...

Se reduzirmos o número de capítulos para 120 ou 140 capítulos, vamos fazer novelas com muito menos personagens, não mais do que 20, 25 atores! Consequentemente menos cenários, menos figurinos, menos locações de externas, menos núcleos paralelos, menos diretores. Na mesma proporção o ponto de equilíbrio financeiro da novela, seria em volta de 60, 70 capítulos. O lucro poderia ser o mesmo, com grandes vantagens: maior força na história central com núcleos paralelos servindo à história principal, o que resultaria uma unidade maior, menos dispersão. Uma história contada em quatro ou cinco meses, com a qualidade dos bons romances (best-sellers ou clássicos). Ganhará o público que hoje está enfadado.

Para as emissoras não haverá perda de lucro e para os atores, diretores e autores vai aumentar o número de produções por ano (dobraria), gerando mais espaços de atuação, enfim, mais empregos! Novos autores seriam revelados, dando lugar para os jovens! Os bons colaboradores teriam muito mais oportunidade de escrever suas próprias novelas. E os grandes atores que fugiram da telenovela, voltariam para interpretar papéis com duração de 5 meses apenas pois os personagens teriam mais coerência e organicidade.

Os autores voltariam a escrever mais, não dividiriam tanto a escrita com os colaboradores, o que hoje acontece, gerando um sistema de trabalho semelhante a uma linha de montagem, descaracterizando estilos, virando uma torre de babel. O "fordismo" da escrita.

Enfim, forma e conteúdo se inter-relacionam: forma mais dinâmica com certeza vai gerar melhor conteúdo! Estou nessa cruzada pelas novelas curtas, não em causa própria, porque vou parar de escrever antes que elas sejam rotina.

Fernando Russowsky pergunta:
4. Coube a você a tarefa de concluir "O Bofe", imprimindo à trama, na qual "o deboche era a estrutura" e as personagens "não se comportavam com sensatez, mas ao sabor da piada", uma "lógica encomendada", segundo palavras de Ismael Fernandes. A alguém com menos de 40 anos e que, portanto, não viu e nunca poderá ver a novela, já que é considerada perdida, como você explicaria a proposta? O que tinha de tão diferente? Por que é considerada tão absurda? Há alguma novela ou programa mais recente que sirva como base para comparação?

Bráulio Pedroso, o autor de “O Bofe”, foi dos autores mais criativos da telenovela. Fez “Beto Rockefeller”, “Superplá”, “O Cafona” antes de “O Bofe”. Assumi a novela para solucionar um problema de saúde do Bráulio, uma hepatite. Obviamente falei com ele na época antes de assumir a novela. Ele não tinha mesmo condições de escrever. Não tem sentido nenhum a frase “as personagens não se comportavam com sensatez, mas ao sabor da piada". Quem teria dito isso? Os personagens eram excêntricos, o que era muito interessante, gerando
situações farsescas, que lembravam o “teatro do absurdo”. Ziembinski fazia uma velha divertida. A história tinha um anarquismo hilariante. Não me encomendaram lógica nenhuma, isso é um equívoco do jornalismo da época. Ninguém me impôs nada! O que aconteceu é que imprimi meu estilo que era bem diferente do estilo do Bráulio. Coloquei a novela em um tom mais realista sem, no entanto, perder o universo cômico e mágico. O Bráulio deveria voltar e retomar a novela. Não voltou, até onde eu sei, por que estava realmente em situação física difícil. O José Wilker me disse, há poucos dias, que o Bráulio foi desligado da Globo na época. Eu não tive conhecimento disso, durante a novela. Depois eu soube que ele fora para a Tupi onde fez “A Volta de Beto Rockefeller”. Estive com ele várias vezes depois de O Bofe e nunca senti nele qualquer reação negativa. Fez depois várias novelas entre as quais eu destaco “O Rebu”, uma das melhores telenovelas de todos os tempos.


Daniel Pepe pergunta:
5. Você escreveu alguns trabalhos em parceria com outros autores, como Alcides Nogueira, Marcílio Moraes, Rosane Lima, Mário Prata, Gilberto Braga, entre outros. Destacaria um ou outro com quem teve/tem grande afinidade, deixando-lhe muito satisfeito com o resultado final? Como você costuma ponderar quando existem conflitos com outro autor ou colaborador quanto ao desenrolar da história ou de um personagem?

