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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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terça-feira, 2 de abril de 2013



Especial
Novelas que foram sem nunca terem sido




A novela nasce na cabeça de seu autor, cresce nas mãos do diretor, e se perpetua no imaginário do público através das emoções que suscita. Essa é a ordem natural das coisas, desde que TV, em todo o mundo, decidiu lançar mãos dos folhetins para assegurar sua audiência. Entretanto, algumas novelas têm suas trajetórias interrompidas antes mesmo de irem ao ar: por vezes, com a interrupção de suas produções; e em outras tantas, por sequer saírem do computador de seus autores. Temos conhecimento destas tramas através de notas da imprensa e entrevistas dos profissionais que nela estavam envolvidos. O Agora é Que São Eles revisitou acervos de jornais, revistas e blogs e preparou um dossiê sobre as “novelas que foram sem nunca terem sido”. Tramas que não vimos, e provavelmente não iremos ver, na telinha e sobre as quais você só vai saber mais graças a este especial do nosso blog.

por Duh Secco


Globo

A Globo é a maior produtora de novelas do país e uma das maiores de todo o mundo. Para atingir esse patamar, padronizou sua produção e chegou a uma organização invejável, que lhe permite engatilhar diversas sinopses para cada horário e assim trabalhar perfeitamente cada detalhe de suas tramas. Mas, nem sempre as coisas saem como o planejado. A Globo já desistiu de algumas novelas a favor de outras, como o remake de O Profeta (que seria escrito por Ângela Carneiro e Elizabeth Jhin, em 2004), preterido por Cabocla, de Benedito Ruy Barbosa.


Preto No Branco (1983)
De Bráulio Pedroso

Em 1983, após integrar a equipe de criação do seriado Mário Fofoca, o autor Bráulio Pedroso passou a desenvolver sua próxima novela para a TV Globo. A trama trazia um negro como protagonista, uma inovação para a época. Aristides seria um tipo genial, capaz de fazer de Vavá, um homem desprovido de inteligência, o herdeiro de uma milionária. A sinopse ficou pelo caminho quando Bráulio Pedroso se desligou da Globo. Abaixo, um trecho da mesma, datado de 05 de julho de 1983 e publicado no Jornal do Brasil, em 2000, ano em que o acervo do autor foi doado à Fundação Casa de Rui Barbosa.

“Valdemar de Brito, mais conhecido por Vavá, chegou aos quarenta anos com raras vitórias e muito sorriso nos lábios. É um eterno otimista. E por crer em tudo, tem uma natural simpatia que o faz popular. Só que sua simpatia acaba rimando com idiotia. Não que seja um débil mental, longe disso. Mas longe dele também um brilho maior de inteligência. (...) Ao contrário de Vavá é Aristides da Silva, um negro retinto que, zombando dos teóricos do racismo, beira a genialidade. É do tipo aventureiro, audacioso, tanto que pela primeira vez faz um negro ser protagonista de novela. (...) De onde Aristides tirou a idéia de fazer de Vavá o filho da milionária? Da leitura de uma reportagem em cores. Foi ler e inspirar-se. Dizem que a audácia ilumina os necessitados. (...) Porém, Aristides nunca se excede. Conhece os limites. É extremamente sério na sua profissão de mentor da impostura. É autoritário com Vavá entre quatro paredes e submisso em público. Está sempre atento, sabendo que o perigo vem de onde menos se espera”.


