Trilogia da expectativa
por Daniel Pepe
Insensato Coração já passa de dez semanas no ar, mas causa a impressão de ainda não ter tido aquele “start”, o acontecimento que modifica a vida das personagens e que direciona os rumos da história para outros caminhos. Mas não passa de impressão mesmo, pois tanto os personagens principais, quanto boa parte dos secundários, já tiveram os cursos de suas histórias bem alterados. Então, o que talvez esteja faltando seja um impacto no telespectador que lhe faça ter aquele sentimento catártico de querer continuar a acompanhar a novela para ver qual será o destino da história.
Esse mal aconteceu também nas novelas anteriores do mesmo horário. Passione (2010/11) foi cheia de acontecimentos e reviravoltas, com a vilã pintando e bordando e ainda sendo desmascarada logo no primeiro mês. Mas o que se sentia pelo público era que a novela ainda não tinha começado. Paradoxal, mas era o que acontecia. Com Viver a Vida (2009/10), o sentimento era o mesmo mas, neste caso, a novela já se propunha por ter um ritmo mais lento, portanto a decepção foi menor.
O que as três nove
las têm em comum é o fato de algum acontecimento importante estar marcado desde antes da estreia. Pior do que isso, é ele ter sido alardeado, inclusive pelos próprios autores. Em Viver a Vida sabia-se que Luciana (Alinne Moraes) sofreria um acidente e ficaria tetraplégica. Maneco disse que tal fato aconteceria no capítulo 30, mas se concretizou mesmo no 47. Depois do acidente esperou-se até o último capítulo para vermos Luciana definindo um rumo profissional e podendo até tirar carteira de motorista. Acontecimentos louváveis para pessoas em sua condição, que poderiam ter sido mais bem explorados no decorrer da novela. Em Passione, Sílvio de Abreu disse que um dos personagens principais seria assassinado por volta do capítulo 100, o que só ocorreu no 1
26. Aí o caso já foi mais delicado porque isso representa a metade, ou um pouco mais, da novela. E mesmo chegando ao fatídico ponto, o contrário aconteceu. Se a novela antes era morna, deu uma boa esfriada para só retomar o fôlego nas últimas semanas.
A situação de agora se concentra no fato da personagem de Glória Pires, Norma, ter sido anunciada como a grande vilã da novela, muito antes dela começar. Mais uma grande expectativa, talvez a maior de todas, já que a atriz vem de papéis de mornos para frios na última década. E pesa bastante o fato de Glória ser notável por seus desempenhos como vilã, sendo o
último deles a Raquel da longínqua Mulheres de Areia (1993). O público aguardava ansiosamente por mais um papel desses, tanto os que a conheceram dessa forma, quanto os que não tiveram a oportunidade de conferir ainda.
O papel de Norma é bom, mas é desenvolvido lentamente, tendo, até o momento, o mesmo peso de muitos outros personagens secundários da história. Diz-se também que será a partir de quando ela sair da prisão que vai aprontar todas do jeito que o povo gosta. A expectativa foi então transferida para uma determinada altura da novela.
O que pode redimir Insensato Coração, colocando-a a frente de suas antecessoras nesse ponto, será causar grandes impactos com a saída de Norma da cadeia. Caso contrário, continuará figurando ao lado delas como uma novela que não aconteceu, mas que poderia ter acontecido.