Tive problemas sérios com vários colaboradores que discordavam de meus pontos de vista sobre minha aversão ao maniqueísmo e às facilidades. Isso aconteceu recentemente com quase todos os autores com quem trabalhei em “Poder Paralelo”. Gostei muito de trabalhar com o Alcides Nogueira e o Mário Prata. Com o Marcílio Moraes fiz “Roda de Fogo”. Novela que nasceu com ele na Casa de Criação Janete Clair, onde tudo parecia correr muito bem.
Minha surpresa com o Marcílio apareceu bem depois quando fui supervisor dele em “Sonho Meu”, onde eu quis fazer uma alteração radical da história que era dele. A novela estava morna e havia uma rejeição do público com relação à história central em que a personagem era bígama! Recebemos a orientação para acabar com essa situação, eu concordei, mas o Marcílio ficou possesso, me agrediu de forma espantosa, alegando que tirei dele os méritos de Roda de Fogo! Fiquei espantado! Abaixo esclareço isso melhor.


Fernando Russowsky pergunta:
6- Ismael Fernandes afirma, em seu livro Memória da Telenovela Brasileira, que "Roda de Fogo" teve a sinopse "desenvolvida pela Casa de Criação Janete Clair, que a recheou de todos os entrechos capazes de seduzir os telespectadores". Entretanto, é notável na novela elementos constantes na sua obra, como o jogo do poder e a abordagem de questões políticas e históricas. Como se deu o processo de criação e condução de "Roda"? Onde, exatamente, terminou o trabalho da CCJC e começou o seu?

Em 1986, Roda de Fogo, ainda sem título, foi desenvolvida na Casa de Criação por vários autores em volta de uma grande mesa. Coube ao Marcílio redigir a sinopse e alguns capítulos iniciais. Eu não participei disso, nem conhecia a Casa. Moro em São Paulo. O Dias Gomes, que dirigia a Casa de Criação, assessorado pelo Ferreira Gullar, me convidou para escrever a novela, pois a direção da TV Globo exigia a participação de um Autor já experiente, assinando a novela. Sem a minha adesão ao projeto a novela não seria produzida. Eu já havia escrito minhas novelas principais. Topei trabalhar a sinopse inicial com o Marcílio, senti que tínhamos afinidades ideológicas e estéticas. A emissora aprovou com restrições à parte
romântica. Faltava alguma coisa para agitar as relações amorosas. O Daniel Filho, então, sugeriu a criação de uma personagem feminina que se transformou na base central da trama romântica! Uma personagem vivida pela Bruna Lombardi, uma juíza que se apaixonava por Renato Villar (Tarcísio Meira) que era réu de um processo que ela julgava. Há muito tempo o Daniel me falava dessa personagem sem que encontrássemos uma forma de colocá-la numa trama. Em Roda de Fogo isso era perfeito.
Minha relação com o Marcílio era ótima no decorrer da novela. Eu admirava seu talento e tinha certeza que surgia ali um novo autor. O problema surgiu depois, conforme já relatei acima: ele trancou longamente uma mágoa muito forte a meu respeito, que explodiu cinco anos depois quando fizemos “Sonho Meu”. Alegava que eu não divulgava seu nome como co-autor de Roda de Fogo! Ao contrário, nos créditos da novela eu tomei a iniciativa de colocar o nome dele antes do meu, por ter redigido e criado bastante a primeira sinopse. Está lá: “Escrito por MM e LCM”. Quanto à imprensa, era muito difícil o controle: o noticiário muitas vezes omitia o nome dele. Eu já havia escrito 12 novelas! Ele estava estreando. Ainda hoje muitas vezes eu leio que Insensato Coração é uma novela do Gilberto Braga, omitindo o nome do Ricardo Linhares. Que controle podemos ter sobre isso?


Duh Secco pergunta:
7- Qual a sua posição sobre a Classificação Indicativa? Acredita que a
mesma limita os intentos dos autores da mesma forma que a Censura
fazia nos anos 70/80?

Sou visceralmente contra qualquer tipo de censura. Os produtores e autores são pessoas responsáveis e sensatas. Temos discernimento do que se pode ou não expressar em função dos horários da grade de programação. Em caso de insatisfação a sociedade tem o caminho legal.