Mar Morto (1995)
De Aguinaldo Silva
Baseada na obra de Jorge Amado

A Próxima Vítima, sucesso das 20h, seria substituída por O Rei do Gado, em setembro de 1995. Seria se não fosse o atraso na produção da trama de Benedito Ruy Barbosa. Diante dos imprevistos, a Globo decidiu transformar em novela a então minissérie Mar Morto, obra de Jorge Amado adaptada por Aguinaldo Silva para comemorar os 30 anos da emissora. Sobre a alteração do formato, Aguinaldo declarou ao O Globo, em maio de 1995: “Agora que virou novela, eu praticamente terei de criar outra história. O que fiz é inaproveitável para ficar oito meses no ar. Mas, como a espinha dorsal permanece, isso facilita o trabalho”. Aguinaldo desenvolveria a trama com Ana Maria Moretzsohn, Maria Elisa Berredo, Nelson Nadotti e Ricardo Linhares. Para o elenco, Glória Pires como Lívia, Maurício Mattar como Guma e Antônio Fagundes, como Murad. Mar Morto acabou preterida por Explode Coração, de Glória Perez, e só seria adaptada em 2001, também por Aguinaldo Silva e com Fagundes no elenco, mas com novo nome: Porto dos Milagres.


Alto Da Serra (1998)
De Flávio de Campos e Marcílio Moraes

O Brasil pré-republicano serviria de cenário para a história de amor de Júlia e Demétrio, na substituta de Era Uma Vez..., Alto da Serra, novela de Flávio de Campos e Marcílio Moraes. A trama, que seria dirigida por Ignácio Coqueiro sob o núcleo de Carlos Manga, usaria a luta pela abolição e a imigração alemã como pano de fundo para as divergências ideológicas do casal Júlia, uma costureira monarquista, e Demétrio, republicano militante. O rapaz fora abandonado pela mãe quando criança e, por este motivo, decidiu investigar o seu passado. Ao longo da narrativa, descobriria o pai e disputaria o amor de Júlia com seu irmão. Sabe-se lá por que a novela acabou engavetada, cedendo espaço para a segunda versão de Pecado Capital.


Escândalo (1998)
De Miguel Falabella

O fundador de um tradicional jornal morre e deixa a administração do negócio nas mãos de um filho incompetente. Para evitar a decadência total da empresa, a linha editorial deixa de ser sóbria e passa a ser sensacionalista. Este era o mote central de Escândalo, novela de Miguel Falabella, que teria colaboração de Aloísio de Abreu e Cláudio Paiva, e seria exibida às 19h, no segundo semestre de 1998. José Wilker daria vida ao herdeiro, que disputaria com a irmã malvada, Marília Pêra, o controle do jornal. A irmã, viúva de um banqueiro, lutaria pela guarda do neto, filho de uma garota pobre, Malu Mader, com o seu rebento, que morreria tragicamente nos primeiros capítulos. Tal trama fora reaproveitada em A Lua Me Disse, com as personagens Ester (Zezé Polessa) e Heloísa (Adriana Esteves). A trama discutiria ainda homossexualismo, racismo, ética e corrupção. Rosi Campos viveria uma paparazzi; Arlete Salles, uma atriz decadente; e Zezeh Barbosa, um dos membros da família negra de classe alta, composta ainda por Chica Xavier, Clementino Kelé e Elisa Lucinda. Escândalo não foi produzida, mas ficou lembrada pelo manifesto do ator Ricardo Brasil, que espalhou outdoors pelas ruas do Rio de Janeiro, com o seguinte apelo: “Falabella, eu quero fazer Escândalo!”


A Dança Da Vida (2001)
De Maria Adelaide Amaral

Este é um dos casos mais famosos de novelas que não saíram do papel. Para substituir a complicada A Padroeira, a Globo escalou Maria Adelaide Amaral e sua A Dança da Vida. Fábio Assunção seria o protagonista, Daniel, estudante de economia que ajudava moradores de comunidades carentes a desenvolver negócios. Filho bastardo de um senador corrupto, Conrado (Fúlvio Stefanini), Daniel herda uma fortuna do pai e aplica parte do dinheiro em entidades que ajudam crianças pobres, entrando em conflito com Laura, sua ambiciosa noiva, vivida por Adriana Esteves. A novela vinha avançando na produção e já contava com grandes nomes para seu elenco: Júlia Feldens como Beatriz, milionária solitária apaixonada por Daniel; Lília Cabral como a esposa do senador, Gilda Souza Lopes (personagem que seria de Irene Ravache, a princípio); Márcia Cabrita como Cida, empregada do senador; Vladimir Brichta como o vilão Quirino, motorista de Gilda; Paulo Vilhena como o mauricinho Otavinho; além de Mauro Mendonça e Vera Holtz. Eis que o Ministério Público classifica a trama como imprópria para 14 anos (exibição às 21h). Para suavizar a novela, Mário Lúcio Vaz, diretor artístico da Globo, suprimiu do enredo uma prostituta, um traficante e um dependente químico. Sobre as alterações, Maria Adelaide declarou à Folha de São Paulo, em 19 de outubro de 2001: “Acharam a minha novela meio “forte” para o horário das 18h. Algumas coisas incomodavam e foram retiradas, mas a corrupção política e a discussão ética são inegociáveis. Sem isso não há novela”. E realmente não houve novela. A produção fora suspensa e alguns dos atores escalados remanejados para Coração de Estudante, trama que ocupou o horário.


