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segunda-feira, 4 de abril de 2011


Trilogia da expectativa

por Daniel Pepe


Insensato Coração já passa de dez semanas no ar, mas causa a impressão de ainda não ter tido aquele “start”, o acontecimento que modifica a vida das personagens e que direciona os rumos da história para outros caminhos. Mas não passa de impressão mesmo, pois tanto os personagens principais, quanto boa parte dos secundários, já tiveram os cursos de suas histórias bem alterados. Então, o que talvez esteja faltando seja um impacto no telespectador que lhe faça ter aquele sentimento catártico de querer continuar a acompanhar a novela para ver qual será o destino da história.

Esse mal aconteceu também nas novelas anteriores do mesmo horário. Passione (2010/11) foi cheia de acontecimentos e reviravoltas, com a vilã pintando e bordando e ainda sendo desmascarada logo no primeiro mês. Mas o que se sentia pelo público era que a novela ainda não tinha começado. Paradoxal, mas era o que acontecia. Com Viver a Vida (2009/10), o sentimento era o mesmo mas, neste caso, a novela já se propunha por ter um ritmo mais lento, portanto a decepção foi menor.

O que as três novelas têm em comum é o fato de algum acontecimento importante estar marcado desde antes da estreia. Pior do que isso, é ele ter sido alardeado, inclusive pelos próprios autores. Em Viver a Vida sabia-se que Luciana (Alinne Moraes) sofreria um acidente e ficaria tetraplégica. Maneco disse que tal fato aconteceria no capítulo 30, mas se concretizou mesmo no 47. Depois do acidente esperou-se até o último capítulo para vermos Luciana definindo um rumo profissional e podendo até tirar carteira de motorista. Acontecimentos louváveis para pessoas em sua condição, que poderiam ter sido mais bem explorados no decorrer da novela. Em Passione, Sílvio de Abreu disse que um dos personagens principais seria assassinado por volta do capítulo 100, o que só ocorreu no 126. Aí o caso já foi mais delicado porque isso representa a metade, ou um pouco mais, da novela. E mesmo chegando ao fatídico ponto, o contrário aconteceu. Se a novela antes era morna, deu uma boa esfriada para só retomar o fôlego nas últimas semanas.

A situação de agora se concentra no fato da personagem de Glória Pires, Norma, ter sido anunciada como a grande vilã da novela, muito antes dela começar. Mais uma grande expectativa, talvez a maior de todas, já que a atriz vem de papéis de mornos para frios na última década. E pesa bastante o fato de Glória ser notável por seus desempenhos como vilã, sendo o último deles a Raquel da longínqua Mulheres de Areia (1993). O público aguardava ansiosamente por mais um papel desses, tanto os que a conheceram dessa forma, quanto os que não tiveram a oportunidade de conferir ainda.

O papel de Norma é bom, mas é desenvolvido lentamente, tendo, até o momento, o mesmo peso de muitos outros personagens secundários da história. Diz-se também que será a partir de quando ela sair da prisão que vai aprontar todas do jeito que o povo gosta. A expectativa foi então transferida para uma determinada altura da novela.

O que pode redimir Insensato Coração, colocando-a a frente de suas antecessoras nesse ponto, será causar grandes impactos com a saída de Norma da cadeia. Caso contrário, continuará figurando ao lado delas como uma novela que não aconteceu, mas que poderia ter acontecido.

quinta-feira, 17 de março de 2011


As três vilãs (não memoráveis) de Ti Ti Ti

Por Daniel Pepe

Dos primórdios da teledramaturgia até algumas décadas depois, os vilões, via de regra, eram escritos para serem odiados pelo público, o que fazia com que muitas vezes o próprio ator fosse hostilizado na rua. De uns tempos pra cá, muitos desses personagens passaram a apresentar características que, se não faziam o público torcer para que eles se dessem bem no final, faziam com que tivesse alguma simpatia por eles.

Isso acontece geralmente pelo carisma presente no personagem. Seja pela criação do autor, construção do ator, ou ambas, tem sido mais comum os vilões serem queridos. Não é questão de torcer ou ser a favor de mau-caratismo, mas de ver um ótimo trabalho apresentado na tevê. Além do que, tais personagens quase sempre são a mola propulsora das ações nas novelas. A condução da história e a interpretação justificam ao telespectador querer ver mais cenas desses personagens. A galeria desses tipos é imensa e, só para citar algumas, temos as clássicas Odete Roitman, Maria de Fátima (ambas de "Vale Tudo"), Branca Letícia ("Por Amor") e Nazaré Tedesco ("Senhora do Destino"). Não é exagero dizer que muitos só assistiam a tais novelas por causa dessas personagens.

O mesmo não ocorre na atual versão de Ti Ti Ti. Independentemente da intenção dos autores, Stéphany (Sophie Chalotte), Clotilde (Juliana Alves) e Luísa (Guilhermina Guinle) não passam o carisma presente em outras vilãs. Pelo contrário, elas despertam aqueles sentimentos da época onde predominava somente a torcida pelo protagonista, sem qualquer simpatia pelo vilão. Uma das causas para isso é o grande carisma que suas oponentes apresentam.

Stéphany desde sempre mostrou inveja pela prima Desiree (Mayana Neiva), almejando tudo o que era dela, fosse o merecimento do afeto da família ou seu namorado. Manteve como alvo a prima e a tia. Seu ar sonso de sempre se fazer de vítima conseguindo alguns poucos que acreditassem nela é algo que não agrada muito. Além disso, Desiree é muito carismática, o que vem não só da personagem, como também da atriz que fez um bom trabalho. Por fim, a personagem nunca demonstrou gostar de ninguém, nem uma leve paixão sequer, tornando a personagem um pouco vazia.

Clotilde entrou numa busca desenfreada por sempre tentar manter Jacques (Alexandre Borges) no topo do seu ramo como estilista, fazendo todas as armações possíveis para isso. Por conta disso, nota-se que ela não quer apenas ter dinheiro, mas ser reconhecida como o braço direito do marido, de quem gosta. Nesse caso tanto o texto quanto a interpretação da atriz comprometeram. O primeiro esteve sempre cheio de armações forçadas pela personagem, de modo que muitas vezes ela se beneficiou de informações que chegavam até ela, ao invés de partir dela mesma a iniciativa. A segunda fica comprometida por conta da pouca experiência da atriz, fazendo com que soem forçadas algumas entonações. Também fica difícil competir com a sua oponente Jaqueline (Cláudia Raia), uma das personagens mais carismáticas da novela.

Luísa, a mais complexa dramatúrgica e psicologicamente das três, teve sempre como foco conquistar Edgar (Caio Castro), sua paixão doentia. Mais do que simples armações, vez ou outra lançou mão de artifícios considerados típicos de alguém muito perturbado. Aqui também a personagem muitas vezes se beneficiou de informações que chegavam até ela, mas, nesse caso, como o foco sempre foi a perturbação psicológica da personagem, o todo não ficou comprometido. Sua antagonista Marcela (Ísis Valverde) é mais carismática, tem uma boa história desde o começo e a peita sem ficar acuada, fatores que fazem com que ganhe pontos com o público.

Diante disso tudo, a novela termina sem uma grande vilã memorável. Ficará marcada por outros personagens, mais carismáticos e melhor defendidos.