Naturalmente que uma Classificação Indicativa não tem o poder de destruição, veto e corte que a censura da ditadura exerceu durante anos, mas pode ser a semente para que, os guardiões da moral conservadora se arvorem a recriar o monstro que destruiu tantos trabalhos bons nos anos de chumbo.


Daniel Pepe pergunta:
8- Explicando para os nossos leitores, seu filho Ricardo faleceu prematuramente vítima da AIDS, depois de ter sido contaminado por uma seringa no hospital-dia que frequentava, onde ele fazia tratamento para os surtos que o afastavam temporariamente da realidade. O tema da AIDS foi abordado de passagem em "O Salvador da Pátria" e com mais profundidade em "Zazá". Como foi levar um acontecimento pessoal para a ficção? Você já criou algum personagem inspirado nos problemas psíquicos do Ricardo?

É muito difícil para mim criar qualquer personagem que tenha os problemas que levaram meu filho de mim. Convivi cinco anos com esse maldito vírus, maldita praga! Hoje, 19 anos depois, consigo falar sobre isso, mas na época da novela Zazá eu sentia necessidade de informar os telespectadores do perigo da contaminação. Então criei uma personagem feminina que fora infectada e tentei passar o máximo possível de informações ao grande público. A situação ficou meio postiça, a novela era uma comédia...


Guilherme Staush pergunta:
9- Sua novela “Os Gigantes”, de 1979, foi uma das poucas, senão a única a discutir “o homicídio piedoso”. Mais de 30 anos depois, o tema continua polêmico e raramente abordado na TV. Você não tem vontade de voltar a explorar o tema da eutanásia ou da ortotanásia em alguma novela sua? Ou essa temática teria te deixado traumatizado por todos os aborrecimentos que você teve ao contar a história de Paloma?

A novela Os Gigantes era muito mórbida. Já vi grandes obras sobre o tema, no teatro e no cinema (A Invasão dos Bárbaros). Os problemas maiores que tive na novela foram com o elenco e direção, saturados pela morbidez do tema.


Guilherme Staush pergunta:
10- Pra terminar, vou repetir uma pergunta que fiz a autora Cristianne Fridman, sua colega na Rede Record, na ocasião em que a entrevistamos aqui no blog.
Os grupos de discussão no Orkut são quase unânimes com relação a teledramaturgia da Rede Record. “Essas Mulheres” e “Cidadão Brasileiro” são apontadas como as melhores novelas da emissora, até então. Entretanto, a Record insiste em produzir novelas bem diferentes, com muita ação, violência, perseguição de carros, e todas elas com um número enorme de capítulos (“Ribeirão do Tempo” acabou com quase um ano no ar) tornando-as muito parecidas nesses aspectos. Como resultado, entra novela e sai novela, e a impressão que se tem é de que são todas as mesmas, só muda o título. Como você avalia isso?
Por que novelas de prestígio como as supracitadas não têm mais espaço na emissora?

Está claro para todos que a TV Record está direcionando sua base de comunicação a partir de temas de grande impacto policial. Basta analisar a opção clara do jornalismo da emissora: forte, investigativo e contundente. Por isso optei por fazer Poder Paralelo, uma novela bastante explosiva, de acordo com a linha da emissora. É preciso entender que a TV Record está numa fase de implantação da sua Rede. Não é fácil enfrentar a Rede Globo sem uma temática central de forte apelo popular. É uma opção e um caminho que está dando bons resultados, revelando as mazelas do submundo e a carência de socorro do poder público.
“Poder Paralelo” é uma novela que tratou de um tema bastante oportuno e atual no país: a máfia e o tráfico de drogas, a influência das organizações criminosas transnacionais e o poder paralelo gerado por essas gangues, que ensaiam sempre uma participação e influência no poder central da República. Foi importante falar das operações da Polícia Federal, no contato da máfia com as FARC e da intromissão de um poderoso organismo americano (DEA) no país.

"Navegantes" (título provisório), minha próxima novela, se passa em um cruzeiro marítimo. Estou trabalhando em um tema mais humanista, embora eu parta de um mistério (policial) para abrir a novela com forte impacto.

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