Até Que Enfim (2003)
De Ana Maria Moretzsohn

Diferentemente de A Dança da Vida, Até Que Enfim, planejada para o horário das 19h, sequer chegou a entrar na linha de produção da Globo. A trajetória da mulher romântica, dona de uma agência de casamento, apaixonada por um pragmático empresário do ramo, serviria de base para as histórias mais curtas que envolveriam casais que passassem pela agência. Algo como o proposto por Gilberto Braga e Ricardo Linhares nas participações especiais de Insensato Coração. Ana Maria Moretzsohn, a autora de Até Que Enfim, já havia testado formato semelhante em Malhação e em um seriado que escreveu para a TV portuguesa.


Deusa Da Ilusão (2004)
De Ana Maria Moretzsohn

Após propor Até Que Enfim, Ana Maria Moretzsohn entregaria um novo projeto inovador a Globo, também para as 19h. Deusa da Ilusão, escrita em parceria com sua filha, Patrícia, se passaria em uma indústria de cosméticos. A ambientação daria margem a participações de telespectadores, que seriam sorteados para passar por uma transformação real, dentro do enredo fictício. Uma “reality novela” que contaria também com votações por telefone, a cada 15 dias, para decidir o rumo de parte da história, como no extinto Você Decide. O êxito que a Globo vinha obtendo com novelões clássicos na época pesou e Deusa da Ilusão, que faria uma intensa crítica aos padrões de beleza e a relações neuróticas com o físico, não emplacou.


Um Estranho Amor (2004)
De Alcides Nogueira

“Imaginava ter descoberto um ‘plot’ original, e ele já existe, nem tenho como negar! Como sou advogado pós-graduado em direito autoral, jamais me valeria de um plágio”. A afirmação de Alcides Nogueira botou um ponto final na curta trajetória de Um Estranho Amor, novela proposta pelo autor para a faixa das 18h. A trama se iniciava praticamente da mesma forma que o livro do francês Marc Levy, E Se Fosse Verdade: um arquiteto (André) aluga um apartamento e se depara com uma bela mulher (Laura, uma editora de moda) o ocupando. Ela confessa ser a alma da ex-inquilina, que sofreu um acidente e está em coma. André confere: Laura realmente está numa UTI. O arquiteto se apaixona pela alma de Laura, e os dois vivem um romance. Até que ela sai do coma e o rejeita, por não se lembrar de nada. Devido a essa infeliz coincidência, Um Estranho Amor acabou engavetada.


Por Aí (2005)
De Andrea Maltarolli

Andrea Maltarolli faria sua estreia como autora-solo três anos antes da simpática Beleza Pura, caso a Globo não tivesse suspendido a produção de Por Aí. Com direção de Carlos Manga e supervisão de texto de Carlos Lombardi, Maltarolli desenvolvia os capítulos desta comédia sobre uma sociedade secreta que desenvolvia pesquisas com transgênicos e uma quadrilha rural, que planejava um assalto para ajudar a mocinha caipira, perdida no Rio de Janeiro por conta das armações da tal sociedade, que contava com um cientista mal-humorado, o mocinho, que sofria de transtorno obsessivo-compulsivo. Concebida como Operação Vaca Louca, Por Aí acabou cedendo sua vaga para Bang-Bang, trama de triste lembrança.


João Ao Cubo (2012)
De Carlos Lombardi

Antes de deixar a Globo rumo à Record, Carlos Lombardi apresentou a sinopse de João Ao Cubo. Na novela, uma agência de viagens promete levar seus usuários a outros tempos. Assim, o protagonista João passa a viver seus amores em três épocas diferentes da história da humanidade. Como a sinopse pertence a Globo, mas seu autor está na concorrente, possivelmente não veremos João Ao Cubo tão cedo...

***

Próximo Capítulo: as tramas descartadas por Record e SBT. Não percam!



terça-feira, 18 de outubro de 2011



"Aquele Beijo" traz humor de Miguel Falabella de volta às 7.

por Guilherme Staush



      Estreou ontem, com 35 pontos de média, “Aquele Beijo”, novela das 19h da Globo, escrita por Miguel Falabella. Foi a maior média dentre as estreias das últimas seis produções do horário. Essa é a segunda novela do autor sem a parceria de Maria Carmem Barbosa, com que fez  "Salsa e Merengue" e "A Lua Me Disse".








     Com direção geral de Cininha de Paula, o capítulo de estreia girou em torno da protagonista Cláudia (Giovanna Antonelli), que em meio a uma crise com o namorado Rubinho (Victor Pecoraro), faz uma viagem a trabalho, e na fila do check in conhece Vicente (Ricardo Pereira), por quem sente um algo a mais naquele momento. 
A novela contou também o drama dos moradores do Covil do Bagre, que sofreram com a ameaça de demolição do prédio onde vivem, para que no lugar seja construído um complexo  de lojas de propriedade do poderoso Alberto (Herson Capri). Os moradores foram salvos no último minuto pelo advogado Vicente, que conseguiu uma liminar impedindo a demolição do prédio, tornando-se um herói, defensor dos fracos e oprimidos, logo nos primeiros minutos de exibição da novela.

      A trama não trouxe grandes novidades, é bem simples (e romântica) por sinal, uma história de amor bem tradicional para quem esperava algo de mais extravagante em se tratando de Miguel Falabella. O grande diferencial é a maneira com que a história está sendo contada. A narração (do próprio Miguel) apresentando as personagens e suas histórias foi um grande acerto. Além de o público ter a oportunidade de conhecer de forma mais aprofundada o perfil das personagens logo de cara, evitou os recorrentes clichês pra lá de didáticos que são típicos do primeiro capítulo de uma novela, e que tanto chateiam os telespectadores mais exigentes. E a voz, já bem familiar do autor, aproxima ainda mais o público da história.

      O núcleo de Mãe Iara (Cláudia Jimenez) e Joselito (Bruno Garcia) foi um dos grandes destaques do capítulo. A farsante mãe-de-santo, que acusa impiedosamente seu ajudante de ter sido o culpado pela morte de sua mãe, ocorrida na porta de sua casa, promete render ótimas cenas de humor. Bruno é sempre ótimo fazendo comédia, e Cláudia, apesar de nos últimos anos ter assumido uma constante expressão trágica em seu rosto e um jeito de falar mais melancólico ainda, faz render o ótimo texto do autor, resultado de uma parceria de anos.

     Um ótimo primeiro capítulo, que cumpriu com louvor a tarefa de apresentar as personagens da novela  ao público e garantir a volta do tradicional humor do horário das 7.  Enfim, pouco a se dizer em se tratando de um simples capítulo. Muitas personagens importantes ainda entrarão em cena, como as de Grazi Massafera e Zezeh Barbosa, e a Maruschka de Marília Pêra deverá ser melhor definida até o final desta primeira semana.

     É sempre um prazer poder rever ótimas atrizes como Patrícia Bueno, de volta às novelas depois de 25 anos (sua última foi "Mania de Querer", na extinta Rede Manchete). Por outro lado, a repetição de papéis a que a maravilhosa atriz Elizângela tem sido submetida nos últimos tempos, chega a ser irritante.

      Outro destaque fica por conta da abertura da novela, que exibe uma sequência de cenas de beijos marcantes da teledramaturgia brasileira, como os de Sassá Mutema e Clotilde em “O Salvador da Pátria”, de Amanda e Herculano Quintanilha em “O Astro” e de Jade e Lucas em “O Clone”, entre outros.

      Na trilha sonora, regravações de antigos sucessos como “Garota de Ipanema” com Daniel Jobim (tema de abertura) se misturam às gravações originais de músicas antigas, como “Garota Sangue Bom”, de Fernanda Abreu e “Flash-Back”, de Dalto, dos anos 80.  Além destas, as recentes “Vai de Madureira", de Zeca Baleiro, e “Exato Momento”, de Zé Ricardo, tema dos protagonistas Cláudia e Vicente, integram a trilha.



CLIQUE AQUI e confira a entrevista exclusiva com o autor Miguel Falabella, realizada pela equipe do AGORA.



*** 


sábado, 3 de setembro de 2011



MIGUEL FALABELLA





"Aquele beijo traz uma galeria de personagens curiosos porque a fauna urbana é sempre motivo de inspiração. E, na medida do possível, tentamos ser tão  politicamente incorretos quanto nos permita o horário."  


Nosso entrevistado da vez é o multitalentoso Miguel Falabella, ator, diretor, produtor, dramaturgo, cineasta e apresentador. Workaholic assumido, Miguel no momento se prepara para colocar no ar a novela “Aquele Beijo”, que estreia dia 17 de outubro, às 7 da noite, enquanto “A Escola do Escândalo”, peça dirigida por ele, é encenada nos palcos brasileiros.
Miguel é um dos poucos autores que conseguem ser populares sem perder a qualidade. Sempre buscando inovação, seus textos inteligentes, ousados e divertidos são um verdadeiro presente para o telespectador do horário das 7.

Apesar de precisar bem mais do que 24 horas por dia para desempenhar todas as suas atividades, Miguel, gentilmente, nos concedeu uma  ótima entrevista onde ele fala de tudo um pouco: de salsa, de merengue, de luas, de negócios da china, de escândalos, e “até” sobre aquele beijo ...


ENTREVISTA EXCLUSIVA


Guilherme Staush pergunta:
1.  Pra começar, o que o público pode esperar de “Aquele Beijo”? O que você pode adiantar para os nossos leitores sobre a sua novela?

Giovanna Antonelli e Ricardo Pereira
em cena de Aquele Beijo
 Aquele Beijo é, em sua essência, uma comédia romântica, a partir da protagonista Claudia (vivida por Giovanna Antonelli), que é divertida, atrapalhada e contraditória. Gosto especialmente do universo que beira o absurdo, das figuras de exceção, daquele tipo peculiar que acaba nos espelhando de alguma maneira. Aquele beijo traz uma galeria de personagens curiosos nesse sentido, porque a fauna urbana é sempre motivo de inspiração. E, na medida do possível, tentamos ser tão  politicamente incorretos quanto nos permita o horário.  


Fernando Russowsky pergunta
2. "Miguel Falabella promete 'abalar as estruturas' da telenovela com Escândalo, seu próximo projeto (...)". Uma nota mais ou menos assim saiu na imprensa quando Salsa e Merengue ainda estava no ar, e foi a primeira que eu li sobre a novela, que teve ampla divulgação, chegando até a ter elenco escalado e estreia marcada para 1998, mas acabou sendo abortada pela Rede Globo sob a alegação de ser muito polêmica para um ano eleitoral. Você poderia resumir brevemente a sinopse? O que havia de tão polêmico? Sabe-se que haveria personagens negras racistas, ideia aproveitada em A Lua Me Disse, e um jornal sensacionalista, na linha da revista A Vida Alheia. Que outras ideias deste projeto foram aproveitadas em seus trabalhos posteriores? Você ainda pretende levar a novela ao ar?

Acho que Escândalo não foi aprovada, porque não tinha uma sinopse boa o bastante. As histórias precisariam ser trabalhadas, mas eu acabei desmembrando e, como você mesmo colocou, aproveitei situações e personagens em outros trabalhos. Respondendo objetivamente a sua pergunta: não tenho intenção de retomar o projeto. 


Daniel Pepe pergunta:
3.  Você é um dos raros artistas que atua em teatro, cinema e tevê, seja como autor, ator ou diretor. Em qual meio e função sente-se mais à vontade? Quais trabalhos você elegeria como os mais importantes de sua carreira em cada meio?

Cláudia Jimenez em Como
Encher um Biquíni Selvagem
Acho que, como autor, A Partilha foi a peça que me deu mais alegrias e louros, mas eu tive o privilégio de ter uma carreira muito bem sucedida nos palcos e entre os meus textos favoritos também está Como Encher um Biquíni Selvagem, grande sucesso de Claudia Jimenez. Escrevi também em parceria com Maria Carmem Barbosa Louro, Alto, Solteiro, Procura... foi o nosso maior sucesso de bilheteria. Acho que meu melhor trabalho de diretor foi minha estreia na função: Emily, do americano William Luce, que eu fiz com Beatriz Segall em 1984. E como ator eu tenho um carinho especial pelo Caco Antibes, porque até hoje ele é lembrado e acarinhado pelo público, muito embora o Miro da Janete Clair em Selva de Pedra tenha sido um grande empurrão na minha carreira em televisão. 


Alexandre Barilari e Maria Maya
em Salsa & Merengue
Duh Secco pergunta:
4.  Sua primeira novela, Salsa e Merengue, fez sucesso ao apresentar personagens engraçados como Marinelza (Zezé Polessa) e o casal Candinho e Socorro (Marcos Oliveira e Stella Miranda). Até mesmo o casal Antonio e Kelly Bola (Alexandre Barilari e Maria Maya), também com apelo cômico, acabaram mais populares do que os protagonistas, Eugênio e Madalena (Marcello Antony e Patrícia França), que nem sequer chegaram ao final juntos. Você prefere lidar com tipos engraçados, que sempre permeiam suas novelas, do que com tramas românticas, como o perfil dos protagonistas sempre exige?

Veja bem, eu gosto do politicamente incorreto, de modo que o casal romântico acaba sendo prejudicado, porque não se espera dos protagonistas determinado tipo de atitude. Mas a gente aprende. Em A Lua me Disse, conseguimos (eu e Maria Carmem) fazer da Adriana Esteves uma protagonista combativa e divertida. Nós sempre precisamos estar atentos para que o humor não engula todo o resto. Achar esse equilíbrio é muito delicado no fim das contas. Mas é claro que eu gosto mesmo é das criações raras, gosto dos esquecidos, daqueles que não estão no padrão, gosto dos patinhos feios e daqueles que são jogados à margem da sociedade contra sua vontade. Isso, a meu ver, é o sal da terra.  


Guilherme Staush pergunta
5.  “A Lua Me Disse”, na minha opinião, é uma das melhores novelas das 7  desde a virada do século. Poucas vezes viram-se personagens tão ricos e cheios de história para contar reunidos em uma mesma telenovela, que teve ainda doses bem equilibradas de romance, comédia, aventura e cenas policiais, sem contar algumas cenas antológicas, como quando Adalgisa (Stela Miranda) e Adaíl (Bia Nunnes)
Adail (Bia Nunnes) e Adalgisa
(Stella Miranda)  rasgam o vestido de
Índia (Bumba) em A Lua me Disse
rasgam o vestido de Índia (Bumba) ou a cena em que Naíde (Maria Gladys) é abandonada no altar pelo noivo que confessa que é gay, e sai da igreja rasgando o vestido.
Você se inspirou em pessoas que você conheceu ao longo de sua vida para escrever as personagens dessa novela ou elas saíram todas de sua imaginação e da de Maria Carmem Barbosa? As duas cenas que eu citei de “A Lua” tiveram como referências Cinderela e Selva de Pedra, respectivamente, certo? Você pretende utilizar esse recurso em “Aquele Beijo”, também?

Embora eu não esteja escrevendo a novela com Maria Carmem, o espírito de Salsa e Merengue e A Lua Me Disse está presente em Aquele Beijo, já que, como afirmei na resposta anterior, gosto particularmente desse universo crítico e de referências, como você tão bem assinalou. Em Aquele Beijo, eu resolvi narrar a história, de modo que o telespectador ouvirá intervenções desse narrador onisciente durante o desenrolar da trama. Há, igualmente, uma galeria de personagens saborosos e divertidos. Mas as referências continuam. Por exemplo, a história da austríaca Natascha Kampusch, que foi raptada e viveu oito anos trancada num porão, foi a minha inspiração para a personagem da Zezeh Barbosa que fica prisioneira de um nobre francês por vinte anos e volta para tentar recuperar os laços com a filha que ela deixou num Lar.


Guilherme Staush pergunta:
6.  Ainda sobre “A Lua”, você teve alguns problemas com o Ministério Público por conta de personagens como o Odorico (Daniel Torres) e a Índia (Bumba). Ao escrever a atual novela, você pensa em coisas com que o MP pode ou não implicar? Você se monitora no sentido de suavizar certos personagens ou cenas, achando que poderão trazer problemas?

Não. Não fico me censurando, porque tem gente que é paga pra isso. É claro que se algum dos colaboradores vem com uma idéia louca, eu preciso agir como censor (mesmo que eu tenha adorado a idéia), porque estamos escrevendo para televisão aberta e há uma responsabilidade social naquilo que se apresenta.   


Daniel Pepe pergunta:
7.   Suas duas novelas do horário das sete (Salsa e Merenge e a Lua Me Disse) não apresentaram problemas de audiência. No entanto, muitas foram as que atravessaram turbulências neste horário. Em As Filhas da Mãe (2001), Sílvio de Abreu optou por adiantar o término da novela a fazer mudanças que pudessem elevar os índices. Já na atual Morde e Assopra, Walcyr Carrasco mexeu na trama de modo que a audiência reagisse positivamente. O que pensa das duas situações?

Sempre há ajustes a se fazer e, no fim das contas, o público é sempre soberano nesse sentido. Se uma novela atinge altos níveis de audiência, ela deixa de ser julgada, seja boa ou não. Na televisão comercial o que interessa são os índices, de modo que se houver a necessidade de fazermos ajustes, eu e a equipe os faremos, sem problemas. Televisão não é um território onde se exercite o autoral, porque no fim das contas quase tudo acaba sendo uma grande criação coletiva. Quem quiser ser autoral, que escreva para o palco.


Duh Secco pergunta:
Grazi Massafera e Fábio
Assunção em Negócio da China
8.   Na época de “Negócio da China”, você declarou que não gostaria de escrever novelas para a faixa das 6, cujo público fora considerado por você como “uma incógnita”. A novela passou por períodos conturbados, envolvendo a saída do protagonista (Fábio Assunção), o que acabou prejudicando o andamento da trama. Como foi administrar as dificuldades pela qual a novela passou e conviver com as manchetes de revistas e jornais anunciando “os baixos índices de Negócio da China”, e ainda tendo que escrever os episódios de Toma Lá Dá Cá?  
    
Eu não tenho problema com isso, porque a vida me ensinou muito cedo que vence aquele que sabe apanhar. Todo mundo sabe bater e todo mundo apanha, mas o segredo é não cair. O grande triunfo da nossa profissão é perseverar no fim das contas, porque são muitas as baixas pelo caminho. Negócio da China teria sido uma ótima novela das sete, porque eu poderia ter investido mais na comédia, mas já passou. Além do mais, não se esqueça, a novela estreou e, no segundo dia, aquela moça foi raptada na periferia de São Paulo e não se falava noutra coisa. A novela era interrompida duas ou três vezes para plantões especiais sobre a tragédia. A coisa se arrastou por quinze dias. Alguém podia se interessar pela novela, quando uma tragédia daquelas proporções, com lances rocambolescos, se desenrolava bem ali, na vida real? Depois, Fabinho teve que sair e aí eu resolvi me divertir e fui pro Toma Lá Dá Cá. 


Fernando Russowsky pergunta:
9.  "Não vou discutir com quem foi a Maria Faz-Favor em Coração Alado!". Este tipo de caco era dito frequentemente pela sua personagem em Sai de Baixo. Em outras oportunidades, declarações suas me deram a impressão de que você sempre teve o hábito de assistir novelas e possui um considerável conhecimento histórico sobre o tema. Você confirma esta impressão? Em caso afirmativo, pergunto ao espectador Miguel: quais foram as "novelas da sua vida" e por quê? Você concorda com a ideia de que "não se fazem mais novelas como antigamente"?

Na minha casa assistia-se às novelas. Eu cresci assistindo novela e gosto do gênero. Lembro muito de Pecado Capital, O Casarão, O Astro e Dancing Days, é claro. E as deliciosas comédias do Silvio de Abreu. Não sei se já não se fazem mais novelas como antigamente. Eu não afirmaria isso. Acho que a maneira de se assistir às telenovelas é que mudou drasticamente, dadas às possibilidades de uma sociedade informatizada e midiática como a nossa.


Miguel Falabella na apresentação
do Vídeo Show
Guilherme Staush pergunta:
10.   Desde que você deixou a apresentação do Vídeo Show em 2002, o programa vem mudando bastante de formato, e tem sempre dado prioridade aos quadros que funcionam como uma vitrine da programação atual da emissora em detrimento às imagens de arquivo, que esboçavam a memória da televisão. Você se afastou do programa por não concordar com essas mudanças? O que acha dessa perda de identidade que o programa teve - o resgate da memória televisiva -  com o passar do tempo?

Acho que o Video Show que eu apresentava era outro. Mas a única constância do universo é a mudança. O programa vai ser sempre uma saudade e um carinho em meu coração, afinal eu apresentei o Video Show por quinze anos.



BATE-BOLA com Miguel Falabella


Minha novela preferida é ...  Cambalacho

Ser carioca é ... Bom, eu nasci no estado da Guanabara (que saudade da Guanabara!) em São Cristóvão, e fui criado na Ilha do Governador, de modo que sou carioca da gema. Acho que há um dialeto carioca que é facilmente perceptível e que acaba por nos irmanar. 

Me tiram do sério quando ...  o tolero injustiças. Você conhece uma pessoa pela maneira como ela trata aqueles que precisam ser empregados.

A cena mais antiga de novela que guardo na memória é ... Arlete Salles em Selva de Pedra me marcou definitivamente. Mas lembro de imagens vagas de A Deusa Vencida e de Ana Rosa, se não me engano, vestida de freira e se encontrando com a irmã gêmea, ela mesma,  num truque, na época, sensacional. Acho que era isso.

Uma cena de novela inesquecível: a "morte" de Simone na primeira versão de Selva de Pedra.

Um afago e uma punhalada nas costas: os afagos são muitos e bem vindos. As punhaladas só lhe atingem até você conhecer o agressor. Geralmente eles são fracos, inseguros e medrosos e nunca olham dentro dos olhos. Conheça o seu inimigo. Ele acaba se dissolvendo.

Beijo gay na teledramaturgia: quando a sociedade estiver pronta, vai assinalar, e o beijo vai acontecer. E aí vão inventar outra coisa. Acho que o importante são as leis que criminalizem a homofobia, porque isso é realmente inaceitável num país que pretende avançar. 


Minha maior recordação de Sol de Verão é:  Jardel Filho no camarim da velha emissora, conversando comigo e dizendo que ele ia me ensinar a ser um Jardelzinho...


Esperar   é uma merda!


***